Município exemplo piora nota no Ideb e culpa aplicação da Prova Brasil

Boa Vista do Tupim, cidade baiana que havia atingido índice de qualidade de países desenvolvidos em 2009, caiu quase dois pontos na média

Priscilla Borges - iG São Paulo |

Estudantes assustados, cartões preenchidos de forma equivocada, provas em branco. Essas são as justificativas encontradas por professores, coordenadores e supervisores pedagógicos para explicar a queda no desempenho dos alunos do município baiano de Boa Vista do Tupim. A cidade, considerada modelo e exemplo de crescimento da qualidade de ensino em 2010 , perdeu quase dois pontos na média do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Em 2010: Boa Vista do Tupim mostra como alcançar o ensino de qualidade
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Em 2005, a nota do município no índice criado pelo Ministério da Educação (MEC) para medir a qualidade das escolas brasileiras era 2,2. As médias do Ideb variam de 0 a 10. A meta estabelecida pelo MEC para as escolas de anos iniciais do ensino fundamental em 2021 é 6. Com essa nota, elas teriam o mesmo desempenho educacional de países desenvolvidos. Em 2007, Boa Vista do Tupim alcançou média 4,8 e, em 2009, 5,8.

O avanço foi tema de reportagens e até livro do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A conquista, segundo gestores do município, foi feita com investimento na formação de professores e atenção individualizada aos alunos. Dois anos depois, mesmo sem mudar as políticas educacionais da cidade, o feito não se repetiu. Boa Vista do Tupim perdeu 1,8 ponto na média e ficou com nota 4.

Ideb 2011: Consulte as notas das escolas públicas brasileiras no ensino fundamental

Apesar de estar dentro das metas previstas pelo Ministério da Educação – a expectativa era chegar a 2,9 em 2011 e 4,1 em 2019 –, o resultado foi uma grande decepção para a comunidade. “Foi uma tristeza e é uma incógnita”, pondera Thaís Pinheiro, supervisora pedagógica das escolas de anos iniciais do ensino fundamental. Nos próximos dias, reuniões serão realizadas com os professores para discutir os resultados.

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Para o secretário municipal de Boa Vista do Tupim, Vespasiano Pimentel de Sá, problemas na aplicação da Prova Brasil, que avalia o desempenho das crianças em português e matemática, explicam a queda da média. O Ideb é calculado a partir das notas nessas provas e os índices de aprovação dos estudantes, que se manteve estável (acima de 90%). As médias em português, no entanto, caíram de 210,82 para 162,32. E em matemática, de 240,78 para 176,83.

Pressão para os alunos

Robson Mendes
Boa Vista do Tupim foi considerado exemplo positivo de educação de qualidade em 2009

Segundo o secretário, a aplicação dos exames no município, em novembro de 2011, não foi feita de acordo com as regras determinadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O órgão responsável pelos cálculos contrata empresas para aplicar as provas, com o apoio das secretarias estaduais de educação. Segundo a secretaria, todo o processo deve ser acompanhado por professores ou gestores das escolas, mas sem interferências.

Vespasiano de Sá conta que os aplicadores contratados para o município se trancaram nas salas de aulas com os estudantes e não deixaram que professores ou coordenadores das escolas acompanhassem o processo. O clima de tensão teria provocado pressão nos alunos, que passaram a marcar respostas erradas nos cartões ou deixá-las em branco. Além disso, ele diz que os aplicadores não tinham “afinidade com a docência”. O Inep foi procurado pela reportagem para explicar as regras de aplicação, mas até o momento da publicação desta matéria não respondeu ao iG .

“Essas pessoas não conseguiam dar orientações mínimas para os alunos. Tentei interromper a aplicação nas outras escolas imediatamente. Mas me garantiram que isso não se repetiria no resto dos colégios”, diz. Ao contrário disso, o secretário disse que a prática foi a mesma nos outros. “Diante disso, eu encaminhei um ofício para a Secretaria de Educação do estado relatando esses fatos, mas não tive resposta satisfatória”, afirma.

De acordo com o secretário, os órgãos responsáveis pela aplicação da prova teriam respondido que “por causa de uma denúncia anônima, precisavam agir de forma diferente” nas escolas de Boa Vista do Tupim. “Não nos deram nenhum detalhe sobre essa tal denúncia. Para nós, há motivos políticos nessa decisão”, diz. Ele acredita que os resultados negativos serão usados pela oposição durante a campanha eleitoral para prefeito.

Em julho deste ano, quando saíram os resultados da Prova Brasil, o gestor e os coordenadores apresentaram recursos contra as notas ao MEC, mas eles foram indeferidos. “Sabemos que o problema não é um erro no cálculo da média. Ocorreu na aplicação e gostaríamos que ela fosse reaplicada”, afirma. O último pedido ainda não foi respondido pelo MEC, mas a Secretaria Estadual de Educação da Bahia não vê possibilidades de as provas serem aplicadas novamente.

Fátima Medeiros, coordenadora do setor de avaliação da Secretaria Estadual de Educação da Bahia, conta que a reclamação do município não foi única. Várias secretarias municipais procuraram o setor de avaliação pedindo ajuda. “Os secretários municipais têm de acompanhar o processo de aplicação e relatar os problemas na hora. Passamos as reclamações ao Inep, mas agora não temos o que fazer”, comenta.

A coordenadora acredita que os gestores de Boa Vista do Tupim têm de apurar os fatos, saber se os alunos realmente se sentiram pressionados ou se não estavam com vontade de fazer as provas e conversar sobre os resultados com a comunidade. “É preciso lembrar também que há muitos gestores que querem controlar a aplicação, o que não é correto. Por isso, há corretores que ficam com medo e até impedem professores de entrar nas salas”, diz Fátima.

Robson Mendes
Mikaelly dos Santos, Ronielle da Silva e Iara Lima se divertem durante aula em 2010 em Boa Vista do Tupim

Autoestima abalada

Independente dos problemas ocorridos no dia da Prova Brasil, os coordenadores da cidade já esperavam uma queda no rendimento dos estudantes. Algumas das escolas que se destacaram na última avaliação não participaram da avaliação em 2011. A explicação é que elas estavam com turmas muito pequenas (o Inep exige que elas tenham pelo menos 10 alunos para fazer o teste) ou sem turmas de 5º ano do ensino fundamental no ano passado. Além disso, havia estudantes com dificuldades de aprendizagem.

“Havia turmas com alunos muito defasados, com dificuldades. Demoramos mais a começar nossas aulas de reforço no ano passado, porque ficamos sem recursos. A gente esperava certa queda, mas não esse tanto”, comenta Elielma Silva Santos de Oliveira, coordenadora pedagógica do município. “Sei que é difícil manter uma nota boa e que há oscilações, mas trabalhamos muito a proficiência dos alunos, com os professores. Dá abatimento e desânimo essa nota”, admite.

Com a autoestima abalada, Dermival Almeida Santos, outro coordenador pedagógico, acredita que é preciso manter o pique e as ações planejadas para mudar o próximo Ideb. “Vamos ter de avaliar, verificar as dificuldades que tivemos e melhorar para o próximo”, define.

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