O professor da Universidade de Brasília (UnB) José Luís Oreiro defende as medidas do governo para conter a valorização do real. Até agora, o IOF de 2% foi insuficiente para provocar uma valorização do dólar ante o real.
A alíquota é baixa ou são necessárias outras medidas complementares?
Essa medida é incompleta. Faltam outras coisas. Uma medida complementar importante seria o Banco Central baixar uma norma limitando a exposição cambial dos bancos brasileiros. Hoje, esses bancos estão atuando para puxar a cotação do dólar para baixo.
O Banco Central prepara mudanças na legislação cambial. Esse tipo de medida pode ajudar a conter a valorização do real?
Pelo que vi até agora, as medidas estudadas pelo Banco Central vão justamente na direção contrária do que o Ministério da Fazenda e economistas como eu pensamos. O que o BC pensa é aumentar o grau de abertura da conta de capitais brasileira. Por exemplo: permitir que estrangeiros tenham depósitos em dólar no Brasil. Isso é inócuo sobre a taxa de câmbio. Esse tipo de medida é apenas um passo no caminho da dolarização da economia brasileira, do abandono do real como moeda nacional.
Taxar com IOF renda variável foi um equívoco?
Não, foi correto. É preciso que os controles de capitais sejam abrangentes. Para evitar e reduzir os dribles da legislação, é preciso fazer um controle abrangente. Portanto, taxar a renda variável é uma atuação nesse sentido.
Isso não pode afugentar captações de empresas?
Dizer que um impostozinho de 2% vai ter impacto significativo sobre o investimento no Brasil é balela. Além disso, vários estudos empíricos têm demonstrado que a poupança externa tem impacto negativo sobre o crescimento de longo prazo.
O Brasil não está pagando o preço do próprio sucesso e, por isso, não é um contrassenso adotar esse tipo de medida?
O sucesso pode trazer as raízes de sua própria destruição. Temos de ter cuidado porque, geralmente, nas fases em que a economia vai bem, vão se introduzindo vírus que vão preparando uma crise. Era esse perigo que o Brasil corria com a valorização do câmbio. Se a gente ver a história de todos os países da América Latina dos anos 70 para cá, vemos um padrão similar: mudança favorável de expectativas, entrada brutal de capitais, valorização do câmbio, aumento artificial do salário real e bolha de consumo. Enfim, euforia. Até que chega o momento, quando o déficit em conta corrente está elevado, de nova mudança de expectativas, só que para o outro lado. Aí vem a parada súbita de financiamento externo e crise no balanço de pagamentos. Parafraseando o ex-ministro Antonio Palocci, o Brasil aprendeu, não vai cometer os mesmos erros do passado.
