No mesmo ano da tragédia em Realengo, escola cresce quase 30% no Ideb

Apesar do trauma, Escola Municipal Tasso da Silveira obteve desempenho acima da média nacional em avaliação de 2011

Anderson Dezan , iG Rio de Janeiro |

George Magaraia
Estudantes em sala de aula na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo

Desde o massacre que vitimou 12 crianças, a Escola Municipal Tasso da Silveira , localizada no bairro de Realengo, na zona oeste do Rio, vem tentando superar as marcas deixadas pela tragédia. Uma ampla reforma foi realizada e as normas de segurança em suas dependências ficaram mais rígidas, por exemplo. Agora, um novo número mostra que os esforços têm sido bem sucedidos.

Confira também: Consulte as notas do Ideb 2011 das escolas públicas brasileiras

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Nova fachada da Escola Municipal Tasso da Silveira

O resultado do último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) aponta que, mesmo convivendo com os traumas deixados pelo massacre, a instituição de ensino registrou um aumento na sua nota final em 2011. Nos anos iniciais (até o 5º ano do ensino fundamental), o acréscimo foi de 14%. A nota que em 2009 era 4,9 saltou para 5,6. Já nos anos finais (do 6º ao 9º ano do ensino fundamental), o aumento foi de 29%, indo de 3,8 para 4,9.

Em ambos os casos, os resultados obtidos pela Tasso da Silveira ficaram acima da média nacional. Nos anos iniciais, a nota no Brasil foi 5,0. Nos anos finais, a marca chegou a 4,1. O resultado da escola de Realengo até o 5º ano do ensino fundamental também ficou bem próxima da marca definida pelo governo federal como meta a ser alcançada pelas instituições do País até 2021: 6,0 - média correspondente à qualidade do ensino em países desenvolvidos.

Criado em 2007, o Ideb mede a cada dois anos a qualidade das escolas no País. Para chegar à nota final, o MEC utiliza a taxa de aprovação na instituição de ensino e o desempenho dos alunos em provas aplicadas pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Quanto menos repetências e desistências a escola registrar e quanto maior forem as notas de seus estudantes no teste, melhor será sua nota no Ideb.

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"Com essa nota no Ideb, mostramos que a escola está viva" diz o diretor Luís Marduk

Aprovação x reprovação

No caso da Tasso da Silveira, o índice de aprovação em 2011 contribuiu para a nota final no Ideb. Segundo o diretor Luís Marduk, uma estratégia pedagógica adotada orientou os professores a “não pesarem a mão” nas avaliações escolares no momento pós-massacre. A medida resultou na proporção de seis estudantes reprovados a cada 100. “No momento da tragédia era importante ter o aluno confiando na escola, trazê-lo de volta com segurança e tranquilidade para aprender”, informou ele.

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As notas da Escola Municipal Tasso da Silveira no Ideb ficaram acima da média nacional

No entanto, a prática não deve tirar o mérito da instituição de ensino. Os resultados dos alunos nas provas de português e matemática do Inep, outra variante utilizada para compor a nota final do Ideb, também ficaram acima da média do País. Nos anos iniciais, os estudantes atingiram 5,95 e, nos anos finais, 5,26. As marcas brasileiras foram 5,43 e 4,97, respectivamente.

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Para Marduk, essas notas refletem o empenho e a preparação dos alunos. Iniciadas durante o período letivo, as obras na instituição de ensino reduziram a carga horária escolar e por isso poderiam atrapalhar a aprendizagem. Mas o que aconteceu foi o contrário. “A concentração do tempo acabou dando uma qualidade maior à aula. Não tinha recreio ou intervalo. O tempo que os alunos estavam na escola era sempre aproveitado ao máximo com trabalhos e exercícios. Isso acabou interferindo”, avaliou.

Superação de traumas

De acordo com o diretor da Tasso da Silveira, a boa classificação no Ideb veio coroar a cooperação montada na instituição para superar a tragédia do dia 7 de abril de 2011. “Esse índice é positivo porque nesse momento de reconstrução tudo o que precisamos é de confiança. Mesmo com as dificuldades, tivemos uma melhora. Com essa nota, mostramos que a escola está viva”, avaliou.

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Mural ao fundo foi feito após obras para marcar o recomeço da escola pós-massacre

A psicóloga Maria Luiza Bustamante, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), explica que superações como a da escola municipal não são frequentes. Isso porque traumas decorrentes de fatos como o massacre de Realengo diminuem a criatividade e a produtividade intelectual. O esforço das pessoas para superá-lo pode, entretanto, acarretar em uma produção superior à anterior do fato.

“Tudo depende da interação entre a ocorrência do trauma e a sociedade que foi vítima dele. Como exemplo, podemos citar países que foram destruídos por guerras e reagiram de uma maneira que conseguiram superar o ocorrido”, comparou.

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