SAFRAS (05) - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso abriu nesta terça-feira o segundo e último dia do São Paulo Ethanol Summit 2007, realizado no WTC Hotel, em São Paulo, evocando o positivismo para soluções dos problemas envolvendo o aquecimento global. Ele aproveitou para anunciar um encontro entre lideranças mundiais que será realizado em setembro próximo, em Xangai, China, para discutir as mudanças climáticas.
Cardoso disse que o mundo está no limiar da necessidade de reconstruir a base do êxito da civilização ocidental, construída sob a Revolução Industrial e, mais recentemente, sob a revolução do pensamento. E reconheceu que a idéia de desenvolvimento sofreu mudanças profundas. "Hoje temos a responsabilidade de propor o desenvolvimento tomando em consideração as questões ambientais, afirmou. A visão do ex-presidente é compartilhada pelo investidor George Soros, da Open Society Institute e da Soros Foundations Network, que elogiou o posicionamento do Brasil dentro dessa nova visão do desenvolvimento global. Para ele, a indústria baseada no petróleo deu espaço para muitos problemas políticos de fundo social vividos em países produtores de petróleo e agora chegou a vez de democratizar a utilização de novas fontes de energia limpas como o etanol. Segundo Soros, a escassez prevista das reservas mundiais de petróleo tem modificado a geopolítica global. Ele citou o exemplo da Rússia, que tenta reaver seu poder de influência por meio da exportação de gás. E do Irã, que tem emergido como uma importante e não muito pacífica influência no Oriente Médio.
Para ele, tudo isso está ligado aos fatores que levaram às questões do aquecimento global. Eu não estou só ao reconhecer que estamos enfrentando uma situação que, se não for seriamente vista, poderá destruir a civilização, disse. Na sua opinião, a luta dos países para atingir a independência enérgica jogou o homem em uma corrida onde as preocupações ambientais não foram consideradas. Algo deve ser feito para repor o uso de produtos fósseis na geração de energia elétrica, alertou Soros. Apesar de reconhecer que ainda tem muito a aprender do caso brasileiro com o etanol, Soros assegurou que o fato do álcool da cana-de-açucar estar em uma melhor situação evolucionária em relação aos demais biocombustíveis dá ao Brasil uma vantagem em relação aos demais países. Mesmo assim, ele alertou que ainda há varias questões a serem resolvidas para investir no etanol, uma delas é a abertura do produto para o mercado mundial. Ainda sob a mesma temática, Melinda L. Kimble, presidente da United Nations Foundation, registrou a grande revolução feita pelo Brasil no setor energético.
Salientou a importância de outras nações prestarem atenção ao modelo público-privado implantado no País em relação à produção de cana-de-açúcar e, conseqüentemente, na fabricação combustível renovável. Responsável pelas áreas de saúde, população, meio ambiente, direitos humanos e paz da United Nations Foundation, Kimble discorreu sobre os projetos que a fundação está fazendo para resolver alguns problemas globais. Dentre os desafios para desenvolver os projetos, ela ressaltou a produção de energia limpa e a criação de oportunidade para discutir com outros países as ações para retardar o aquecimento global. Para a palestrante, todos os setores devem estar envolvidos, inclusive o privado. Citando a importância da cana-de-açúcar para o Brasil, Kimble acredita que uma solução possível desses desafios é abrir o mercado para novos modelos de energia. Além disso, crê que o uso dessas fontes deve ser mais responsável para não haver desperdícios.
Kimble considera outro grande desafio a manutenção da média da temperatura na Terra e a estabilidade das emissões de gases poluentes em curtos prazos.
Penso em 5 anos, explicou. A presidente da United Nations Foundation ainda abordou a importância dos biocombustíveis para países que não têm fontes de energia. E encerrou dizendo que o País será um dos líderes para as alterações que acontecerão no século 21. O Brasil já começou essa mudança.
Martina Otto, chefe da Unidade de Políticas para Transporte e Energia do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma/Unep) a organização funciona como um ministério do meio-ambiente das Nações Unidas. As prioridades do órgão, segundo ela, são desenvolver instrumentos políticos para apoiar os países, fomentar a transferência de tecnologia e dar um suporte especial à África. O escritório central da Unep fica no Quênia, em Nairobi. "Há um consenso científico de que o clima mudou e o custo de não agir é mais alto do que o custo de reduzir as emissões de gás carbônico, afirmou Otto.
Para contornar o problema ela diz que há uma série de medidas que precisam ser tomadas. É necessário pensarmos como vamos arranjar novas fontes de energia porque a estimativa prevê que a demanda por petróleo, gás e carvão serão responsáveis por 83% da energia gerada no mundo em 2030, disse.
Até lá, serão investidos cerca de 30 trilhões de dólares nos sistemas energéticos ao redor do mundo. Além disso, lembrou Otto, também é preciso criar um ambiente favorável à mudança climática que inclui medidas como garantir à indústria a segurança para os seus investimentos por meio de subsídios, padrões e do estabelecimento do preço do carbono. "É também fundamental criar um mercado e um diálogo global por meio, por exemplo, da reunião do G8 que acontece nos próximos dias na Alemanha e o comprometimento da União Européia, disse Otto, que afirmou não haver muito o que aprender com a experiência brasileira. De acordo com ela, em 2005 foram investidos cerca de 2,6 bilhões de dólares em bioenergia ao redor do mundo. "O tema está na agenda tanto de países desenvolvidos como dos países em desenvolvimento", afirmou Otto, estimando que em 2050 será possível substituir 50% da energia mineral por bioenergia. Entretanto, algumas questões ainda devem ser equacionadas. "Precisamos lidar com a biodiversidade, a segurança alimentar, a poluição do ar e a mudança do clima, que têm impacto direto na agricultura, alertou Otto. De acordo com ela, o mais importante é ter um planejamento para administrar os impactos a longo-prazo. É necessário um planejamento que maximize as oportunidades e minimize os riscos. Esse planejamento é uma pré-condição para a sustentabilidade da produção bioenergética, completou. As informações partem da assessoria de imprensa do evento e da Unica (União da Induústria da Cana-de-Açúcar). (FR)