No Japão, estudantes com formação no exterior não têm diferencial

Empresas japonesas não valorizam funcionário global. Estudantes estão deixando de procurar formação ocidental

The New York Times |

Ronan Sato, um estudante graduado em Estatística Aplicada na Universidade de Oxford, na Inglaterra, sempre quis trabalhar em seu país de origem, o Japão. Mas em uma feira de trabalho para estudantes japoneses, ele descobriu que muitas das grandes empresas de seu país não compartilham do mesmo entusiasmo.

Em reuniões com algumas empresas japonesas de comércio financeiro em um fórum realizado em Boston no mês de novembro de 2011, nenhuma delas se mostrou disposta a lhe oferecer um emprego sem que ele passasse por uma série de entrevistas em Tóquio.

Assim, Sato, que recebeu três ofertas de contratação imediata de corporações não-japonesas, aceitou um cargo em Tóquio para trabalhar para um grande banco britânico.

"Eu realmente queria adquirir experiência em uma empresa japonesa, mas elas pareciam cautelosas", disse Sato. "Será que as empresas japonesas realmente querem talentos globais? Eu acho que não." 

Em pesquisa com 1.000 empresas japonesas, menos de um quarto disse que planeja contratar candidatos japoneses que estudaram no exterior

Desencorajados por suas perspectivas de carreira caso optem por estudar no exterior, mesmo em universidades de elite, cada vez menos estudantes universitários japoneses estão buscando uma educação ocidental. Ao mesmo tempo, seus rivais regionais como a China, a Coreia do Sul e a Índia estão enviando um número crescente de seus estudantes para fora - muitos dos quais, após terem se graduado, são contratados por empresas de seu país de origem devido a suas respectivas habilidades, contatos e perspectivas globais. 

Além disso, muitos dos estudantes japoneses que estudam no exterior muitas vezes percebem que quando eles regressam ao mercado de seu país de origem, muitas vezes estão em desvantagem em relação a seus compatriotas que estudaram em universidades japonesas que já contataram até 100 empresas e receberam ajuda de extensas redes de alumni. E muitos até mesmo se sentem excluídos devido a rígida regra de muitas das empresas de contratarem novos empregados até uma certa faixa etária.

NYT
Ronan Sato na Universidade de Oxford (Inglaterra), onde se formou em Estatística Aplicada. Ele quer trabalhar no Japão, mas nenhuma empresa se interessou por seu perfil

Em uma pesquisa com 1.000 empresas japonesas realizada em junho do ano passado pela empresa de recrutamento Disco, de Tóquio, menos de um quarto disse que planeja contratar candidatos japoneses que estudaram no exterior. Mesmo entre as maiores empresas, com mais de mil empregados, menos de 40% disseram que queriam contratar funcionários japoneses que tiveram educação no exterior. Essa atitude pode ajudar a explicar o porquê mesmo com o número de japoneses matriculados na faculdade estável em cerca de 3 milhões nos últimos anos, o número de estudantes japoneses no exterior caiu de um pico de quase 83.000 em 2004 para menos de 60.000 em 2009 – o ano mais recente para o qual há dados disponíveis concedidos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Ryutaro Sakamoto, que se formou pela Universidade de Toronto e retornou ao Japão com 30 anos de idade com um diploma em Administração, descobriu que era velho demais para se inscrever para vagas de emprego através de programas de recrutamento. Ele enviou currículos para empresas como a Panasonic e a Sony, mas nunca sequer recebeu algum tipo de comunicado. Eventualmente, a unidade japonesa da companhia americana de seguros Prudential ficou feliz em colocar suas habilidades bilíngues em prática.

"No Japão, se dedicar a estudar no exterior significa estar em desvantagem em relação à disputa pelo shukatsu", disse Sakamoto. "Shukatsu" refere-se ao sistema através do qual as empresas japonesas normalmente contratam a maior parte de seus trabalhadores saindo direto das faculdades e esperam que fiquem até se aposentarem. Não conseguir um emprego após a formatura da faculdade é visto como um possível fracasso para o futuro da carreira escolhida.

Algumas empresas japonesas fizeram questão de contratar os recém-formados destas universidades estrangeiras. A U-Shin, uma fabricante de peças de automóveis, chamou a atenção em fevereiro, quando colocou um anúncio proeminente no maior jornal de negócios do Japão oferecendo o dobro do salário padrão a candidatos com diplomas obtidos no exterior.

"Pretendemos expandir agressivamente no exterior e por isso precisamos de funcionários que ousaram o suficiente ao estudar no exterior", disse Koji Tanabe, presidente-executivo da U-Shin.

Mas a U-Shin parece ser uma rara exceção. Keiichi Hotta, um recrutador do Banco de Tokyo-Mitsubishi disse que a empresa raramente contrata japoneses formados no exterior ou até mesmo estrangeiros. Ele disse que o mercado japonês foi construído de uma maneira diferente do que no Ocidente. “Somos cautelosos porque enfatizamos a continuidade e o compromisso a longo prazo com a empresa", disse Hotta. "Especialmente na área financeira, nós não queremos que as pessoas estejam interessadas apenas em ganhos a curto prazo."

Não é a toa que alguns repatriados minimizam sua exposição aos costumes ocidentais. Norihiro Yonezawa, que estudou durante um ano na Universidade de Maryland, disse que não enfatizou sua experiência no exterior ou seus conhecimentos de inglês, quando foi entrevistado – e conseguiu o emprego - na Panasonic.

"Eu não queria parecer como se eu estivesse me gabando desta minha oportunidade. Então eu ressaltei o tempo todo como eu tive que trabalhar duro e superar este obstáculo", disse ele. "E tive que enfatizar o fato de que eu com certeza ainda estava apto para me adaptar ao mercado japonês.”

(Por Hiroko Tabuchi)

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