Enem é insuficiente para mudar currículos do ensino médio, dizem especialistas

Professores e educadores acreditam que exame utilizado para ingresso em universidades federais não influenciará ou resolverá dificuldades da etapa

Priscilla Borges - iG Brasília |

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não terá o impacto que o governo federal espera nos currículos da etapa final da educação básica. Essa é opinião de diferentes professores e educadores ouvidos pelo iG . Os estudiosos do tema reconhecem a importância da prova para provocar mudanças no acesso ao ensino superior, mas acreditam que isso ainda não é suficiente para resolver dilemas antigos nas escolas.

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Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostraram, mais uma vez, que a qualidade educacional das escolas de ensino médio no País estagnou em um patamar nada confortável. Em 2011, o Brasil alcançou a modesta meta global de 3,7 (em 2005, a nota era 3,5). Onze Estados, no entanto, não atingiram as notas propostas pelo Ministério da Educação para o ano passado.

“Não são nenhuma surpresa (os resultados). As políticas para esta etapa educacional são muito mais complexas, pois não se trata apenas de condições de funcionamento e aspectos conjunturais. Há questões estruturais e de concepção da finalidade dessa etapa que ainda estão indefinidas”, opina professor do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-RJ), Carlos Artexes.

Consulte as notas do Ideb 2011 das escolas públicas brasileiras

Para Artexes, a força de indução do Enem para promover boas mudanças curriculares no ensino médio é “uma ilusão”. “Há uma inversão de relação entre o exame de resultado final e o desenvolvimento do processo educativo. O Enem pode contribuir para o diagnóstico da aprendizagem ocorrida e apontar matrizes de referência para orientar parcialmente o currículo do ensino médio”, afirma.

Júlio Gregório, que foi diretor de escolas de ensino médio públicas e privadas no Distrito Federal e hoje atua como consultor na área de educação, admite que é o vestibular quem dita os currículos das redes nessa etapa. “O Enem tem a vantagem de não ter um programa tão especifico como o vestibular e pode contribuir nesse sentido, mas o que vai garantir mudanças nos currículos é reformulação dos processos seletivos”, afirma.

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Gregório lamenta o engessamento das propostas pedagógicas por conta disso. Ele defende mais liberdade pedagógica nos colégios públicos e privados, mas ressalta que a legislação educacional limita e muito a possibilidade de se elaborar currículos “arejados” com a quantidade de disciplinas exigidas e a jornada escolar diária.

“Temos de caminhar para escolas de tempo integral, criar condições para os alunos experimentarem nas escolas, com laboratórios e tecnologias. O nosso modelo atual se esgotou. A escola sacrifica elementos importantes de formação em prol das necessidades que aluno terá para participar do vestibular com sucesso”, critica.

Avaliação

O secretário de Educação Básica do Ministério da Educação, César Callegari, conta que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) está preparando estudos sobre a possibilidade de tornar o Enem a avaliação de referência do ensino médio. Com a crescente utilização das notas do exame para seleção de candidatos em instituições públicas – no primeiro semestre deste ano, 95 instituições distribuíram 108 mil vagas pelo Enem –, o ministério acredita que a medida tornaria a avaliação da etapa mais fiel.

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Hoje, o Ideb para o ensino médio é calculado em cima de uma amostra dos estudantes. Há apenas 70 mil participando da Prova Brasil, um dos pilares do índice. O Enem, este ano, tem mais de 5 milhões de inscritos. Para Klinger Barbosa Alves, vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), o Enem pode cumprir o papel de avaliar melhor o ensino médio e as orientações da prova podem ajudar na concretização das novas diretrizes.

O Ministério da Educação vai enviar ao Conselho Nacional de Educação (CNE) propostas de ações para colocar as novas diretrizes curriculares do ensino médio, aprovadas em janeiro deste ano, em prática. As diretrizes definem rumos e flexibilizam os currículos dessa etapa. A resolução aprovada em janeiro determina que o MEC defina quais são as “expectativas de aprendizagem no ensino médio”. Segundo Callegari, o Enem servirá para auxiliar na proposta.

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As provas do Enem são divididas em quatro áreas: matemática, linguagens, ciências exatas e ciências humanas. O MEC quer estimular a integração de conhecimentos, que tornaria os currículos mais interessantes aos alunos. “O ensino médio precisa de financiamento adequado, formação de professores em multidocência, diálogo com as culturas juvenis, infraestrutura adequada de escolas e gestão estadual com maior amplitude territorial. São dimensões complexas e com difícil solução em curto prazo”, afirma Artexes.

Cotas

O projeto de cotas para alunos de escolas públicas nas universidades federais também é visto como um importante passo para mudar o ensino médio. “O Enem não será tão decisivo para mudar ensino médio quanto a aprovação do projeto das cotas”, afirma Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. A lógica é mudar os processos seletivos e a influência deles nos currículos.

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 Gregório acredita que a medida será muito boa para esses estudantes da rede pública, mas defende que, justamente por isso, a melhoria da qualidade de ensino seja preocupação urgente. “Eles chegarão como a esses cursos?”, questiona.

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