“Meus filhos só estudaram três meses em 2011”, diz mãe

Maria de Fátima, que vive na região da Serra da Mesa em Goiás, relata a dificuldade dos alunos do local para chegar à escola

Priscilla Borges, iG Brasília |

Maria de Fátima Ribeiro dos Santos, 43 anos, é uma das dezenas de mães indignadas que vivem na área rural da Serra da Mesa. Ela sofre aos ver o esforço dos dois filhos para estudar e a pouca compaixão do poder público com os quase 40 estudantes que moram nas chácaras e fazendas vizinhas à que ela cuida junto com o marido.

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Situada a noroeste do estado de Goiás, a região é conhecida por causa do lago artificial formado pela usina hidrelétrica de mesmo nome e da pesca esportiva praticada no local. Apesar da quantidade de fazendas e pessoas que moram por lá, o município de Niquelândia, responsável pela matrícula escolar das crianças e adolescentes, não oferece escola rural.

Com isso, os alunos precisam enfrentar uma saga para chegar à escola. Entre ida e volta são 200 km diários . Cerca de seis horas perdidas com o trajeto, tempo 50% maior do que as quatro horas diárias de aulas. Às 4h da manhã, eles têm de estar no ponto do ônibus escolar ou ficam para trás. Algumas crianças andam quilômetros para isso.

Alan Sampaio
Rozangela ressalta afirmação da vizinha Maria de Fátima: em 2011, os filhos não estudaram "três meses completos"

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O ônibus quebra constantemente. Por isso, as faltas dos alunos ao longo do ano são numerosas. “Contando todos os dias que eles foram para a escola, só deram uns três meses. De uma vez, foi um mês sem ter transporte”, conta Maria de Fátima. A afirmação é confirmada por Rozangela Alves da Silva, 36 anos. “Não completaram três meses”, garante.

Para Rozangela, o pior é perceber que os filhos não estão aprendendo direito. “E são aprovados assim mesmo”, reclama. “Eles não fazem nada para compensar as dificuldades dos meninos”, lamenta. A distância, novamente, é usada como empecilho pelos gestores. Eles argumentam que não podem criar turmas de reforço no horário contrário ao das aulas. Porque falta transporte para levá-los.

O diretor da escola onde Érica Souza dos Santos (filha de Maria de Fátima), 17 anos, está matriculada, Volnei Custódio, considera a situação crítica. Segundo ele, a Escola Estadual Paulo Francisco da Silva não pode fazer muito pelos alunos, já que não é responsável pelo transporte. Ele admite que os estudantes não aprendem por causa do cansaço e não vê perspectivas de melhorias no futuro.

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“Esses alunos não têm aprendizagem. Os ônibus mais ficam quebrados do que rodando. Ainda temos um problema de que os calendários das escolas municipais e estaduais não batem. Quando não há aula para os alunos do municípios, os do Estado não são buscados. Temos de superar um problema geográfico”, afirma Custódio.

Soluções?

Nas escolas, os diretores dizem que não podem fazer nada para mudar as faltas dos alunos. Os estudantes, por sua vez, lembram que não podem ir para a escola sem o ônibus. O motorista do transporte escolar reclama da falta de pagamento da prefeitura – que terceiriza o serviço – para pagar combustível e reparos nos veículos. Os gestores municipais também alegam receber atrasado do governo federal.

Pais, alunos e professores acreditam que abrir mais escolas rurais na região solucionariam o problema. A secretária municipal de Educação de Niquelândia, Belcholina Elias da Silva, critica o fechamento dos colégios rurais que havia na área rural da cidade. Em entrevista ao iG, ela garantiu que as unidades serão reabertas na área rural.

“O fechamento dessas escolas prejudicou também aspectos sociais da vida desses jovens. Queremos reabrir três núcleos e captar melhor os estudantes que habitam essas regiões para os outros 10 núcleos que temos espalhados no município. O objetivo é, pelo menos, fazê-los andarem distâncias menores”, afirma.

Belcholina conta também que pretende acabar com a terceirização do transporte. De acordo com a secretária, 10 ônibus escolares do projeto Caminho da Escola, do Ministério da Educação, estão sendo comprados. Os veículos novos atendem a requisitos mínimos de segurança e podem ser comprados mais baratos em licitação promovida pelo governo federal.

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A coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita, Regina Scarpa, especialista em educação no campo, defende equidade de condições de ensino para crianças e adolescentes que vivem na área rural ou nas cidades. “Eles precisam ter acesso a livros, computador, jornal. Cada caso é um caso. Não dá pra ter solução única”, pondera. Para ela, a situação dos meninos da área rural de Niquelândia é um “absurdo”.

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