Lei que autoriza inglês nas universidades gera revolta na França

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Opositores do projeto de reforma do ensino superior afirmam que "invasão do inglês" nas faculdades representa ameaça à língua francesa

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Um projeto de lei que autoriza as universidades da França a darem aulas em inglês, discutido atualmente pelo Parlamento, está causando grande polêmica no país. Os opositores à medida – inúmeros intelectuais e políticos – afirmam que "a invasão do inglês" nas faculdades representa uma "ameaça" à língua francesa.

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A polêmica é tão grande que o jornal Libération publicou uma capa toda escrita em inglês na terça-feira. O governo ressalta que a iniciativa visa atrair à França estudantes universitários de outros países, sobretudo emergentes, e também "excelentes professores" internacionais que não falam francês.

"Muitos alunos, sobretudo de Coreia do Sul, China, Brasil, Índia e Cingapura, gostariam de estudar na França, mas se sentem desencorajados pelo fato de que é preciso saber falar francês", afirma a ministra do Ensino Superior, Geneviève Fioraso. O objetivo, segundo ela, é aumentar a porcentagem de estudantes estrangeiros nas faculdades francesas, dos 12% atuais para 15% em 2020.

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Mas em um país tão apegado à sua língua, a questão provocou debates acalorados antes mesmo do texto começar a ser discutido pelos deputados, na quarta-feira.

AP
Estudantes e intelectuais fazem manifestações contra "lei Fioraso", de reforma do ensino superior

Reforma do ensino
O texto de 59 artigos, chamado "lei Fioraso", é bem mais amplo e trata da reforma do ensino superior em geral. A autorização de cursos em línguas estrangeiras nas universidades é apenas um artigo desse projeto de lei, mas ofuscou as demais medidas previstas.

Nos últimos dias, vários artigos de opinião foram publicados em jornais franceses por personalidades que ou criticam fortemente ou apoiam a utilização do inglês nos cursos universitários.

A Academia Francesa de Letras, instituição criada em 1653, fez um alerta sobre "os perigos de uma medida apresentada como uma aplicação técnica, mas que, na realidade, leva à marginalização da língua francesa".

Prêmios Nobel e 'sabotagem do francês'
No campo dos que apoiam a iniciativa estão grandes nomes da área científica, como Françoise Barré-Sinoussi (Prêmio Nobel de Medicina pela codescoberta do vírus da Aids), Serge Haroche (Nobel de Física) e o matemático Cédric Villani (Medalha Fields, a maior premiação mundial nessa área).

"Os cientistas do mundo inteiro utilizam o inglês para se comunicar", afirmam em um artigo publicado pelo jornal Le Monde. Segundo eles, o projeto de lei "favorece a inserção da França no mundo ao reforçar sua atratividade". "Para que a pesquisa francesa possa se impor na Europa, pesquisadores devem se comunicar com seus vizinhos, ou seja, falar em inglês.

Na Alemanha, Suécia ou Finlândia isso não é mais questionado", diz Haroche.

Mas inúmeros intelectuais das áreas de ciências humanas e letras e até mesmo políticos governistas se revoltaram contra a medida, temendo que ela reforce a "hegemonia do inglês" no mundo e reduza a diversidade linguística.

Um grupo de cerca de 30 deputados socialistas, do partido do presidente François Hollande, pediu a retirada do artigo do projeto de lei. "Recusemos a sabotagem do francês", escreveu em um artigo no Le Monde o linguista Claude Hagège. "Estamos em guerra", diz ele, ressaltando que o projeto de lei disseminará um "câncer" e que o governo sofre "pulsões de autodestruição".

"Ensinar em inglês nos levaria a ser um país colonizado cuja língua não pode mais expressar tudo", afirma o filósofo Michel Serres.

Hipocrisia
Para a ministra Fioraso, "é tempo de acabar com a hipocrisia" - referindo-se ao fato de que o inglês já é utilizado em vários cursos nas chamadas "grandes escolas francesas", de ensino superior em áreas como administração e engenharia. Ela rebate as críticas ressaltando que os cursos universitários em inglês seriam realizados "em um contexto preciso e para um público-alvo bem determinado".

A chamada lei Toubon, de 1994, atualmente em vigor, determina o francês como língua de ensino, concursos e teses. Ela prevê exceções no caso de cursos de "línguas e culturas regionais ou estrangeiras ou quando os professores são convidados estrangeiros".

O projeto de lei prevê ampliar essas exceções, permitindo aulas em línguas estrangeiras "no âmbito de acordos com universidades internacionais ou de programas financiados pela União Europeia". Apesar da grande polêmica, somente 1% dos cursos seriam ministrados em inglês, segundo a ministra, e eles se concentrariam nas áreas científica e econômica.

Brasileiros
O debate já ultrapassou as fronteiras francesas. Em artigo publicado na quarta-feira pelo jornal Libération, um grupo de universitários estrangeiros, entre eles dois brasileiros, pede aos franceses para "manter sua língua na universidade". No texto, o grupo diz que a escolha de estudar na França se deu "justamente pelo fato de o país ter uma outra maneira de ver o mundo e um modelo cultural alternativo ao anglo-saxão dominante", diz o artigo.

O projeto de lei deverá ser votado na próxima semana pelos deputados e depois será enviado ao Senado. Ele recebeu o apoio do Unef, principal sindicato de estudantes universitários, ligado ao partido socialista, mas é criticado por vários sindicatos de professores, que lançaram apelos de greve.

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