Alunos de escolas destaque no Ideb vão para aula em pau-de-arara

Diretora de instituição com nota 8,1 na avaliação do MEC no Ceará teme pela segurança dos estudantes

Daniel Aderaldo - iG Ceará |

A rotina se repete há cinco anos. Ainda no escuro, às 4 horas da manhã, Francisco Leonilson Sá, 32 anos, está acordado. Em 30 minutos precisa dar partida no caminhão Ford F-4000 e dirigir por uma hora até entrar na rota. São 40 quilômetros de estradas de terra e piçarra – pedrinhas semelhantes ao saibro. Ao longo do trajeto, crianças aguardam a chegada do pau-de-arara que ruma à escola.

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Nesse ínterim, Ana Carla Alves Furtuoso, 11 anos, veste a farda, toma café da manhã, apronta o material escolar e caminha por 15 minutos até a beira da estrada próxima de casa onde embarca na caçamba do caminhão, a essa altura lotada pelos colegas. Serão mais 20 minutos no transporte escolar, protegida apenas por barras de madeira que servem de apoio e pedaços de lona, que bloqueiam a poeira.

Na Escola Sebastião Francisco Duarte, na zona rural de Pedra Branca, Sertão Central cearense, os professores já aguardam na entrada a chegada do pau-de-arara para ajudar a desembarcar os menores. Para começar, a aula em uma das duas escolas mais bem-avaliadas do Ceará no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2011 , com nota 8,1, depende de um dos meios de transporte mais comuns no sertão nordestino, mas também um dos mais arriscados.

Outro caso: Duzentos quilômetros por dia para frequentar a escola

“Mas não faz medo, não”, faz pouco caso Ana Carla. Acostumada com o sacudir do caminhão, aprendeu a se equilibrar e segurar firme na barra de madeira. Ali não há notícia de acidentes e, embora a prefeitura alegue não haver outro meio de transportar os alunos pelo sobe e desce do relevo acidentado da serra esturricada, a diretora Maria Neuziran Duarte teme pela segurança dos pequenos todo dia.

“Com certeza, se tivesse um ônibus adaptado, seria bem melhor para dar um conforto a essas crianças”, defende.

Daniel Aderaldo
Pau-de-arara chega com alunos para aula da manhã na Escola Sebastião Francisco Duarte

Há oito anos, 120 escolas formavam a rede municipal de ensino da pequena Pedra Branca. Número impressionante para um município de apenas 43 mil habitantes, não fosse por contabilizar precárias instalações espalhadas pela sede e zona rural.

Quando a administração municipal começou a fechar boa parte dessas escolas, enfrentou protesto dos moradores das áreas distantes. Não havia transporte escolar e os pais temiam que as dificuldades levassem os filhos a abandonar os estudos.

À época, a Secretaria de Educação do Município argumentou que para melhorar a qualidade de ensino precisava concentrar as aulas em prédios com estrutura mínima. De 120, a rede passou a ter 60 escolas. “Se não tivéssemos substituído aquelas escolas pelos núcleos, não teríamos alcançado esse resultado na educação”, pondera a funcionária da prefeitura, Ivonete Braga.

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