Dois primeiros colocados eram orientandos e da equipe cirúrgica do presidente da comissão organizadora; um não tem doutorado, exigido para o cargo, e outra, nem mestrado

Presidente da comissão organizadora, Marco Aurélio Pinho de Oliveira é orientador dos dois selecionados, agora eliminados
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Presidente da comissão organizadora, Marco Aurélio Pinho de Oliveira é orientador dos dois selecionados, agora eliminados

Os dois primeiros colocados do concurso suspeito da Uerj para professor-adjunto de Ginecologia da Faculdade de Medicina, Thiago Rodrigues Dantas Pereira e Alessandra Viviane Evangelista Demôro, foram desclassificados, após a publicação da matéria do iG sobre o caso. O Ministério Público investiga se houve favorecimento.

Os dois são orientandos, assistentes em cirurgias nas esferas pública e privada do presidente do concurso e chefe do Departamento de Ginecologia da Faculdade de Medicina, Marco Aurélio Pinho de Oliveira, a quem também se reportam como professores substitutos da Uerj. 

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Consultado, o diretor de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Capital de Nível Superior (Capes), Lívio Amaral, disse que vê um potencial conflito de interesse.

O iG revelou que nem Thiago nem Alessandra tem o doutorado concluído, exigência do edital para assumir o cargo de professor-adjunto – Alessandra sequer tem mestrado completo. Dos sete candidatos, só três tinham doutorado, mas nenhum foi classificado no concurso, de dezembro de 2011.

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Thiago Dantas foi o primeiro colocado no concurso, mas não pôde assumir, porque não tinha doutorado
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Thiago Dantas foi o primeiro colocado no concurso, mas não pôde assumir, porque não tinha doutorado

Em representação ao MP, o quarto colocado, Raphael Câmara Parente (doutor em Medicina pela Unifesp e professor universitário) apontou que o edital, a bibliografia e as provas escrita e prática foram claramente voltadas para a área de atuação dos dois primeiros classificados, a videolaparoscopia, sub-área da ginecologia.

Outra suposta irregularidade teria sido o convite de Marco Aurélio ao próprio pai, o professor aposentado da Uerj Hildoberto Carneiro de Oliveira, para presidir a banca. Para a Capes, esse seria outro possível conflito de interesse no concurso.

Apesar de ser uma prova acadêmica, não havia pontuação na prova de títulos para os graus de doutorado e mestrado. Outros pontos do edital que chamaram a atenção foram a validade do concurso, prorrogável por quatro anos, e a possibilidade de um dos selecionados abrir mão da vaga temporariamente. Nesse caso, Thiago e Alessandra poderiam usar esse prazo para concluir o doutorado e assumir a vaga, posteriormente.

Primeiros colocados não apresentaram doutorado e foram eliminados

Alessandra Evangelista foi a segunda colocada no concurso, embora não tivesse nem mestrado
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Alessandra Evangelista foi a segunda colocada no concurso, embora não tivesse nem mestrado

Thiago e Alessandra chegaram a ser chamados pela Uerj para assumir as duas únicas vagas abertas pelo certame, mas não apresentaram o título de doutorado e foram, assim, desclassificados.

De acordo com a Uerj, “o concurso já foi homologado e as duas pessoas que não possuíam os requisitos necessários não foram classificadas, sendo nomeados os classificados nas colocações subsequentes”.

Com as desclassificações, a Uerj convocou, em maio, para assumir o cargo os dois mais bem classificados em seguida no concurso, Leila Cristina Soares (médica concursada do Hospital Pedro Ernesto, da Uerj) e Raphael Câmara Parente. Os dois têm o título de doutorado, exigido para a função.

A universidade abriu sindicância , mas informou que “não foi constatada irregularidade porque o concurso não havia sido concluído” e que o professor Marco Aurélio Pinho de Oliveira continua como o chefe da Ginecologia.

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MP investiga o caso

O Ministério Público do Estado investiga o caso e apura se houve favorecimento. Segundo o órgão, um procedimento preparatório de investigação para apurar se houve irregularidades no concurso foi instaurado em fevereiro, após a reportagem do iG .

A Uerj foi oficiada pelo promotor da 8ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa da Cidadania da Capital para dar explicações sobre o concurso.

Polêmica teve abandono e quase acaba em briga entre candidatos e banca

Marco Aurélio (E) e Thiago (de costas) operam juntos, no Hospital de Bonsucesso
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Marco Aurélio (E) e Thiago (de costas) operam juntos, no Hospital de Bonsucesso

O certame transcorreu em clima de muita tensão e sob acusações de favorecimento aos dois primeiros colocados. Houve ásperas discussões de Raphael Câmara e Robério Damião com a banca examinadora, que quase resultaram em confronto físico, no dia da prova prática. Indignado, Robério abandonou a disputa e estuda mover processo por danos morais e materiais.

Também inconformado com o resultado final durante a seleção, Raphael Câmara fez representação ao Ministério Público pedindo a apuração das supostas irregularidades e enumerou fatos que lhe causaram estranheza e indicariam suposto favorecimento a Thiago e a Alessandra pelo chefe do Departamento de Ginecologia da Uerj e presidente da comissão organizadora do certame.

Presidente do concurso nega irregularidade

Procurado pelo iG , Thiago Dantas afirmou que não gostaria de comentar a desclassificação do concurso. "O que tinha para ser falado já foi dito. A comunidade (acadêmica) já foi avisada, e todo mundo está sabendo da verdade", disse.

A reportagem ligou três vezes para o presidente da comissão organizadora do concurso, Marco Aurélio Pinho de Oliveira, às 16h desta quinta-feira, mas não conseguiu contato. O telefone deu sinal de espera e depois caiu, impossibilitando que se deixasse mensagem.  

Em janeiro, Marco Aurélio afirmou que não teve “nenhuma interferência” no certame, que “a participação da banca foi totalmente idônea” e “o concurso transcorreu sem problemas”. De acordo com ele, não cabe falar de favorecimento. “Todos os candidatos participantes foram alunos meus, participaram de trabalhos comigo e atuaram na Uerj.”

O iG não conseguiu contato com Alessandra Evangelista, segunda colocada, também eliminada.

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