2012: será o final do mundo?

Em uma década, para os apocalípticos, o mundo já deveria ter acabado ao menos quatro vezes. Retrospectivamente, a primeira deveria ser no dia nove de setembro (mês nove) de 1999. Logo em seguida, o fim seria com o ¿Bug do Milênio¿, na virada do ano 2000. Nada.

Isis Nóbile Diniz |

Acordo Ortográfico

Em 11 de setembro de 2001, desesperados afirmavam que o ataque às Torres Gêmeas era o sinal do fim marcado por guerras nucleares. Dia 10 do mês passado ¿ seria setembro amaldiçoado? -, o LHC foi ligado . E ninguém engolido por um buraco negro.

Apesar das frustradas previsões, desistir jamais. Para intérpretes da cultura maia, o final do mundo foi definido há mais de quatro milênios. No livro As Profecias Maias, da editora Nova Era, os autores Adrian Gilbert e Maurice Cotterell, afirmam que, segundo a cronologia maia, a era atual começou em 12 de agosto de 3114 a.C.. E deve terminar no dia 22 de dezembro de 2012 . Mais uma tentativa de colocar fim à ínfima vida humana: pessimistas acreditam que essa é a marca para uma época de cataclismas e pestes.

Os mistérios do calendário perdido

O livro As Profecias Maias explica que essa civilização usava dois calendários. Um com ciclo repetitivo de 260 dias, chamado tzolkins, e outro com 365 ¿ mesmo número que o nosso Calendário Gregoriano promulgado pelo Papa Gregório XIII, em 1582. O primeiro era religioso e o segundo dividido em 18 meses de 20 dias, mais um mês curto de cinco temidos por serem considerados azarados dias. Além desse ciclo lunar, de 20 dias, e solar, de 365, os maias também cultivavam o calendário civil, que era linear.

O calendário deles era mais sofisticado do que o nosso que precisa de ano bissexto para incluir a diferença das seis horas que excedem a cada ano , diz Carlos Alberto Sampaio Barbosa, professor de História da América da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Como os dois ciclos não eram iguais, a combinação entre os dias de ambos apenas iria se repetir depois de 52 anos ou 73 tzolkins. Assim, a cada 18.980 dias a combinação entre os dois calendários se repetia. Esse período de tempo é chamado de Século Asteca ou Ciclo do Calendário. Além desse número, os maias também elaboraram mais um sistema para a intitulada Contagem Longa ¿ equivalente aos nossos séculos e milênios. Esses Grandes Ciclos são formados por 1.872.000 dias.

Segundo Barbara Hand Clow, autora do livro A Agenda Pleiadiana, da editora Madras, as Eras Maias podem ser dividas em 25.920 anos. Cada uma corresponderia a um signo do zodíaco. Atualmente, vive-se na Era de Peixe, considerada os anos do medo. Na fatídica data de 2012, a Era de Aquário irá começar. Será o início do fim . Barbara conta que o Sol é uma das sete estrelas ¿ as outras são Alcione, Merópe, Maia, Eletra, Taigeta, Coele e Atlas - que formam a Constelação das Plêiades. Quando o Sol completar o giro em torno de Alcione, ocorrerão mudanças catastróficas. Entre elas, a Terra será desmagnetizada. Sua polaridade será invertida. O Sul virará Norte e vice-versa.

Mitos de uma pseudociência

O filme Apocalypto retrata a civilização maia (Imagem/Reprodução)

De acordo com Adilson J. A. de Oliveira, professor especializado em magnetismo da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), muitas dessas explicações para justificar um final do mundo podem criar uma pseudociência . Quando a informação se baseia em fatos científicos distorcidos ou interpretados de maneira errada. O historiador exemplifica: É verdade que para os maias existiam Eras, mas o intuito delas era de renovação. Seria uma maneira de simbolizar o recomeço. Como se acabasse um ciclo e começasse outro mais evoluído. O contrário da ideia de final do mundo, interpretada por ocultistas.

A partir do estudo do mineral chamado magnetita, os geólogos comprovaram que a Terra já teve seus polos invertidos. Essa mudança acontece devido ao movimento caótico dos metais aquecidos no centro do planeta. Os estudiosos estimam, não se sabe ao certo, que a inversão dos polos magnéticos ocorra a cada um milhão de anos. Para Barbara, o fenômeno acontece a cada 25.920 seguindo o Calendário Maia . Isso é viável, mas ainda impossível de comprovar cientificamente, diz Hélio Diniz, do Instituto Geológico da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. A troca da polarização não causa catástrofes ou altera os movimentos da Terra. Há muito mito sobre magnetismo. As pessoas têm a sensação de que ele é uma força mágica que atrai os objetos, diz Oliveira.

Um mito que circula entre os apocalípticos é de que o Sol, considerado Deus pelos maias, está mais turbulento. Ele é uma estrela estável. Deve ficar no estado em que está por mais cinco milhões de anos, conta o físico. O aquecimento global é causado, sim, pelos gases do efeito estufa que seguram a radiação solar Terra. Além disso, apenas observamos o Sol a partir dos últimos 100 anos. É complicado afirmar se, hoje em dia, ele está mais ativo do que há milhares de anos.

Existe outra preocupação com relação ao Sol. De acordo com ocultistas, os ventos solares poderiam devastar o planeta . O campo magnético da Terra nos protege do vento solar, afirma Oliveira. Seria como um escudo que ameniza ou imuniza de efeitos indesejados. O vento solar é feito de partículas que alcançam a Terra com alta energia, provocando fenômenos conhecidos como a aurora boreal e a austral. As partículas, aceleradas pelo campo magnético do planeta, emitem a radiação que causa o efeito colorido.

Datas e dados revelam

Porém dois fatos comprovados cientificamente coincidem com a fatídica data apontada pelos autores. A cada 25 mil anos o eixo de rotação da Terra muda. De maneira ilustrada e simplificada, imagine a Terra como sendo um pião. Ela às vezes pende mais para um lado e outras para o outro, com o planeta ocorre semelhante, diz Oliveira. Também, há 26 mil anos atrás, ocorreu a extinção dos neandertais e dos mamutes. O final dos concorrentes do homo sapiens, possivelmente, ajudou na evolução da espécie humana .

De acordo com o físico, independente do ano, o planeta pode ser atingido por um meteoro a qualquer instante. O que pode extinguir a raça humana, como aconteceu com os dinossauros. Existe a evidência de um objeto com mais de um quilômetro de diâmetro que pode alcançar o planeta no ano de 2035 , diz Oliveira. Se ele alcançar a Terra a uma velocidade de 60 mil quilômetros por hora, o choque seria equivalente a explosão de 10 mil bombas atômicas. A Nasa incentiva os pesquisadores a fazerem 'varreduras' no universo para encontrar objetos semelhantes, revela.

O estudioso lembra que, em 1908, um pedaço de um cometa caiu na região da Sibéria, na Rússia . Muitas partículas foram lançadas na atmosfera. Tantas que Londres ficou sem a luz solar por uma semana . Sendo assim, o mundo já deve ter acabado e recomeçado milhares de vezes. Seria, o ano de 2012, mais uma tentativa frustrada de datar o fim à ínfima vida humana?

Os maias estão entre nós

Parece até síndrome de Indiana Jones. Por que será que a cultura maia atrai tanto a atenção das pessoas? Porque é fascinante desvendar o cotidiano de uma civilização que, aparentemente, não existe mais. Imaginar que, sem os instrumentos atuais, ela conhecia com perfeição a astronomia. Criou cidades onde habitaram mais de 200 mil pessoas. Praticava a agricultura e desviava o curso de rios . Mas apesar de tanto conhecimento matemático e, possivelmente, biológico cultuava seus deuses com rituais com sacrifício humano.

Barbosa acredita que as pessoas ficam fascinadas por não acreditarem que, antigamente, existiam povos com conhecimento desenvolvido. Os maias eram capazes de fazer cálculos que só conseguimos usando a tecnologia, diz. Eles conheciam o conceito de zero antes mesmo dos europeus. Aliás, foram os árabes que introduziram o zero na Europa . Outro dado que deslumbra as pessoas é o fato de creem que os maias sumiram sem deixar pistas ou explicações.

Os maias eram uma das civilizações que habitavam a América Central. Começaram a formar as cidades por volta de 700 a.C.. Eles se situaram onde hoje é o México, a Guatemala e a Honduras. O auge da sua cultura ocorreu por volta do ano 1000 d.C. A agricultura maia era intensiva, fundamental para abastecer o número populacional. Seu principal cultivo era o milho .

As cidades foram construídas e definidas pela observação dos astros. As pirâmides eram consideradas o eixo do universo, conta o historiador. Foram edificadas no exato ponto onde mediam os equinócios - momento do ano em que os dias são iguais às noites - de verão e de inverno. Desse modo, as pirâmides foram colocadas nos pontos mais extremos onde o Sol nascia e se punha.

Os maias cultuavam os deuses astros - como a Lua e o Sol. Suas pirâmides eram diferentes das egípcias, usadas como uma espécie de mausoléu. As maias eram os templos onde ocorriam os rituais religiosos. A maioria das pirâmides maias eram abertas e voltadas para as praças, para a população acompanhar os rituais . Por volta do ano de 1200 d.C., o historiador afirma que os maias deixaram de usar as pirâmides para essa prática. Dessa maneira, atualmente, os estudiosos procuram os motivos para explicar o abandono desses edifícios e das cidades.

O fim da população

Ao contrário do que pensa, as cidades maias eram belicosas, viviam em conflitos e em guerras, diz Barbosa. Por isso, uma das hipóteses é de que a população tenha fugido para viver longe da violência. Outra seria um crescimento populacional tão grande que teria tornado inviável todos viverem dos mesmos recursos . Por fim, um desequilíbrio ecológico causado pelo uso demasiado da natureza como da água e dos alimentos seria outra eventualidade. Todas essas hipóteses, juntas, podem explicar o abandono das cidades para viver em lugares menores, conta.

Quando os espanhóis chegaram, no século XVI, as cidades maias já estavam abandonadas. Mas os maias não sumiram. No caso do México, por exemplo, que possui uma grande população indígena com várias línguas, há uma preocupação de construir uma nacionalidade, diz o historiador. Eles têm medo de fragmentar o país, por isso é comum os livros didáticos afirmarem que os maias desapareceram , conta Barbosa. Como ocorreu em demais locais da América, os maias foram dominados por outros povos, colonizados ou se mestiçaram.

Além disso, sua cultura antropológica continua existindo, diz. Indígenas da região central da América ainda utilizam dialetos maias. Populações que vivem em aldeias com propriedades agrícolas coletivas, semelhante às dos maias antigos, permaneceram.

Muitos descendentes dessa desenvolvida civilização vivem no México e na Guatemala, como na cidade de Cancun. Alguns membros do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) são de etnias maias. Assim, apesar do movimento apocalíptico sem base científica, algumas semelhanças dos maias com o mundo de hoje podem ser consideradas. Há algo de atual no abando das cidades pelos maias devido ao desequilíbrio ecológico .

Leia mais sobre: Maias

    Leia tudo sobre: 2012educaçãofim do mundomaias

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG