Após ocupação da reitoria, estudantes da PUC-SP fazem greve

Alunos protestam contra a nomeação da professora Anna Cintra para assumir a reitoria. A docente perdeu a eleição direta, mas mesmo assim foi designada para o cargo

André Carvalho - iG São Paulo |

Em 1980, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) se tornou a primeira universidade a eleger seu reitor por meio de uma eleição direta. Desde então, a universidade é reconhecida como um símbolo de democracia, elegendo seus reitores por eleições diretas, sendo o primeiro colocado, sempre, nomeado pelo grão-chanceler da universidade. Neste ano, no entanto, tal processo foi abalado: ao invés de nomear o atual reitor Dirceu de Mello, vencedor do pleito, realizado em agosto, o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilio Scherer, responsável por referendar o reitor ao cargo, definiu a professora de Letras Anna Cintra como a próxima mandatária.

A decisão revoltou a comunidade puquiana. Na noite desta terça-feira, 13, após assembleia, os estudantes decidiram ocupar a reitoria e deflagar greve geral. Nesta quarta (14) pela manhã, após nova assembleia, foi decidido que a reitoria será desocupada, mas a greve irá prosseguir. Os alunos dizem que a mobilização só acaba quando a nomeação de Anna Cintra for retirada.

Alex Falcão/Futura Press
Estudantes da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo ocupam a reitoria da universidade em Perdizes, zona oeste da capital paulista, na noite desta terça-feira


Em nota divulgada pelos estudantes, eles afirmam que “a recente nomeação da candidata menos votada caracteriza o ponto culminante de um processo que se estende através dos últimos anos contra a democracia e os direitos da comunidade. Deste modo, legitima-se a ação direta, decidida em assembleia geral, que contou com mais de quatro mil estudantes, de ocupar a reitoria e declarar a greve geral, por intermédio de um movimento autônomo, pacífico e apartidário.”

Para Valdir Mengardo, professor da Faculdade de Jornalismo, a nomeação da professora Anna Cintra para o cargo de reitora representa “um grande retrocesso”. Ele afirma que “é consenso, mesmo entre os eleitores dos candidatos de Anna Cintra, que o primeiro colocado deveria assumir”. Segundo o docente, “toda a comunidade está revoltada e esperamos que esta decisão seja revertida”.

Ainda segundo a nota dos estudantes, “a comunidade da PUC-SP não aceita, em hipótese alguma, o empossamento da candidata nomeada pelo cardeal. Em razão disso, exigimos a posse imediata do candidato mais votado, neste caso Dirceu de Mello”.

Diferente da USP

Mengardo reforça que a arbitrariedade sofrida pelo processo democrático da PUC “é muito pior do que aconteceu na USP”. Em 2009, João Grandino Rodas foi nomeado, pelo então governador de São Paulo, José Serra, reitor da universidade, apesar de ter ficado em segundo lugar no colegiado que definiria novo comandante da reitoria. “Aqui, as eleições são diretas, lá não, são definidas por um colegiado, em eleições indiretas”.

Ele defende a greve e afirma que “a Faculdade de Direito está solidária, o departamento de Jornalismo está paralisado, assim como a Faculdade de Serviço Social”. E completa que a Faculdade de Economia Administração e Contabilidade (FEA) também deve aderir às paralisações.

Uma nova assembleia será realizada após o feriado, na quarta-feira, 21. Os três candidatos ao cargo de reitor, bem como o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilio Scherer, serão convidados.

História

Na primeira e histórica eleição para reitor da PUC-SP, estudantes, professores e funcionários reconduziram a professora Nadir Kfouri, então reitora – que formulou as bases, em sua gestão anterior, para o perfil democrático pioneiro que a instituição adquiriu –, para mais um mandato. Kfuri já havia ganhado notoriedade, quando, em 22 de setembro de 1977, confrontou o regime militar, que havia invadido a PUC, com bombas e cassetetes, negando-se a cumprimentar o então secretário de Segurança Pública de São Paulo, Erasmo Dias, a quem chamou, friamente, de assassino.

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