De estoques que passavam de 300 mil veículos, equivalentes a quase dois meses de vendas, fábricas paradas por mais de um mês e dispensas de funcionários, o cenário da indústria automobilística brasileira no fim de 2008 deu uma guinada e, agora, o setor fala em superar o recorde de vendas de 2,82 milhões de veículos registrado no ano passado. A virada pode ser confirmada pelos resultados de junho, provavelmente o melhor mês da história do setor.
Sem incluir os números de ontem, o setor contabilizava 276 mil veículos licenciados, vendas que hoje devem fechar na casa das 290 mil unidades, de acordo com previsão das montadoras, ultrapassando assim a melhor marca mensal registrada nos mais de 50 anos da indústria automobilística nacional, de 288,1 mil unidades em julho do ano passado. Até agora, as vendas do semestre somam 1,425 milhões de unidades. No mesmo período do ano passado foram comercializadas 1,407 milhões de carros.
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Redução de IPI estimulou vendas |
"Se continuarmos nesse ritmo, será o melhor ano da história do setor", diz o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider. Ele lembra que, em novembro, quando a crise chegou ao Brasil após a quebra do Lehman Brothers, as vendas de carros despencaram de uma média de 240 mil unidades ao mês para 177,8 mil.
No mês seguinte, com mais de 300 mil carros encalhados nos pátios, as fábricas deram férias coletivas. "A média de vendas semanais ficou abaixo da metade do que registramos nas últimas semanas de setembro", diz Schneider.
Em meados de dezembro, o governo reduziu o Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) e o consumidor, aos poucos, começou a voltar às lojas.
O efeito visto nas vendas de automóveis e comerciais leves não se repetiu nos caminhões e ônibus, em queda. As exportações também despencaram por causa da crise nos mercados importadores, por isso, a produção de veículos não acompanhará o desempenho recorde de vendas esperado para este ano.
O nível de emprego também não segue o ritmo das vendas. Desde dezembro, foram fechados 6,4 mil postos de trabalho nas montadoras de veículos e máquinas agrícolas. Algumas empresas esboçam uma retomada nas contratações. A Volkswagen anunciou na semana passada 200 contratações na fábrica de São Bernardo do Campo e 50 na de Taubaté.
"Estamos avaliando novas contratações", informa Cledorvino Belini, presidente da Fiat. Segundo ele, ao longo do ano, a fábrica de Betim contratou mais de mil pessoas. Ele acredita em uma "queda natural das vendas em julho, com nova retomada a partir de agosto e setembro". Levando-se em conta que o último trimestre do ano passado foi fraco, a indústria já tem um desempenho melhor do que o de 2008
Segundo André Beer, da André Beer Consult & Associados, era de se esperar que junho tivesse um desempenho tão bom. O governo deixou para a última hora a notícia de que a redução do IPI continuaria. "Foi uma antecipação de compra. Mas isso não quer dizer que o nível de vendas vá se manter assim até o fim do ano", explica Beer.
Carlos Alberto Grana, presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, diz que o otimismo está longe das linhas de produção de caminhões e ônibus. "A realidade entre carros e caminhões é bem diferente. Já se percebe a indústria reconhecendo que errou na dose quando se viu diante da crise. Demitiram além da conta", avalia.
Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sergio Nobre também tem medo quanto ao futuro dos trabalhadores das linhas de produção de caminhões e ônibus. "Para os carros já vemos uma retomada lenta das contratações. Mas nas fábricas de caminhões é bem diferente. As montadoras estão com programas de demissão voluntária porque dependiam muito do mercado externo. Vamos ver se agora, com as medidas anunciadas pelo governo, há uma retomada", afirma. Nobre prevê uma recuperação das vendas dentro de 30 a 60 dias.
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