Treinos diários e estratégia contra tensão moldam campeões em profissões

Por Tatiana Klix , de Leipzig* |

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Senai e Senac realizam programa de treinamentos intensivos com alunos que competem – e se dão bem – em torneio internacional de ensino profissional

Há três meses, Pablo Facchin, de 19 anos, vive apenas em função de um objetivo: ganhar uma medalha de ouro em competição internacional. Ele tem dois treinadores - um na cidade em que mora, Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e outro em Brasília -, faz exercícios pelo menos oito horas por dia e realizou uma viagem a São Paulo e outra até a Holanda para treinar. Para conseguir se dedicar plenamente à prática, chegou a trancar o primeiro semestre da faculdade.

Tatiana Klix
Pablo Facchin fez projeto hidráulico no primeiro dia de provas em Leipzig


Essa preparação digna de atletas de primeira linha é apenas parte do caminho percorrido para disputar um torneio internacional de educação profissional, o WorldSkills, que acontece em Leipzig, na Alemanha, desde terça-feira (2).

Também explica como o Brasil, que tem apenas 6,6% dos jovens matriculados em cursos técnicos, consegue se destacar e fazer frente a países como Alemanha, Finlândia e França, que formam mais de 50% dos seus jovens em cursos profissionalizantes, na competição que acontece a cada dois anos.

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No torneio, os estudantes têm que provar que são os melhores profissionais de nível técnico do mundo em categorias como design gráfico, eletrônica industrial, marcenaria e mecânica de carros. Em 2011, o País ficou em segundo lugar, com 6 medalhas de ouro, três de prata e uma de bronze, ficando atrás apenas da Coreia do Sul. A premiação final do WorldSkills 2013 é domingo.

Pablo começou a estudar no Senai em julho de 2010 para se formar pedreiro de edificações. Durante o curso, aprendeu tarefas como instalação de água, saneamento, aquecimento de residências e indústrias. Em 2011, ainda estudante, começou sua trajetória de competidor quando foi convidado por um professor a participar do torneio na sua escola, o Senai de Caxias do Sul, na categoria instalação hidráulica e a gás.

“Os alunos fazem o primeiro teste na escola e a partir daí saem os que participam de uma etapa estadual. Nesse processo inicial, são 12 mil alunos. Aqui em Leipzig, tem 41 brasileiros, os melhores dos melhores”, diz o gerente de Concursos e Olimpíada do Senai, José Luis Gonçalves Leitão.

Os cerca de 600 vencedores dos Estados são classificados para a etapa nacional, a Olimpíada do Conhecimento, cuja última edição foi em novembro do ano passado em São Paulo, quando Pablo conquistou o ouro. Mesmo assim, para carimbar o passaporte para Leipzig e fazer parte do grupo seleto de 1000 melhores profissionais técnicos do mundo em 2013, precisou passar por mais uma prova para verificar se tinha o índice técnico internacional da sua categoria.

Das 46 profissões das áreas da indústria e serviço incluídas no WorldSkills, o Brasil participa de 37 delas. Nas outras, nenhum estudante foi considerado bom o suficiente.

Intensivo

O programa de treinamento dos finalistas internacionais elaborado pelo Senai, que é responsável pela participação do Brasil na competição desde 1983, é inspirado no que fazem outros países com tradição, como a Coreia do Sul e a Suíça. Os escolhidos para participar passam por atualização tecnológica, acompanhamento psicológico, treino físico nas modalidades em que isso é necessário e até tratamento de saúde.

Para a dedicação exclusiva aos treinamentos, ganham uma bolsa de 1,5 salário mínimo durante três meses. “Nós concedemos bolsa de estudo para garantir o mínimo necessário de sustentabilidade para o competidor. Normalmente, ele é força de trabalho em casa. Imagina a pressão que sofre do pai e da mãe? Conversamos com a família, mostramos o que isso pode trazer no futuro, o que agrega ao currículo. Senão, eles não conseguem estudar”, conta Leitão.

Mas o responsável pelo programa admite que a preparação ainda fica devendo em alguns pontos. Embora a tradição do ensino do Senai seja a de que é preciso aprender fazendo e os alunos tenham acesso às máquinas usadas no WorldSkills já no Brasil, falta tempo de preparação e exigência de produtividade. “Nos nossos sistemas de aprendizagem não temos prática profissional dentro da empresa, onde isso acontece. Aqui (no WorldSkills) não importa fazer bem feito, tem que fazer no tempo”.

José Paulo Lacerda/CNI
Centro de convenções em Leipzig abriga o WorldSkills


O especialista do Senai de São Paulo Paulo Villiger, que preparou uma dupla de alunos para a competição de robótica móvel, aponta outra dificuldade dos alunos brasileiros: a psicológica. Ele conta que um dos alunos sentiu a pressão no primeiro dia de provas e deixou de fazer o que sabia. “Não encontramos no Brasil algumas condições que jovens europeus são mais acostumados. Nossos alunos, muitas vezes do interior, nunca viajaram para fora, não falam outras línguas, não conhecem pessoas de outros países e chegam aqui e encontram esse ambiente, que acaba sendo hostil”, diz. “É difícil simular essas situações, mas tentamos. Às viajamos com eles”, acrescenta.

Uma estratégia usada para ajudar os alunos durante as provas é a de levar intérpretes para os competidores. A língua do torneio é o inglês, françês e alemão, e o intérprete é a única pessoa que tem acesso aos alunos durante a competição. Às vezes, mesmo quando eles têm noções da língua, o Senai prefere inscrevê-los como se não tivessem. “Isso é estratégia. Em determinados momentos, o intérprete é a pessoa que tem mais contato com o competidor. Toda vez que o aluno tiver dúvida, ele pode falar com o garoto. Se o interprete é da área, percebe a dificuldade e ajuda. Se o aluno fala inglês, perdemos a oportunidade de ter o segundo homem dentro da área”, diz Leitão, que explica que esse é um recurso usado por todos os países. 

Depois do WorldSkills

Com menos tradição no WorldSkills, o Senac, que começou a enviar competidores só em 2009, busca sua primeira medalha este ano. Para chegar a ela, faz treinamentos parecidos com os já experimentados pelo Senai, mas para as categorias de serviço, como cozinha, cabeleireiro e restaurante. Ueslei Felipe de Oliveira Vale, 21 anos, que fez um curso gratuito de garçom em Curitiba em 2011, está treinando desde o ano passado, quando ainda trabalhava à noite. O professor que identificou seu talento para competidor, Gilberto Pereira Dias, diz que ele é muito esforçado e sempre chegava antes da hora marcada, até que largou o emprego.

“Quero trazer a primeira medalha de ouro para o Senac”, afirmou Ueslei na quinta-feira (4), que já pensa no futuro depois do WorldSkills. Ele espera ser contratado para treinar o próximo competidor na sua categoria, uma prática já bem comum no Senai.

José Paulo Lacerda/CNI
Ueslei Felipe de Oliveira Vale fez curso de garçom em 2011 e agora compete na Alemanha


Outros vencedores acabam recebendo oportunidades de estudo, como Natã Barbosa, medalha de ouro em 2011 em webdesign, que foi convidado para fazer um curso de três meses em Cingapura e o responsável por apresentar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em conferência realizada em Leipzig na quinta-feira.

“Não conheço nenhum aluno de internacional que esteja desempregado. O nível técnico desses competidores fazem com que qualquer empresa queira contratá-los”, afirma Leitão.

Pablo, de Caxias, já pensa em ir além. Depois da competição, com ou sem medalha, vai voltar a estudar engenharia, mas ainda durante o curso pretende usar os conhecimentos adquiridos para abrir um negócio próprio, uma empresa de instalação hidráulica.

*Tatiana Klix viajou a convite da CNI

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