“Queremos que mais alunos aprendam português”, afirma reitora de Michigan

Mary Sue Coleman, reitora de uma das mais importantes universidades dos Estados Unidos, visitou o Brasil esta semana para fechar parcerias com instituições e governo

Priscilla Borges - iG Brasília |

Em sua primeira visita ao Brasil, Mary Sue Coleman se diz fascinada com o País, parceiro de longa data da Universidade de Michigan, que dirige desde 2002. A simpática e sorridente senhora responsável por uma das universidades mais importantes dos Estados Unidos – e do mundo – quer aumentar o número de parcerias com instituições brasileiras e ouvir mais a língua portuguesa no câmpus em que trabalha.

Para isso, aposta em firmar acordos para levar jovens brasileiros para estudar durante temporadas na universidade – e o programa de bolsas do governo Ciência sem Fronteiras é um bom caminho – e investir ainda mais nos cursos de língua portuguesa que já oferece aos alunos de Michigan. Em entrevista ao iG , Mary Sue disse que o número de doutorandos brasileiros na instituição é pequeno. Embora não tenha metas definidas, ela diz que pretende mudar essa realidade em breve.

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Nos intervalos das viagens que fez por São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, a 13ª reitora da Universidade de Michigan, eleita pela revista Time uma das dez melhores reitoras de universidade dos Estados Unidos, contou ao iG que pretende discutir as melhores formas de incluir brasileiros na instituição. Não descarta, por exemplo, a necessidade de criar programas de apoio para reforçar o ensino da língua inglesa para alguns alunos.

Alan Sampaio / iG Brasília
Em sua primeira visita ao Brasil, Mary Sue Coleman visitou universidades e órgãos do governo para firmar parcerias de intercâmbio

A Universidade de Michigan tem 6 mil estudantes estrangeiros. Se depender de Mary Sue, terá ainda mais. Especialmente, brasileiros. Confira a entrevista:

iG: Quais as impressões da senhora sobre essa viagem ao Brasil? A senhora firmou os acordos que desejava durante a visita?
Mary Sue Coleman: Essa é a primeira vez que venho ao Brasil e estou achando a viagem fascinante. A história da Universidade de Michigan com o Brasil é longa. Atualmente, temos muitas colaborações em andamento com os pesquisadores daqui. O objetivo da nossa viagem é expandir essas parcerias e explorar novas áreas. Já desenvolvemos pesquisas na área médica, de história e cultura brasileiras e sustentabilidade ambiental. Queremos ampliar os projetos em conjunto nessas áreas e, área ambiental, gostaríamos de dividir mais pesquisas em políticas públicas e gerenciamento.

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iG: A Universidade de Michigan já acolhe estudantes do programa Ciência sem Fronteiras. Esse é um projeto que deve aumentar após essa visita? Vocês definiram com o governo brasileiro números de bolsistas e prazos para novas vagas?
Mary Sue: Estamos interessados em ampliar o programa sim. Estamos estudando as melhores formas de participar. Não definimos números específicos de alunos ou limite para recebê-los. Para nós, é mais importante ter o estudante certo e, obviamente, um projeto valioso para os dois lados.

Divulgação
Em entrevista ao iG, a reitora da Universidade de Michigan disse que está investindo em cursos de língua portuguesa no câmpus e cultura brasileira

iG: Que características a Universidade de Michigan espera de um estudante?
Mary Sue: Temos uma área de pesquisa muito ampla em Michigan. Somos a maior instituição em termos de investimentos em pesquisa dos EUA, temos 95 programas ranqueados entre os melhores do país. Com isso, queremos estudantes curiosos, que queiram aprender e entendemos que, apesar de nossos programas serem muito seletivos, vamos atender alguns estudantes que não tiveram acesso a uma preparação mais rigorosa. Sempre quisemos proporcionar oportunidades para esses estudantes.

iG: O que pode ser o maior empecilho para os estudantes que queiram se candidatar a uma vaga em Michigan: a língua inglesa, possíveis falhas na formação básica?
Mary Sue: Não sei se temos essa compreensão ainda. Claro que, às vezes, o inglês é um obstáculo e a exigência de uma preparação mais rigorosa em matemática, por exemplo, pode ser outro obstáculo. Queremos pensar com a Capes formas de tornar essas oportunidades mais acessíveis aos estudantes. Queremos facilitar isso.

iG: A universidade poderia, por exemplo, financiar cursos preparatórios para esses alunos?
Mary Sue: Conversamos sobre isso. No passado, tivemos um programa chamado Bridge (ponte, em português) que foi bem sucedido. Os alunos de graduação, que vinham de populações geralmente pouco representadas na universidade, tinham a oportunidade de fazer cursos de verão, antes de começar o ano letivo, nas disciplinas em que precisavam de reforço. Pode ser um modelo que funcione nessa nova experiência.

iG: Os estudantes brasileiros têm atraído o interesse de muitas universidades norte-americanas, especialmente com o Ciência sem Fronteiras. O que é atraente no País?
Mary Sue: Para nós, as nossas conexões históricas são um ponto. Nós temos enfatizado o ensino da língua portuguesa na universidade e os estudos sobre o Brasil. Temos até uma associação de estudantes brasileiros em Michigan. Temos muito interesse em dar apoio ao programa. Não temos muitos estudantes da América Latina nos nossos programas de pós-graduação, principalmente os de doutorado. Queremos ter mais estudantes de pós-graduação do Brasil. Seria bom para o nosso câmpus. Já temos muitos estudantes da China, da Índia.

iG: O que muda na formação dos universitários o contato e a convivência de tantas culturas diferentes na instituição?
Mary Sue: Temos estudantes de 130 países no câmpus, somos como uma pequena “Nações Unidas”. Acho que os alunos dos Estados Unidos aprendem sobre o resto do mundo com isso, nossa a conversa é mais interessante, a educação mais qualificada. Enriquece o câmpus.

iG: A senhora visitou algumas universidades brasileiras. Que tipo de parcerias negociaram?
Mary Sue: Fizemos encontros para falar de projetos já existentes, como os estudos de câncer com a Universidade de São Paulo (USP) . Estamos explorando mais áreas de ciências sociais e humanidades com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e, na área ambiental, estamos procurando possibilidades em São Paulo e também no Rio. Temos muitos programas de pesquisa e intercâmbio com o Brasil. Mas queremos mais. Queremos que mais estudantes nossos aprendendo a língua portuguesa.

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iG: A universidade está participando de um programa que oferece cursos gratuitos online. O que tem achado da experiência? É inevitável pensar na educação a distância?
Mary Sue: É um experimento. Estamos participando do programa Coursera, mas não temos um modelo de negócios, não sabemos como vai funcionar. Temos um pequeno e seleto grupo de cursos online, nas áreas de enfermagem, engenharia, negócios. Eu não sei se a educação a distância é inevitável. Ela nunca vai substituir a universidade, eu acho. Mas pode ser uma forma de distribuição do conhecimento.

Alan Sampaio / iG Brasília
Delegação da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, em visita à embaixada norte-americana em Brasília: em busca de alunos brasileiros

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