27/06/2009 -
19:22
-
Mariana Sant'Anna, do Último Segundo
O preço dos alimentos esteve no foco da inflação ao longo de 2008, com fortes altas, especialmente em produtos como milho, trigo, arroz, carne e hortaliças. Mas agora, em 2009, os índices apontam um movimento inverso: os preços dos alimentos têm forte queda, muitas vezes até segurando a inflação.
Na última pesquisa do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de maio na comparação com abril, os alimentos que pesavam no carrinho do supermercado em 2008 passaram a deixar a conta mais leve com um recuo expressivo de preços. O feijão merece destaque: no mês passado, o preço do feijão preto recuou 10,75%, enquanto o carioca caiu 6%. O arroz, outro vilão dos preços altos no ano passado, ficou em média 2,30% mais barato em maio. A inflação média registrada no período foi de 0,47%. A técnica dos Índices de Preço do IBGE Irene Machado destaca que, enquanto estes alimentos fecharam o ano de 2008 com forte alta, os seus preços acumulam queda neste ano até maio. “O feijão carioca subiu 29% no ano passado, e o preto ficou 65% mais caro. Neste ano, o carioca já tem uma queda de 25% nos preços, e o preto recua 29%, pelo IPCA”, explica. O arroz, segundo ela, segue o mesmo caminho. Neste ano, o preço já cai 8,5%, depois de subir 33,95% em 2008.
| Arte/US |
![]() |
Os valores cobrados no ano passado estavam “inflados”, segundo Paulo Picchetti, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) Brasil, calculado pela Fundação Getulio Vargas. “Os alimentos seguraram a inflação entre 2005 e 2006, viraram vilões em 2007 e atingiram o auge dos preços em 2008”, explica. Para ele, ao longo deste ano os preços estão em um patamar “mais normal”.
O pesquisador na área de socioeconomia da Embrapa Arroz e Feijão Alcido Elenor Wander afirma que, até o ano passado, o comportamento dos preços do arroz passaram por uma situação “completamente atípica” e, desde então, já caíram bastante, retornando atualmente a patamares próximos aos vistos em 2005 e 2006. “Os estoques de arroz no mercado internacional caíram, o que elevou os preços”, explica. “Com essa valorização, muitos países passaram a produzir arroz, o que está ajudando a recompor os estoques e, aos poucos, a reduzir os preços.”
Crise reduziu preços
Pichetti, da FGV, explica que entre as causas da alta do ano passado estão o aumento na demanda externa somado a um forte movimento especulativo que elevaram os preços agrícolas. Este movimento, segundo ele, começou a partir de 2007. “Com a crise mundial, houve queda na demanda, redução do movimento especulativo, e, consequentemente, redução no preço das commodities agrícolas”, afirma. “E esse movimento tem reflexo nos preços ao consumidor.” Mas esses fatores, segundo ele, influenciaram na cotação dos produtos que têm preços dependentes do mercado internacional. Este é o caso do arroz, trigo, milho e da carne, por exemplo. “No caso de hortaliças, legumes e frutas, a oscilação de preços acontece em função da demanda interna”, explica. Isso foi o que ocorreu com o feijão, segundo Wander, da Embrapa. Ele destaca que, no caso do carioca, os preços são formados exclusivamente por fatores internos, uma vez que ele só é produzido no Brasil e o consumo também é totalmente interno. “Antes da alta dos preços, houve uma quebra de safra que reduziu a oferta e causou aumento nos preços”, diz.Irene, do IBGE, acrescenta que o feijão preto é produzido fora do País, e por isso pode ser importado em caso de queda na oferta ou forte aumento da demanda. “Às vezes, com a alta no preço do carioca, o mais consumido no Brasil, a população acaba substituindo pelo preto”, afirma, o que, segundo ela, pode acabar causando uma reversão nos preços, aliviando a alta do feijão carioca e pressionando o preto.
Atualmente, os preços do feijão cobrados pelo produtor estão baixos a ponto de desestimularem a produção, na opinião de Wander, da Embrapa. “Esta redução demora a chegar ao consumidor, então no supermercado o efeito não é tão intenso, mas a redução fez muitos agricultores desistirem de produzir feijão nesta safra”, diz. Por isso, a oferta deve diminuir e ele acredita que haverá um ligeiro aumento para o segundo semestre. “Mas não se espera nenhum pico de preços, a não ser que haja algum efeito climático não esperado”, afirma.
Confira como os preços baixos do feijão estão afetando os produtores
Já no caso do arroz Wander acredita que a tendência é de queda por mais um período, seja por causa da recomposição dos estoques, seja pelo desaquecimento da economia mundial. “Tanto que, no Brasil, o governo reajustou os preços mínimos da quantidade de arroz que compra, para estimular o produtor”, explica.
Para Picchetti, os preços dos alimentos, de maneira geral, atingiram uma certa estabilidade e devem se manter nos patamares atuais. “O Brasil chegou a um piso no nível da atividade, houve uma correção nos preços das commodities e a tendência é de que os preços permaneçam como estão hoje”, acredita.
Leia mais sobre inflação
Publicidade