BRASÍLIA - O governo brasileiro decidiu comprar 36 caças GIE Rafale, da empresa francesa Dassault, em um contrato de US$ 4 bilhões. Apesar da decisão política, anunciada ontem pelos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da França, Nicolas Sarkozy, e tomada apenas às 2 horas da manhã de segunda - dez horas antes da declaração conjunta - ainda faltam detalhes técnicos e econômicos para viabilizar integralmente a parceria.
De acordo Sarkozy, o ritual deverá repetir o mesmo caminho da venda dos submarinos franceses ao governo brasileiro. " Os chefes de Estado tomaram a decisão em dezembro do ano passado. A seguir, iniciaram as conversas técnicas que se materializaram apenas agora " , comparou o presidente francês.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, chanceler Celso Amorim, disse que estes detalhes técnicos significam, basicamente, uma negociação de preço. Ele explicou alguns fatores que pesaram para o acerto da parceria com os franceses: a transferência de tecnologia dos franceses para o Brasil e a possibilidade de venda conjunta dos aviões, em um momento posterior, para a América Latina. " Foi uma decisão político-tecnológica " , brincou Amorim.
Em contrapartida à intenção do governo brasileiro, o governo francês confirmou a compra de dez aeronaves de transporte militar KC-390, produzidos pela Embraer. Técnicos franceses vão trabalhar em parceria com os engenheiros brasileiros no desenvolvimento deste projeto. A conclusão do negócio, feita por representantes do Brasil e da França, ocorreu após jantar oficial dos dois presidentes no Palácio da Alvorada. Declaração conjunta divulgada ontem confirmou ainda a venda para o Brasil de 50 helicópteros de transporte EC-725, produzidos pela França.
Apesar da conclusão óbvia, o presidente Lula e o chanceler Celso Amorim foram cautelosos em relação ao fim da disputa pela compra das aeronaves, que envolvia ainda a Gripen da sueca Saab e o F-18 Super Hornet da americana Boeing. Lula disse que a nota conjunta divulgada pelos dois governos era clara e Amorim afirmou desconhecer os trâmites legais da concorrência.
Lula declarou que o Brasil zela pela paz, mas que isto não exclui a necessidade de se atualizar do ponto de vista da defesa. Citou que isto é fundamental para um país que tem 360 milhões de hectares de terras na Amazônia e descobriu as bacias de pré-sal localizadas em uma área de 149 mil quilômetros quadrados. " Nós sabemos quantas guerras surgiram por causa do petróleo. Não queremos guerras, nem conflitos. Mas precisamos tratar, com muito mais cuidado, de nossa segurança e soberania " , alertou o presidente brasileiro.
Lula destacou as recentes parcerias feitas com o governo francês, como os trabalhos em conjunto para o desenvolvimento dos países africanos, a simetria de pensamento em relação ao papel do G-20 na crise mundial e a necessidade de uma reformulação dos organismos multilaterais, especialmente ONU, FMI e Bird, após as recentes crises que abalaram o mundo. " Queremos pensar juntos, criar juntos, construir juntos e, se possível, vender juntos " , enumerou o presidente brasileiro.
Sarkozy ressaltou o potencial econômico do Brasil - a 8ª economia do mundo e o 5º país em tamanho territorial -, a importância de um discurso conjunto entre os dois países na Cúpula sobre o clima de Copenhagen (Dinamarca), marcada para dezembro e, em uma demonstração de afinidade, defendeu a inclusão do Brasil no Conselho de Segurança da ONU e disse que seu país apoiará a escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016. " Será uma grande oportunidade para o Brasil e para a América Latina. "
O presidente francês - que foi convidado de honra do governo brasileiro para o desfile cívico-militar que comemorou ontem o 7 de setembro - declarou ter muito orgulho de ser amigo de Lula e demonstrou todo a sua admiração pela preocupação manifestada pelo petista com a África. Mas reclamou que há uma promessa feita por Lula a ele e que não foi cumprida: " Lula me prometeu um churrasco brasileiro. Mas parece que houve um problema com a infraestrutura da churrasqueira da residência oficial e eu tive que me contentar com uma comida típica brasileira " , reclamou, bem humorado, o presidente francês, referindo-se ao jantar oferecido pelo governo brasileiro na noite de domingo, provocando risadas entre os presentes.
Lula desculpou-se, afirmando que colocaram carvão demais na churrasqueira e um dos vidros temperados que protegem o local espatifou, cobrindo a carne com cacos de vidro. " Não podia servir carne com cacos. Como a Marisa (Marisa Letícia, primeira-dama) intuiu que poderia chover, preparamos também uma moqueca capixaba, que servimos para o Sarkozy junto com feijão tropeiro " , explicou-se Lula.
(Paulo de Tarso Lyra | Valor Econômico )
