Por resultado em avaliações de redes, professores mudam formato de provas

Por Cinthia Rodrigues - iG São Paulo |

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Estudo mostra que educadores buscam formular questões parecidas com as que serão feitas por provas padronizadas

O que era para servir de avaliação do processo de ensino e aprendizagem que ocorre dentro das escolas está se tornando um manual do que e como ensinar. Um estudo apresentado nesta segunda-feira pela Fundação Carlos Chagas em parceria com a Fundação Itaú Social mostra que as provas externas feitas por governos para mensurar a qualidade de ensino são usadas por escolas como modelo de conteúdo e questão.

Arte iG
Avaliações externas como a Prova Brasil passam de teste para referência de conteúdo e formato


A pesquisa qualitativa foi feita em 2012 em quatro redes, três com provas próprias – a Estadual do Espírito Santo e as municipais de São Paulo (SP) e Castro (PR) – e uma que usa as avaliações estadual e nacional, a de Sorocaba (SP). Em cada cidade foram ouvidos gestores, dirigentes, coordenadores pedagógicos e professores de quatro escolas.

Em parte das redes houve afirmações de que há treino específico tanto com simulado de questões quanto para o preencimento dos cartões de resposta. Em todas, professores e coordenadores pedagógicos relataram ter se inspirado nas questões para mudar a própria forma de avaliar.

O pesquisador Nelson Antonio Simão Gimenes, um dos coordenadores do estudo na Fundação Carlos Chagas, pondera que a adaptação pode ser boa. “Lógico que pode ter escolas colocando um enfoque muito grande sobre as provas, mas os conteúdos das avaliações são os mesmos conhecimentos que se espera dos estudantes, portanto a busca por resultado deve gerar aprendizado”, diz. Na opinião dele, a ausência de uma formação de professores voltada a técnicas didáticas deixa um vazio que torna maior o espaço que as provas padronizadas ganham na prática dos professores.

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Série especial sobre a falta do formação dos professores para dar aula

Alguns relatos de educadores no estudo mostram a importância dada por professores às avaliações externas. “O mais difícil, sabe o que é? É aprender a elaborar as questões como as da Prova São Paulo. Porque são as questões que o pessoal não está acostumado a usar”, comentou uma professora da rede municipal paulistana. Outra, de Castro, detalha o processo: “As formas como eu avaliava, os tipos de questões que eu fazia, dava uma diferença grande para o Idec (Índice de Desenvolvimento Educacional de Castro). Agora a gente procura trabalhar, não totalmente igual, mas pensando na prova do Idec. A gente fazia aquelas questões às vezes curtinhas, na forma de pergunta e resposta. Agora eles precisam de bastante interpretação.”

Na rede estadual do Espírito Santo, uma professora usa as questões dos anos anteriores com os alunos que ainda não passaram pela prova padronizada. “Pego essas avaliações antigas e trabalho em cima delas”, afirma. Outra, em Sorocaba, introduziu um novo conteúdo baseada em prova anterior. “Hoje as nossas avaliações têm muito mais a cara da avaliação externa. É até uma forma de estar acostumando as crianças. Por exemplo: a transposição de gênero, como teve um ano, para a gente transformar um conto de fada, que era uma sopa de pedra, numa receita. Essa questão, naquele ano, foi uma surpresa para o terceiro ano. Então a gente começou a trabalhar de uma forma mais pontual, principalmente essa questão que a gente não trabalhava.”

Em três das redes de ensino estudadas (Espírito Santo, Sorocaba e Castro), as secretarias de Educação disseram que as matrizes das avaliações externas foram usadas como subsídios para revisão ou discussão do currículo escolar. Em São Paulo, o ex-secretário Alexandre Schneider afirma que a criação das matrizes curriculares para a prova e para a rede foram construídas juntas. Com a eleição de Fernando Haddad, a Prova São Paulo foi extinta em 2013 e os paulistanos passarão a usar apenas a Prova Brasil, avaliação nacional.

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