“Vamos entrar nas cotas já em déficit com a assistência”, diz novo reitor da UnB

Em entrevista ao iG, Ivan Camargo afirmou que espera apoio do governo federal para ajudar os futuros estudantes e que pretende levantar debate sobre uso do Enem em seleções

Priscilla Borges - iG Brasília |

A relação do novo reitor da Universidade de Brasília (UnB), Ivan Marques de Toledo Camargo , com a instituição começou há 34 anos, quando era estudante de engenharia elétrica. A partir de então, uma série de passos marcantes na vida estariam ligados à universidade, onde conheceu a mulher, viu os irmãos estudarem, foi professor e formou os próprios filhos. Agora, se torna o principal gestor da instituição.

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Camargo entrou na universidade como professor do departamento de engenharia elétrica em 1989. “O meu maior gosto é dar aula para a graduação, com aquelas salas bem cheias”, diz. Entre 2003 e 2005, foi decano de graduação durante a gestão do professor Lauro Mohry. Ele conta que, desde aquele período, a universidade praticamente dobrou de tamanho. Os desafios também se multiplicaram.

Alan Sampaio
Ivan Camargo, reitor da UnB, é ex-aluno da instituição

O novo reitor terá de colocar em prática o projeto de cotas para estudantes de escolas públicas – e achar um ponto comum com o próprio programa de reserva de vagas, que é para negros – abrir o debate sobre a utilização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nos processos seletivos da instituição e ainda transformar o Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe), responsável pelos vestibulares, em empresa pública de concursos.

Em entrevista ao iG , Camargo disse que a universidade não tem condições financeiras de apoiar os novos cotistas com o orçamento atual. Diz que espera o apoio do governo e que o uso do Enem precisará ser “avaliado” pelos conselhos universitários. Confira:

iG: O senhor foi decano de graduação da UnB entre 2003 e 2005. A universidade mudou muito e qual acredita que seja seu maior desafio como reitor?
Ivan Camargo: A universidade cresceu muito. Isso é muito positivo. O Reuni (programa do governo federal para expansão das universidades) atendeu a uma demanda da sociedade absolutamente legítima: aumentar o número de vagas em universidades públicas. A universidade aceitou esse desafio e agora a gente precisa consolidar esse passo. Isso significa investir no espaço físico, nas condições de trabalho para os professores e no desenvolvimento dos grupos de pesquisa.

iG: Ainda faltam professores para que esses câmpus funcionem plenamente?
Camargo: Ainda não sei. O número de professores aumentou muito. Quando eu era decano, havia 1,3 mil. Agora são 2,5 mil. É quase uma outra universidade. A gente precisa dar apoio a esses novos professores. Não podemos considerar os câmpus novos consolidados também. A gente precisa pensar com muito carinho e viabilizar que eles tenham uma estrutura comparável à do câmpus Darcy Ribeiro.

iG: A universidade enfrenta um problema antigo de falta de funcionários, que se traduziu na contratação de funcionários terceirizados, muitas vezes de contratos frágeis. Esse é um nó que o senhor já se prepara para resolver?
Camargo: Há três pontos que tenho repetido que são importantes para serem resolvidos: as questões de conformidade legal, o rigor orçamentário e a união da nossa academia. Nesse ponto em particular, dos prestadores de serviço, temos diversas situações diferentes e estamos conversando com a nossa procuradoria jurídica sobre cada uma delas. A que mais me preocupa é a situação dos “precarizados”. Assinamos um termo de ajuste de conduta para resolver o problema desses funcionários, cujos contratos não são legais. Minha preocupação é com o rigor orçamentário: saber se nossos gastos estão compatíveis com nossa receita. Segundo o MEC, estamos gastando muito mais do que as outras universidades. Precisamos avaliar por quê.

iG: O Cespe é um dos órgãos da universidade que mais se utilizou desse expediente de contratar funcionários terceirizados para dar conta da demanda de trabalho. Depois de muitas tentativas de ajustes, ele agora se tornará uma empresa pública. Como o senhor vê essa mudança? A universidade perderá muito?
Camargo: A gente perde uma coisa muito importante para a universidade. Mas o Cespe é maior do que a universidade. Ele mudou a cara do serviço público no Brasil. Se a gente tem concursos confiáveis no País foi por causa do trabalho da inteligência da universidade. A criação da empresa foi uma demanda do ministério, já passou pelo nosso Conselho Universitário e foi aprovad a. Agora precisamos fazer essa mudança.

iG: E como vão ficar os processos seletivos da universidade?
Camargo: Isso ainda está em aberto, precisamos discutir juntos, colocar em pauta com o ministro.

Alan Sampaio
Reitor quer reativar o Conselho Diretor da universidade e discutir o uso do Enem

iG: O senhor ganhou, junto com a gestão da reitoria, outro desafio para a universidade: implementar o novo projeto de cotas. Como vê esse novo passo?
Camargo: Essa é uma discussão que vai entrar na pauta dos nossos conselhos. Mas eles não estão acima da lei, vamos cumprir a lei. Não tenho dúvida nenhuma de que é um desafio enorme, mas temos tempo para nos preparar. Já existe na UnB um contingente razoável de estudantes de escolas públicas e de estudantes de baixa renda, maiores beneficiados pelas cotas. Com 25% de reserva de vagas para eles, não há alteração na universidade. Com isso, teremos tempo de nos preparar para a mudança. A UnB estava na vanguarda das cotas. Está mesmo na hora de avaliarmos nosso projeto, que teve sucesso impressionante . As cotas mudaram a cara da universidade. O que estamos vendo na sala de aula são meninos excepcionais, tirando nota 10.

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iG: Com as cotas que vão vir, os estudantes podem precisar de diferentes auxílios: pedagógico, financeiro. A universidade tem condição de dar esse suporte com os recursos que tem hoje?
Camargo: A universidade não tem condição. Vamos entrar nesse processo já em déficit com a assistência. A promessa do governo é aumentar essa verba significativamente. Até porque se é uma ação do governo – e não é só colocar na universidade, é formar pessoas – não adianta colocar e não dar condições para que elas se formem.

iG: Há algum processo que o senhor queira mudar na sua gestão?
Camargo: Precisamos reativar o Conselho Diretor da universidade que é quem deveria avaliar as contas da UnB. Temos de discutir também o uso do Enem pela universidade. É um tema importantíssimo porque parte dos recursos para assistência estudantil está condicionada ao uso do Enem na seleção. Ainda não tenho clareza se o Enem é um caminho sem volta. Na primeira discussão que tivemos no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) sobre o tema, o Enem estava começando. Agora o processo está mais consolidado. A universidade vai ter de se posicionar. Talvez essas duas coisas – a transformação do Cespe em empresa e a pressão do MEC em termos financeiros para que o Enem seja importante – forcem nosso Conselho a refletir sobre a melhor forma da universidade se posicionar.

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