Na Califórnia, esforços por diversidade na faculdade começam no ensino médio

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Estado americano proíbe ações afirmativas, mas têm programas para incentivar alunos pobres a se candidatarem a vagas em universidades

NYT

Ao mesmo tempo que o Supremo Tribunal dos Estados Unidos analisa um caso que vai definir o futuro das ações afirmativas nas admissões em universidades, o Estado da Califórnia já da pistas de como poderá ser.

A Califórnia foi um dos primeiros Estados a abolir a ação afirmativa na década de 90, e em seguida a admissão de latinos na Universidade da Califórnia caiu de mais de 15% para 12% e a de afro-americanos diminuiu para 3%. Nos câmpus mais competitivos, em Berkeley e Los Angeles, a queda foi ainda mais acentuada.

Na Califórnia: “É possível educar todas as crianças de escola pública em alto nível”

No entanto, esses números já foram recuperados. Este ano, 25% dos novos alunos inscritos são latinos, refletindo a crescente população hispânica, e 4% são afro-americanos. Um padrão semelhante de declínio e recuperação ocorreu em outras universidades estaduais que eliminaram a raça como um fator decisivo nas admissões.

Se os juízes da Suprema Corte, que julgarão nas próximas semanas um caso envolvendo a Universidade do Texas em Austin, decidirem reduzir ou abolir o uso de raça e etnia como critério para admissões universitárias em todo o país, a experiência na Califórnia e em outros Estados que proibiram a ação afirmativa nas faculdades - incluindo Flórida, Michigan e Washington - poderia apontar para novas maneiras de compor um corpo estudantil racialmente e economicamente diversificado.

Esses Estados têm tentado uma série de abordagens para escolher os alunos, dando aos candidatos a possibilidade para superar desvantagens, como a pobreza, barreiras linguísticas, escolas de baixo desempenho e bairros problemáticos. Estudantes carentes de bairros pobres, como Erick Ramirez, que está no último ano do colegial em Anaheim, estão se beneficiando do aumento nos esforços do sistema da universidade estadual para cultivar os candidatos a partir do ensino médio.

Os resultados dessas ações dividem opiniões. Apesar de todos apoiarem os avanços do sistema da Universidade da Califórnia para a diversidade econômica - e não apenas racial -, defensores das admissões baseadas na raça reconhecem que o sistema reverteu a queda inicial no número de matrículas de afro-americanos e hispânicos, mas ainda dizem que não é suficiente.

NYT
Alunos deixam aula de preparação para universidades na Califórnia

Quaisquer que sejam os méritos de admissões não vinculadas à raça, os estudantes pobres e as minorias estão menos propensos do que outros a frequentarem as aulas necessárias para ingressar nas faculdades, para realizarem o exame SAT ou ACT, para obter ajuda acadêmica quando necessário, para preencher formulários complexos corretamente ou se candidatarem a faculdades competitivas.

Por isso, representantes de universidades públicas da Califórnia e alguns de seus colegas em todo o país têm se enfronhado  em comunidades carentes, trabalhando com escolas, alunos e pais para identificar adolescentes promissores e fazer com que mais deles ingressem nas faculdades.

Não basta, dizem alguns administradores universitários, mudar a maneira como os alunos são selecionados; é preciso mudar os próprios alunos e isso deve ser feito muito antes do momento em que começam a preencher os formulários para concorrer a vagas.

Ramirez vive em um bairro em Anaheim, onde a maioria dos pais tem baixa renda e fala espanhol em casa, e muitos não completaram o ensino médio. Na sua escola, Anaheim High, apenas cerca de um em cada 4 alunos passaram em cursos de alto nível suficientes para cursar uma das universidades públicas da Califórnia. Mas Ramirez, filho de origem mexicana de um trabalhador da construção civil e uma auxiliar da escola, recebeu cartas de aceitação de várias faculdades e acabou optando pela Universidade Estadual de São Francisco.

No Brasil: Lei das cotas nas universidades é publicada no Diário Oficial

É impossível dizer se Ramirez, 18, com boas notas e resultados acima da média em testes, teria sido aceito nas mesmas faculdades se não fosse seu histórico familiar e a condição menos vantajosa. O que é certo é que ele teve a ajuda considerável de uma fonte inesperada. Durante três anos, as pessoas que trabalhavam para a vizinha Universidade da Califórnia, em Irvine, reúniam-se regularmente com ele - aos sábados, depois da escola e nos verões - para ajudá-lo a escolher os cursos, a fazer suas tarefas, preparar-se para o exame SAT, visitar câmpus universitários, preencher formulários de seleção e para bolsas de estudo.

"Eu acho que eu teria entrado em alguma faculdade de qualquer maneira, mas teria sido muito mais difícil", disse Ramirez. "Talvez eu não tivesse me dado tão bem, e eu não saberia a respeito de todas possibilidades que eu tinha."

A necessidade de tal intervenção une as pessoas como Mark G. Yudof, presidente da Universidade da Califórnia, que acredita que a raça deveria ser um fator nas admissões, e Richard D. Kahlenberg, um membro sênior do Century Foundation, um grupo de pesquisa de tendência liberal que crítico proeminente da ação afirmativa baseada na raça.

"Se você for levar a sério as admissões baseadas em desvantagem, então terá que disponibilizar bastante auxílio aos alunos", disse Kahlenberg. "É a coisa certa a se fazer, mas não é fácil, e não é barato."

A Universidade da Califórnia, em Irvine, gasta mais de US $ 7 milhões por ano nesse tipo de auxílio, com algumas centenas de pessoas trabalhando nisso - principalmente em tempo parcial e nem sempre sendo pagas - e chegando em dezenas de bairros pobres em sua região, disse Stephanie Reyes-Tuccio, diretora do Centro da universidade para parcerias educacionais.

Existem programas que aconselham os pais, programas para orientar estudantes universitários da comunidade para entrarem em faculdades superiores do Estado e programas para professores de escolas primárias e secundárias para melhorar seu método de ensino e conhecimento em cada matéria ensinada. Mas a maior parte da ajuda está voltada diretamente para os estudantes no ensino fundamental e médio de alto desempenho – visando alunos superdotados como Ramirez, assim como realizando esforços mais amplos para todos aqueles que queiram cursar uma faculdade.

Líderes das universidades admitem que é difícil medir a diferença que esses programas fazem. A maioria dos alunos que são auxiliados acabam cursando uma faculdade, mas normalmente são aqueles que tendem a estar entre os melhores alunos em suas escolas.

Mas, para os alunos, como Jasmin Rodriguez, 17, não há dúvida a respeito do valor dos programas.

"Sem essa orientação, eu teria ficado tão perdida", disse ela. "Há tantas coisa para pesquisar, que ao menos que alguém tenha lhe dito algo, você nunca ficaria sabendo por onde começar".

Rodriguez irá se matricular na UCLA neste outono.

NYT
Aluna recebe ajuda para preencher formulários de processos de seleção de universidades nos EUA



compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas