Um ex-aluno assumirá a Universidade de Brasília pela primeira vez

Dividida, maioria da comunidade acadêmica da UnB escolheu Ivan Camargo como reitor. Aliados apostam na capacidade técnica do professor para recuperar prestígio da instituição

Priscilla Borges - iG Brasília |

Uma comunidade bastante dividida elegeu, no último dia 13, Ivan Marques de Toledo Camargo para o cargo máximo da Universidade de Brasília (UnB) . A trajetória do novo reitor dentro da universidade que está entre as melhores do País começou há 33 anos, quando passou no vestibular para Engenharia Elétrica da universidade. De aluno a professor do departamento onde estudou, Camargo chega agora à reitoria como o primeiro ex-aluno no posto.

Dentro da Faculdade de Tecnologia, onde coordenou a pós-graduação e o próprio Departamento de Engenharia Elétrica, a popularidade de Camargo é grande. Para alunos e professores, o pensamento pragmático e racional de um engenheiro contribuirá para melhorar a gestão dos recursos da instituição. Além disso, esperam mais investimentos em pesquisas, especialmente para as áreas tecnológicas.

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Ivan Camargo, novo reitor da UnB, é o primeiro ex-aluno eleito para o cargo

Longe de seu quintal, as dúvidas sobre sua futura gestão aparecem mais. Estudantes das áreas de humanas, por exemplo, temem que o novo reitor “se esqueça” das áreas não-exatas. “Durante a campanha, ele não demonstrou estar aberto para ouvir demandas de outros cursos”, comenta Paula Guedes, de 18 anos, aluna do 6º semestre de Letras. No curso dela, ele não passou para debater propostas.

Opinião bem diferente têm os alunos dos cursos da Faculdade de Tecnologia. Franco Serighelli, de 23 anos, estudante do 10º semestre de Engenharia Mecânica, conta que, bem antes de a campanha para reitor começar, Camargo procurou os centros acadêmicos para ouvir demandas dos alunos. “Eu nem sabia quando seriam as eleições e achei legal ele nos procurar. Ele demonstrou estar interessado nas nossas reivindicações”, diz.

Durante os debates e confrontos com os adversários de campanha, Camargo procurou não bater de frente. Evitou falar de problemas do passado e tem repetido que seu maior desafio será conseguir a união da UnB . Os números das eleições comprovam o tamanho do desafio: Camargo recebeu 6.323 votos (51,5%) do total. Márcia, a segunda colocada, obteve 6.070 votos (46,4%).

UnB Agência/Divulgação
Ivan Camargo comemora vitória de eleições para reitor da UnB ao lado de sua vice, Sonia Báo

Conhecido como uma pessoa simpática por quem convive de perto com ele, aberta ao diálogo e comprometida com a universidade, Camargo já atuou também no governo federal. Trabalhou na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) na época da crise energética do País, entre 1999 e 2002. No governo da presidenta Dilma Rousseff, voltou à agência. Para ele, esse é um sinal de “apartidarismo, importante para gerenciar uma universidade”.

À frente da graduação

Camargo se tornou conhecido pela comunidade acadêmica da UnB quando foi decano de Graduação, entre 2003 e 2005. À época, Lauro Mohry era o reitor e seu vice, Timothy Mulholland. Mulholland também foi reitor da UnB, eleito após o último mandato de Mohry, e renunciou ao cargo após uma ocupação feita por estudantes na reitoria, que criticavam o dinheiro gasto pela administração para decorar o imóvel funcional que o reitor vivia.

À frente do decanto, Camargo ajudou a concretizar um dos mais audaciosos projetos da universidade: as cotas para negros . Pai de três estudantes da instituição, ele gosta de dizer que esse foi uma das experiências mais “marcantes” dentro da UnB. Assim como seus aliados, ele diz que a visão pragmática dada pela formação em Engenharia o ajuda a valorizar e respeitar a diversidade que existe na universidade.

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Preocupados com a excelência acadêmica – e queda da UnB em rankings de desempenho de universidades – os professores que votaram em Camargo acreditam que sua experiência de gestão vai ajudar a mudar o cenário. Sem perder a calma quando fala, quem trabalha com Camargo diz que ele possui grande liderança e é capaz de lidar com temas polêmicos de forma sensível. Comprometimento com a UnB também é outra “virtude” elencada por professores.

Os críticos, porém, lembram que, durante sua gestão no Decanato de Graduação, os alunos pagavam – indevidamente – taxas para emitir diplomas. Utilizam o episódio e o discurso de que ele pretende “captar recursos” externos para financiar pesquisas como um sinal de “privatização” da universidade. Franco, por exemplo, vê nisso uma virtude. Para o jovem estudante, faltam recursos para a pesquisa e isso não tem a ver com privatização.

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“Precisamos investir em pesquisas, o dinheiro repassado pelo governo não é suficiente e acho importante captarmos isso fora. O importante é gerenciar de forma adequada”, afirma. Para conseguir a união que tanto deseja, Camargo terá de manter a “personalidade pacífica” e a “disponibilidade pública e preparo pessoal para o diálogo”, características apontadas pelo adversário na disputa à reitoria Volnei Garrafa.

A posse do novo reitor está prevista para o dia 18 de novembro. Resta agora o nome de Camargo ser aprovado pelo Ministério da Educação e pela presidenta Dilma Rousseff. Eles têm 60 dias para avaliar as escolhas das universidades.

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