Para alavancar programa de intercâmbio, governo busca apoio de instituições nacionais e estrangeiras para aperfeiçoar proficiência de estudantes em cursos preparatórios

A oportunidade de estudar no exterior criada pelo Ciência sem Fronteiras está forçando o governo federal a preencher lacunas no ensino de língua estrangeira dentro e fora do País. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) tornaram os critérios de seleção para a proficiência em língua estrangeira mais flexíveis para estimular os candidatos.

Novas regras:
- Após reprovação alta, nível de inglês exigido para bolsas será menor
- Exigência de língua estrangeira cai e intercambistas de Portugal podem trocar de país

“Estamos criando oportunidades para que essa demanda de candidatos muito qualificados possa aperfeiçoar a aprendizagem de um idioma estrangeiro. Não é ‘abrir as porteiras’ sem critério. Mesmo que quiséssemos, não cabe a nós decidir isso. O filtro é das universidades”, comenta a diretora de relações internacionais da Capes, Denise de Menezes Neddermeyer.

As estratégias encontradas pela Capes, iniciadas ainda no ano passado, não parecem ter sido suficientes ainda. O governo articulou mudanças nas notas exigidas para que os candidatos se inscrevam e criou cursos de inglês (pela internet e presenciais) em parceria com as universidades federais e estrangeiras, com o objetivo de auxiliar os interessados em participar do programa a atingir a proficiência mínima antes da entrada na universidade pretendida.

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Denise conta que os organizadores do programa se surpreenderam com a quantidade de jovens que se candidataram às vagas oferecidas pelas universidades de Portugal. Ao todo, 35 mil universitários preencheram os formulários de inscrições. Desses, 28 mil completaram o processo e 18 mil tiveram as inscrições homologadas pelas instituições em que estudam.

O filtro de desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) eliminou pouco mais de 8 mil da disputa. A participação no Ciência sem Fronteiras exige do candidato notas acima de 600 pontos no Enem. “Tivemos a certeza de que estudantes muito qualificados querem participar, mas essa desproporção em relação a Portugal acendeu a luz vermelha para nós”, conta a diretora da Capes.

Busca de soluções

A coordenação, então, mandou e-mails para instituições parceiras de outros países – Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Canadá, França, Alemanha, Itália e Irlanda – para saber se eles teriam condições de receber mais estudantes. Na sequência, procuraram os próprios candidatos para saber se eles não topariam mudar de opção e partir para um desses outros países . “Queremos equilibrar esses bolsistas pelos países”, diz.

Não é possível afirmar, como ressalta Denise, mas a língua pode ter sido o grande motivador desses estudantes para escolher Portugal. É essa informação que a Capes quer buscar. Quem confirmar que aceitaria uma vaga em um desses outros países passará por um teste de nivelamento no idioma exigido na instituição. Se o desempenho não for o ideal, cursos de aperfeiçoamento (aqui ou no exterior) serão oferecidos a esses universitários.

“Só os que possuem chances de aprimorar os conhecimentos necessários em poucos meses terão a chance de fazer esses cursos no exterior. E vamos oferecer essa chance também aos estudantes que haviam se candidatado às vagas iniciais nesses países e não conseguiram uma vaga. Os que tiverem mais de 600 pontos no Enem e precisarem da formação terão essa oportunidade. Vamos fazer uma espécie de repescagem”, conta.

O processo de consulta aos candidatos e mudanças será concluído até o fim do mês, para que haja tempo de realizar os cursos.

Mudanças apenas no visto

Denise explica que a flexibilização da proficiência no Reino Unido só vale para a concessão do visto. No início do ano, mudanças ocorridas após acordo com o governo britânico foram interpretadas como facilidades para ingressar nas universidades. O visto de estudante no Reino Unido só é concedido a quem alcança nota 5,5 em todas as competências avaliadas pelo IELTS (escrita, fala, escuta e leitura). A nota máxima é 7.

O acordo permitiu que os candidatos que alcancem 5,5 em duas áreas e, pelo menos, 4,5 nas outras duas tenha a chance de aperfeiçoar o idioma em cursos de imersão no país. Os preparatórios durariam até seis meses (de acordo com a definição do órgão britânico) e, após o fim das aulas, os estudantes fariam novo teste. Apenas quem alcançar a nota exigida pela faculdade permaneceria no programa.

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“Esses estudantes vão aprender sim nesse tempo. São universitários com bom desempenho no Enem, que estarão imersos na língua. Acho que esse esforço é válido de todo jeito. A experiência de intercâmbio contribui também para a internacionalização do Brasil. Esses alunos precisam sair da zona de conforto deles, se desafiarem a aprender outra língua”, avalia Leandro Tessler, assessor para projetos de internacionalização da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Tessler defende melhorias no ensino da língua inglesa no Brasil. “Espero que essas pessoas tragam para o País uma mudança de formação. Tenho críticas ao programa, acho que as universidades deveriam participar mais da escolha do destino de seus estudantes, mas esse ajuste (oferta de cursos de inglês) é positivo”, afirma.

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