“Educação vem de casa, mas se não vier vou dar na escola”, diz professor e autor

Por Cinthia Rodrigues - iG São Paulo |

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Prestigiado pelos alunos e reconhecido até no exterior, jovem professor mostra que briga por mais salário e condições pode estar ao lado da luta por garantia do direito do aluno

Nascido e criado na zona leste de São Paulo, Rodrigo Ciríaco, 31 anos, se formou em História na Universidade de São Paulo (USP) e foi trabalhar no lugar em que cresceu. Dá aulas de história na escola estadual Jornalista Francisco Mesquita e criou um grupo de estudo de literatura chamado Sarau dos Mesquiteiros, com apresentações que reúnem cada vez mais público. Paralelamente publicou os livros “Te pego lá fora” e “100 mágoas”, em que muitas histórias são inspiradas no cotidiano escolar.

Em março viajou para Itália, Bélgica e França como convidado de editora francesa que traduziu parte do seu trabalho. No mês seguinte, estava nas ruas de São Paulo entre os professores grevistas reclamando da desvalorização da carreira. Não ficou contente com o fim das paralisações e conta que, apesar da vocação, pode deixar de ser educador por questões financeiras. Ainda assim, enquanto está na escola, faz um trabalho elogiado. Leia a entrevista:

Arquivo pessoal
O professor Rodrigo Ciríaco durante uma apresentação do Sarau dos Mesquiteiros

iG: Como vê a remuneração dos professores?
Rodrigo Ciríaco: A questão salarial é um grande problema mesmo. Por exemplo, eu estou com dois cargos. Acho que o melhor é ter 40 horas em uma única escola, 25 horas em sala e o restante no preparo e ganhando um salário decente. Mas tive que somar dois cargos. Tenho 32 horas na Prefeitura e mais 10 horas no Estado e agora estou pensando muito no momento se vou continuar no Estado. Apesar dos projetos, estou pensando em fazer outra atividade que tenha remuneração mais adequada. Até pelo fato de eu ter viajado, por escrever, eu sinto que sou um profissional qualificado, que tenho um valor, mas não recebo isso.

iG: A questão financeira atrapalha o trabalho dos professores?
Ciríaco: Também é um problema de falta de atrativo. A partir do momento que você dá, você pode exigir mais e mais. Não dá para pensar no discurso do Cid (Gomes, governador do Ceará, que declarou que professor deve trabalhar por amor). Todo trabalho digno merece ser remunerado. Morei na zona leste a vida toda, depois mudei para o Ipiranga para ficar um pouco mais perto da USP durante a faculdade. Agora que constitui família financiei via Minha Casa, Minha Vida e volto para o bairro, vou morar atrás da escola (Francisco Mesquita). Não tenho visão de padrão de vida, não quero um carro novo. Mas estou fazendo uma pós na Arte de Contar Histórias e um curso de especialização em Design Gráfico e Editoração, estou tentando me qualificar porque infelizmente não sei se posso continuar sustentando minha família sendo professor.

Devia ter uma fiscalização eficaz sobre nós funcionários da educação. Porque existe sim parâmetros legais para que pessoas que não cumprem com seu trabalho possam ser advertidas, punidas

iG: O que acha do bônus para professores?
Ciríaco: O que se usa hoje de critério para o bônus pode ser manipulado. Já está claro. Além disso gera uma divisão entre grupos de professores e também influencia a própria ideia do que vai ser trabalhado na escola, o que já é um desvio.

iG: Gestão democrática ajudaria?
Ciríaco: A minha visão de democracia respeita o direito à educação de qualidade do aluno. Tem muita escola que tem APM (Associação de Pais e Mestres), Conselho Escolar e na verdade todos seguem a linha da direção. Sou favorável que houvesse eleição direta para a escola. A gente tem um problema muito grave de diretores que são nomeados, apresentam vários problemas na atuação, mas têm proteção por serem ligados ao dirigente. Eu mesmo já tive no passado problemas e denuncias são barradas. Em vez de investigar dizem que tem que conversar e ‘vamos promover a cultura da paz’, mas eu buscava o direito do aluno violado. Se não vai ter eleição, devia ter uma fiscalização eficaz sobre nós funcionários da educação. Porque existe sim parâmetros legais para que pessoas que não cumprem com seu trabalho possam ser advertidas e punidas. Tem uma outra diretora com quem estou trabalhando que faz uso do sistema. Não precisa aceitar profissionais que não fazem um bom trabalho. Falta impessoalidade. Não existe esse regime de legalidade.

Arquivo pessoal
Tatuagem no braço direito do educador

iG: Recebemos muitos comentários de professores que dizem ter desistido de dar boas aulas devido às condições de trabalho, como avalia esta situação?

Ciríaco: Não acho certo. Independente do salário tem que fazer o melhor. Por outro lado consigo entender os colegas. Porque na maior parte das vezes as pessoas foram absolutamente frustradas pela falta de reconhecimento e de estrutura. Nós temos muito problemas relacionados à saúde. Isso não é reconhecido e não tem a atenção devida. Servidores públicos de educação, saúde e segurança deveriam ter mais atenção à saúde mental. Muitas vezes são pessoas que precisam de ajuda por conta da falta de perspectiva, de orientação e ajuda.

iG: Já se sentiu assim?
Ciríaco: Eu fui buscar esse apoio, faço terapia, quando dá porque é muito caro. Foi uma opção dolorosa pra mim. Eu ganhava R$ 7,50 a hora aula e tinha que dar 10 horas aula para fazer uma hora de terapia. Me perguntei quanto vale minha saúde mental e fiz. O governo e a sociedade precisam ter um olhar para os profissionais que trabalham em área mais delicada. Na saúde e na segurança, o que é até mais grave, também tem gente que deixa de atender se não tem estabilidade. Isso pode matar alguém.

iG: Diante de tantos problemas, como encontra forças para fazer seu trabalho e ainda projetos adicionais de educação?
Ciríaco: Acho que em primeiro lugar é encarar assim: alguém tem que fazer. Aceitei isso como meu ofício. Outra coisa é ter projetos. Se não tivesse os Mesquiteiros não teria força para continuar. Hoje tenho um reconhecimento recente, há 5 anos eu não tinha isso, então o que me dava força eram os projetos, porque vejo resultado. Por mais que me consuma mais tempo, energia, recursos financeiros e de outras ordens tem uma recompensa pessoal porque sempre gostei de artes, cultura, de estar bem próximo a eles.

Quando um aluno diz que a mãe não vai poder conversar, eu respondo: Fala para sua mãe que é para falar da coisa mais importante que ela tem na vida, que é o filho dela, e da coisa mais importante para o filho dela, que é a educação”

iG: Qual o papel da sociedade na escola?
Ciríaco: Acredito que a sociedade tem um papel fundamental. As pessoas precisam entender e exercer o poder da comunidade na escola, por mais que trabalhem, tenham compromisso. Quando eu falo para um aluno pedir para o pai vir, às vezes ele já diz que a mãe não tem tempo. Eu respondo: Fala para sua mãe que é para falar da coisa mais importante que ela tem na vida, que é o filho dela, e da coisa mais importante para o filho dela, que é a educação. Pais precisam acompanhar o dia-a-dia, pegar um caderno, perguntar quantas aulas teve. Nós, os professores, estamos apenas uma parte do tempo com esse jovem.

iG: Educação tem que vir de casa?
Ciríaco: Acho que vem de casa, mas se não vier vou dar na escola. Entendo que essa poderia ser a obrigação dos pais, mas cabe ao professor corrigir quando não vem. A função dele não é apenas encher o aluno de conteúdo, mas situá-lo na relação que vai ter com outras pessoas, ensinar tolerância, respeito a diversidades cultural, religiosa. A escola é o primeiro espaço público de convivência que essa criança tem. Esperar que venha pronto de casa é esperar demais. O professor é educador, uma complexão maior.

iG: E o professor que vê uma situação impossível?
Ciríaco: Acho que se o professor acha impossível, precisa fazer outra coisa. O educador precisa acreditar que nada é impossível. A gente precisa mesmo ter paciência além do normal, tolerância além do religioso, do comum. Difícil é. Se já desistiu, não tem como ter resultado nenhum. Se eu faço, pode ser que consiga ou não: 50% de chance. Se não faço é 100% de certeza que o aluno não aprende. Muitas apostas que fiz deram errado e outras deram certo. O diálogo é a forma mais honesta. Tentar se conquistar, entender as razões do aluno e mostrar a ele as minhas, com diálogo e respeito. Muitas vezes o que a gente fala não é o que o outro ouve e, muito menos, entende. Ganhar um aluno, principalmente dentro da escola, não é fácil. Nem sempre vai ser possível, mas sempre vai ter que tentar.

iG: E como lidar com os casos de violência?
Ciríaco: Sempre tem violência. As pessoas talvez pensem que a escola está protegida, mas ela é reflexo da sociedade. Até que a violência dentro dela é menor. Tem situações de violência, sim. Momentos de conflito vão acontecer, é inerente às relações humanas. O problema é a forma como vamos resolver. Ignorar pode levar para uma situação maior. Nada começa grande. É muito raro o aluno do nada agredir professor. Qual a história dele com a escola?

iG: Ser pai alterou sua vida?
Ciríaco: Na minha vida mudou tudo, tenho AM e PM, antes de Malu e Pós Malu. Pra mim veio um pensamento bom de que estava no caminho certo porque o que faço pelos alunos é o mesmo que quero para minha filha. São coisas diferentes, agora estou em outro papel, mas quero o mesmo para ela e eles.

iG: As viagens que fez mudaram sua perspectiva?
Ciríaco: Enquanto educador virei uma referência positiva para os alunos verem que estudar pode ser legal, coloquei provocações no Facebook como “Estudar não leva você a lugar nenhum” e a lista de lugares que estava visitando como convidado.

iG: Por que tatuou “O estudo é o escudo”?
Ciríaco: Tava ensaiando há dois anos, fiz em 8 de fevereiro. Primeiro tatuei o nome da minha filha antes de ela nascer. Aí quis fazer uma que falasse da minha vida e uma coisa que é muito importante para mim. Essa frase do Gog diz muita coisa. Minha filha nasceu em um parto com complicações e só consegui fazer com que tivesse o atendimento certo porque usei meus conhecimentos. Salvei minha filha. E tudo que tenho, pode ser um imóvel financiado em 25 anos, realizei pelo estudo.

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