Jovens formados não conseguem empregos no mundo árabe

25% da população com menos de 25 anos na região não ingressam no mercado de trabalho. Educadores procuram ideias em universidades da América do Sul

Marina Morena Costa - iG São Paulo | - Atualizada às

Pesquisadores e educadores do Oriente Médio e do norte da África visitaram nas últimas semanas instituições de ensino superior do Brasil, Chile e Colômbia para conhecer modelos de educação que os ajudem a resolver um grave problema: como colocar seus estudantes formados no mercado de trabalho e combater a taxa de 25% de desemprego entre jovens com menos de 25 anos, uma das mais altas do mundo.

Segundo uma pesquisa do International Finance Corporation (IFC) realizada em nove países ­– Argélia, Egito, Iraque, Jordânia, Marrocos, Omã, Arábia Saudita, Iêmen e Palestina ­– com 1.500 empregadores e 1.500 jovens, os recém-formados não conseguem emprego porque não aprenderam na faculdade as competências e habilidades que o mercado de trabalho exige.

Leia também: No Japão, estudantes com formação no exterior não têm diferencial

No levantamento do IFC, braço do Banco Mundial que investe em projetos do setor privado de áreas como educação e saúde em países em desenvolvimento, 60% dos empregadores precisam treinar os jovens empregados, pois 30% dos contratados não têm o conhecimento adequado para a função que desempenham. E os próprios jovens reconhecem essa falha na formação: dois terços dos entrevistados, formados em cursos superiores ou técnicos, sentem que não têm as habilidades necessárias no mercado de trabalho.

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Dahlia Khalifam durante visita à Estácio de Sá

“Percebemos que há um abismo entre as habilidades ensinadas na faculdade e o que o mercado necessita. E um problema econômico, pois o desemprego dos jovens causa perdas entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões ao ano, mais do que o PIB de países como Tunísia e Líbano”, aponta Dahlia Khalifa, líder de um projeto do IFC que pretende aproximar as instituições de ensino do mercado de trabalho e aumentar a empregabilidade dos estudantes árabes, o e4e (Education for Employment, ou “Educação para o Emprego”, em tradução literal).

Lançada em janeiro deste ano, a iniciativa pretende atuar no problema que se tornará uma bomba relógio para o mundo árabe, já que um terço da população tem menos de 15 anos e outro terço está com idades entre 15 e 29 anos, segundo dados do IFC. Outro gargalo é a questão feminina. Apesar de a porcentagem de mulheres no ensino superior ser alta e em alguns países passar de 50%, o desemprego entre as jovens do mundo árabe ultrapassa 30%.

Modelos latino-americanos

Junto com uma delegação de mais 11 pesquisadores e educadores, Dahlia visitou instituições latino-americanas focadas na formação para o mercado de trabalho e de estudantes de baixa renda, em sua maioria jovens trabalhadores, como a chilena Duoc e a colombiana Uniminuto, de educação a distância. No Brasil, o grupo conheceu o modelo da Estácio de Sá, a convite da reitora Paula Caleffi, que participa de encontros promovidos pelo IFC.

A delegação conheceu na última segunda-feira (4) o câmpus Tom Jobim, uma das mais de 70 unidades da instituição, que está entre as maiores do Brasil em número de alunos (278 mil estudantes). Entre os destaques da universidade brasileira, a delegação apontou o currículo voltado para o mercado de trabalho e atualizado anualmente, os professores colaboradores de empresas, conselhos, federações, associações e institutos, o portal de vagas de estágio e emprego, que no último ano ofereceu cerca de 185 mil oportunidades, e as aulas a distância, que desde o começo do ano são oferecidas também em tablets para alunos dos cursos de Direito (RJ e ES), Gastronomia (RJ e SP) e Hotelaria (RJ e SP). Em agosto, receberão tablets os alunos que ingressarem nos cursos de Direito e de todas as Engenharias.

A reitora da Estácio defende que a principal função social da instituição é a preparação para o mercado de trabalho, com foco em uma carreira sustentável, não imediatista. “O desemprego de jovens graduados no mundo árabe é um fato muito relevante. Nos indica o quanto a academia pode se distanciar do mercado de trabalho e o quanto a gente não deve seguir por aí”, destaca Paula.

Svava Bjarnason, membro do Conselho de Educação do Banco Mundial com experiência em projetos educacionais em diversos países e a maior especialista do IFC, avalia que a principal lição aprendida foi a importância de um currículo nacional da instituição, que garanta o mínimo de qualidade e um controle sobre o que e como está sendo ensinado. “Isso será útil no Oriente Médio.”

Para Dahlia, líder da 4e4, a viagem pela América do Sul mostrou que é importante ter uma relação bastante próxima entre as instituições de educação e o setor gerador empregos, para ter certeza de que o que os estudantes estão aprendendo é relevante para mercado de trabalho. “O papel de uma instituição de ensino não é somente ensinar, mas fazer esse ensinamento ser relevante e conectado ao mundo do trabalho.”

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Dahlia Khalifa, à esquerda, com os membros da delegação de especialistas em educação: a procura de soluções para melhorar a formação profissional dos jovens árabes


* A repórter viajou a convite da Estácio de Sá

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