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Entrevista: ‘Câmbio só muda com política fiscal’

06/11 - 12:33 - Agência Estado

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O estrategista do banco WestLB no Brasil, Roberto Padovani, é cético em relação às medidas para conter a valorização do câmbio. Ele acha que, para tanto, seriam necessárias mudanças na política fiscal.

É possível controlar o câmbio com medidas como as que o governo está tomando?

Os efeitos são muito limitados. No caso do IOF e das medidas administrativas de modo geral, o País perde, porque não evita a trajetória de valorização cambial, que é explicada por outros fatores. Mas aumenta o risco regulatório, a incerteza quanto às regras. Com as possíveis iniciativas do Banco Central, não prevejo mudança significativa no câmbio, mas é um avanço, que tornaria as regras no mercado cambial mais claras. De modo geral, a liberalização de fluxo de comércio e de capital implica em algum momento aumento de produtividade da economia. Nesse sentido, a agenda do BC é um pouco mais positiva do que a da Fazenda. Mas ambas não implicam mudança no cenário cambial de curto prazo.

O que poderia ser feito?

Sinto falta de um debate - e não vejo o governo propondo essa discussão - sobre o que gera competitividade na economia brasileira. Para mim, ela está ligada à carga tributária, à infraestrutura de modo geral e à incerteza regulatória. Mas a discussão que ouço por aí é bem diferente. O ministro (Guido) Mantega deu a entender que, se não fosse pelo câmbio, a competitividade brasileira seria a chinesa. É um debate no lugar errado, que está sendo colocado pelo gestor de política econômica. Pode-se dizer que o Banco Central tem visão diferente da do Ministério da Fazenda, mas ambos só discutem câmbio. É uma pena.

Mas haveria uma política pública que pudesse alterar o câmbio?

Se se quiser abordar a questão cambial, tem de atacar problemas muito mais profundos, como a política fiscal e a competitividade. A segunda permitiria que competíssemos melhor para um determinado nível de câmbio, e está ligada aqueles fatores que eu já mencionei.

Como a questão fiscal se liga ao câmbio?

Quanto mais se expande a atividade local, com impulso fiscal e monetário, e quanto menor o nível de poupança - há despoupança pública e baixa poupança privada no Brasil, - mais se precisa de poupança externa para financiar esse aumento de consumo doméstico. Precisa-se de capital externo, e assim uma política fiscal e monetária muito expansiva atrai capitais para o Brasil e aprecia o câmbio. A política fiscal, ao empurrar a economia - e dado os limites do nosso crescimento potencial -, força a política monetária a fazer o contraponto, levando a uma taxa de juros maior para compensar o estímulo fiscal. Essas taxas mais altas atraem mais capitais e reforçam a valorização.




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