“Começou quando vi na TV a melhor do mundo”, diz alagoana a caminho de Harvard

Por Cinthia Rodrigues -iG São Paulo |

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Antes de embarcar para estudar na instituição mais renomada do mundo, Larissa, 19 anos, fala sobre educação

 Aos 19 anos, a alagoana Larissa Magalhães está prestes a realizar um sonho alimentado durante mais da metade de sua vida: estudar Economia em Harvard. Obstinada, ela sempre teve ótimo histórico escolar, que inclusive já a levaram a incursões anteriores pela mais renomada instituição superior do mundo. No Brasil, seu desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi tão bom que acabou sendo solicitada para dar dicas a outros estudantes e criou um blog em que faz correções de redação voluntariamente. Na entrevista abaixo, ela fala de sua vida, de Harvard e da educação brasileira:

Arquivo pessoal
Larissa Magalhães com a camiseta da faculdade que mira desde os 9 anos de idade


iG: Como você foi parar em Harvard?
Larissa Magalhães: Sou de Maceió, Alagoas, e desde os meus 9 anos queria fazer Economia em Harvard. Começou quando vi na TV, até mesmo em filmes, aquela universidade que era a melhor do mundo. Eu pensava: quero aprender com os melhores. Economia também foi assim. Não tenho economista na família, meus pais são engenheiros agrônomos, mas desde as brincadeiras eu queria ser a administradora da venda e gostava de banco imobiliário. Na escola, gostava de aprender sobre a Grande Depressão. Estudei em escola particular normal porque nem tem bilíngue na minha cidade, mas com a meta na cabeça. Em 2010, fiz intercâmbio em Ohio, morei com família americana e, em seguida, comecei a pedir lugar nas turmas de verão de Harvard e fiz no segundo e no terceiro ano do ensino médio.

iG: As turmas de verão não exigem ensino médio completo?
Larissa: São para estudantes da graduação, mas também tem muito estudante de MBA e, se você cumprir requisitos mínimos, aceitam antes da graduação. Essa é uma das razões pelas quais sou apaixonada por essa universidade.

iG: Quais são as outras?
Larissa: A principal é o modelo que os EUA tem de currículo mais flexível. Você sai com a cabeça mais aberta, escolhe a grade de aulas. Aqui tem rigidez do currículo, não existe a possibilidade de você explorar, ou quase não existe. Nos Estados Unidos é a coisa mais comum do mundo. Outra diferença é o senso de comunidade, lá como quase todo mundo mora dentro do campus, você vive aquela atmosfera o tempo todo.

Aqui no Brasil tem rigidez do currículo, não existe a possibilidade de você explorar outras áreas, ou quase não existe. Nos Estados Unidos é a coisa mais comum do mundo

iG: Você chegou a estudar em uma universidade brasileira?
Larissa: Sim, comecei na Universidade Federal do Rio de Janeiro antes de ter a resposta definitiva de Harvard. Achei o nível do Departamento de Economia muito bom, minha comparação é nessa questão do modelo mais aberto mesmo.

Oportunidade: Sobram bolsas para brasileiros em Harvard e MIT

iG: Como surgiu seu projeto voluntário na área de educação?
Larissa: No meu 3º ano tirei mil (na redação) do Enem e fiquei muito na mídia. Começaram a me procurar pedindo ajuda. Percebi que repetia muita informação e fiz um blog (o Enem Red) e dei continuidade depois corrigindo redações de forma detalhada, com uma série de comentários para o estudante ver especificamente o que dava para melhorar. Depois de um tempo, minha professora começou a ajudar como voluntária e hoje umas 10 a 12 pessoas fazem parte, me ajudam e a gente faz as correções.

iG: Você acha que a educação no Brasil mudou nos últimos anos?Larissa: Acho que nos últimos 10 anos as pessoas começaram a acordar para a ferramenta mais poderosa de um País, que é a educação. Mas não sei dizer se já deu resultado. Acompanho, mas não tenho uma planilha atualizada. Acho que está melhorando a consciência das pessoas da importância disso e, como a gente está ganhando espaço no cenário internacional como nação emergente, tem mais recurso e existe uma pressão maior pelo combate dessa contradição entre ser um dos maiores PIBs do mundo e um dos piores resultados educações.

Na verdade, não importa se a escola é pública ou privada, sempre é preciso buscar mais do que ela oferece

iG: O que você acha que é prioridade para o Brasil?

Larissa: Investimento na educação pública. A gente tem boas escolas, mas isso tem que ser horizontal, a qualidade de ensino que você recebe não pode ser diretamente proporcional à renda. Só com educação pública de qualidade você garante work force (profissionais) capacitada para o futuro. Educação básica boa é o que leva a uma boa universidade.

iG: Foi o seu caso?
Larissa: Sim. Tive a oportunidade de ter uma boa educação em escola particular, principalmente a primária e no ensino médio. Meus pais puxavam muito também e eu tinha essa coisa de querer ir muito bem na escola.

iG: O que você diria para alguém que não tem oportunidade de estudar em uma boa escola?
Larissa: Acho que a internet hoje em dia é uma ferramenta excepcional para a disseminação do conhecimento. Conheço gente que usa para aprender e vai muito bem. Você consegue correr atrás do gap. Na verdade, não importa se a escola é pública ou privada, sempre é preciso buscar mais do que ela oferece.

Acho que todos têm direito de protestar. O País estava precisando de um banho de água fria, entende? Que a reclamação deixasse de ser uma conversa de esquina, de cabeleireiro

iG: Você acompanhou as manifestações dos últimos dias?
Larissa: Estou gostando de ver que o Brasil está reivindicando melhoras, que está acordando. Acho que todos têm direito de protestar. O País estava precisando de um banho de água fria, entende? Que a reclamação deixasse de ser uma conversa de esquina, de cabeleireiro. Isso é muito bom. Está mobilizando gente no mundo inteiro. Meus amigos estrangeiros estão me perguntando. Eles sabem o que está acontecendo mas perguntam a nossa opinião porque não são insiders (do local). Tenho uns amigos egípcios e na época da Primavera Árabe foi muito bom ter a opinião deles, porque a mídia acaba dando de forma um pouco sensacionalista.

Leia mais sobre os protestos em todo o Brasil

iG: Por que as palavras em inglês?
Larissa: Tenho estudado muito em inglês, conversado, alguns termos acabam aparecendo melhor em inglês na minha cabeça.

iG: Você pretende voltar para o Brasil depois de Harvard?
Larissa: Com certeza quero de alguma forma trazer o conhecimento que vou adquirir lá para o Brasil. É interessante porque meus amigos que foram aceitos em Harvard pensam assim também. A gente não quer só ganhar em dólar, a gente quer trazer este conhecimento para o Brasil, give back (devolver). Se a gente vai fazer isso morando aqui, lá ou em outro lugar, isso é outra história.

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