Separação por nível de desenvolvimento volta a ganhar as classes americanas

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Prática que havia sido abolida por perpetuar a desigualidade volta com outro enfoque

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Já foi comum para os professores de escolas primárias arrumar suas classes por habilidades, colocando os alunos mais desenvolvidos em um grupo, os menos em outro. Um primo próximo dessa prática, separar as classes com base nos níveis proficiência, foi abandonado no fim dos anos 1980, devido a críticas de que isso perpertuava a desigualdade, ao manter estudantes pobres em grupos de baixo nível.

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Turma de escola primária que separa alunos por habilidades


Mas a separação de grupos com base nas habilidades reemergiu dentro das classes americanas, uma tendência que surpreendeu especialistas de educação, pois eles acreditavam que as reclamações tinham acabado com esse costume.

Uma nova análise do National Assessment of Education Progress, uma espécie de agência de censo para estatísticas escolares, mostrou que em 2009 o 71% dos professores de quarto ano separavam os alunos de acordo com suas habilidades de leitura – em 1998, eram apenas 28%. Em matemática, 61% dos professores de quarto ano diziam separar grupos por desempenho em 2011, contra 40% em 1996.

Leia também: Acelerar estudos de alunos com altas habilidades ainda é raro

“Essas práticas estavam estigmatizadas. Mas elas foram ressurgindo de forma oculta e sem polêmicas”, diz Tom Loveless, membro da Brookings Institution, o primeiro a notar nos relatórios o retorno da tendência.

O ressurgimento dessa prática foi notado ao mesmo tempo em que a cidade de New York discute o seu programa para alunos talentosos – uma forma de selecionar certos estudantes e juntá-los em classes de aceleração. Esse programa, que abarca cerca de 3% das crianças de escolas públicas, é dominado por asiáticos.

Christine C. Quinn, líder do Conselho da Cidade e candidata à prefeitura, propôs que se aumente o número dessas turmas especiais e que haja outros critérios para a admissão, na esperança de aumentar a diversidade. O departamento de educação da cidade se opôs, dizendo que qualquer outro critério além de provas diluiria o resultado dessas turmas.

Professores e diretores que usam o esquema de grupos por habilidade dizem que a prática se tornou indispensável para lidar com a crescente diferenças de níveis de aprendizado.

Quando Jill Sears começou a ensinar em escolas públicas de New Hampshire, há 17 anos, os alunos do segundo ano chegavam no primeiro dia de aula com uma mistura desconcertante de conhecimentos e fraquezas. Alguns resolviam a folha de exercícios de matemática em poucos minutos; outros lutavam para chegar à metade da página. Os mais rápidos se entediavam e faziam bagunça; os mais lentos ficavam frustrados e desistiam.

“Minhas instruções tentavam encontrar o meio termo da turma, mas eu estava deixando de falar a cerca de dois terços de meus alunos”, diz a professora. Então ela reorganizou completamente a sala de aula. Já faz uma década que, em vez de ensinar a todos estudantes como um grupo único, ela começou a separá-los. Ensina a todos o mesmo conteúdo, mas prepara atividades diferentes para cada um.

Embora reconheçam que a ampla variação dentro das classes representa um desafio, os críticos da medida, incluindo pesquisadores da área e grupos de direitos civis, alegam que a prática nos anos 80 e 90 inevitavelmente acabou dividindo os estudantes segundo raça e classe social. Alguns estados passaram a recomendar o fim dos agrupamentos porque as expectativas dos professores para cada estudante estava sendo moldada pelo grupo inicial, confinando alguns estudantes ao baixo aprendizado.

“As crianças que eram vistas como as últimas acabavam tendo menos oportunidades e recursos”, diz Jeannie Oakes, autora do livro Keeping Track: How Schools Structure Inequality. (Fique de olho: como as escolas estruturam a desigualdade, numa tradução livre) “Os potenciais benefícios são de longe menores do que os riscos bem documentados", completa.

Entretanto, como o assunto não é um dos mais frequentes entre estudos educacionais, não há consenso sobre os efeitos. Algumas pesquisas indicam que os grupos prejudicam a autoestima dos alunos colocados nos grupos mais baixos; outros sugerem que o efeito é o oposto, pois separados dos colegas com mais conhecimento, os estudantes não se sentem rebaixados.

Os defensores da divisão por grupos acreditam que, se separados com justiça e flexibilidade, eles podem ajudar a todos. Mas as razões para que estejam voltando a ser praticados ainda é incerta. Alguns atribuem o fenômeno ao programa No Child Left Behind (Nenhuma criança deixada para trás), que em 2001 fortaleceu as exigências de resultado para as escolas. Ao forçar os professores a se focar em estudantes abaixo da média, a lei estimulou que eles deixassem esses alunos juntos, para melhor prepará-los aos testes padronizados.

A tecnologia também pode ter exercido influência, diz Loveless, com professores cada vez mais confortáveis no manuseio de computadores e, portanto, permitindo que as crianças aprendam em ritmos diferentes.

Em entrevistas, vários professores disseram acreditar que os grupos não são discriminatórios porque estão sempre em fluxo. Mas reconhecem o desafio adicional de preparar atividades para diferentes grupos, com vários planos de aula, e manter um olhar atento ao progresso de cada aluno.

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