26/06/2009 -
07:00
-
Luís Nassif, colunista do Último Segundo
O Brasil padece de uma fragilidade institucional atávica. Em geral, não há valores consolidados sobre os diversos temas da vida nacional. Não há um pensamento crítico que não esteja contaminado por viés ideológico. É possível se encontrar pontos virtuosos no fortalecimento do Estado ou em aspectos do livre mercado.
Países mais racionais buscariam o pragmatismo, os pontos positivos em cada modelo, sem se prender a fórmulas conceituais abstratas. Ser pragmático significa buscar a solução que melhor resolve o problema a ser atacado. *** Ocorre que ideias são alavancas de grupos políticos, em qualquer ramo da política, seja na Universidade, em setores empresariais e, principalmente, na disputa pelo poder político nacional. Em torno das ideias formam-se grupos de interesse. Para que interesses específicos se sobreponham ao interesse da maioria – ou ao interesse nacional, entendido aí a busca do desenvolvimento e do bem estar social – as ideias têm que vir embrulhadas em pacotes ideológicos. E, aí, o caldo entorna. *** Até os anos 80, por exemplo, protecionismo, intervenção do Estado, fechamento econômico, preponderância da produção sobre o consumidor eram bandeiras hegemônicas. Por trás delas estavam grupos empresariais protegidos, altos funcionários públicos, fornecedores do governo e de estatais. Esse emaranhado de interesses enrijece a economia, manieta a política, impedindo mudanças gradativas. Só se muda quando o modelo agoniza, precipitando um conjunto de crises. Foi o que ocorreu no pós-ditadura, com a agonia do governo Sarney, a ruptura do governo Collor, a transição do governo Itamar e a consolidação do novo modelo com Fernando Henrique Cardoso. Aí o pêndulo volta com tudo, radicalizando o movimento até seu esgotamento. Privatização, câmbio, política monetária, dívida pública, política de crédito, tudo passou a ser subordinado aos interesses do mercado e de grandes grupos. Exagera-se no movimento, criando uma dívida pública monumental, crises cambiais sucessivas e estagnação econômica. *** Esse modelo se esgota mundialmente. Ou seja, só depois que morre lá fora, começa a ser superado aqui dentro. A lógica é a mesma, do país sempre indo a reboque das tendências globais. E o que virá pela frente? A crise mostrou a importância de bancos públicos, de políticas fiscais anticíclicas, de uma presença maior do Estado. Mas a nova etapa de crescimento exigirá, igualmente, um mercado de capitais maduro, capaz de carrear a poupança dos títulos de renda fixa para os grandes projetos nacionais. Determinadas funções podem ser exercidas tanto pelo Estado quanto pelo setor privado. O que vai determinar sua eficácia é a existência de indicadores de gestão. A produção interna terá que ser protegida, tanto por políticas de financiamento quanto por um câmbio competitivo. Mas já se está vacinado contra os exageros do modelo dos anos 80. *** É possível que, para o próximo ciclo de crescimento, o país esteja mais maduro do que nunca esteve ao longo de sua história. Inadimplência recorde O nível de inadimplência tanto da pessoa física como da jurídica atingiu o piso recorde em maio. De acordo com o Banco Central, a taxa subiu de 8,4% em abril para 8,6% no mês passado. Em maio de 2008, a taxa atingiu 7,4%. Em pessoa jurídica, as parcelas em atraso com mais de 90 dias subiram para 3,2% em maio, maior nível desde maio de 2001, quando ficou em 4,2%. Para o BC, a alta inadimplência nos dois segmentos foi reflexo de uma “parada brusca” nas fontes de financiamento. Acordo de swap é prorrogado O prazo da linha de swap de dólares por reais, acordo entre o Banco Central e o Federal Reserve (Banco Central dos EUA) no montante de US$ 30 bilhões, foi novamente prorrogado. O BC comunicou que o prazo de encerramento da linha, em 30 de outubro de 2009, foi estendido para 1 de fevereiro de 2010. “As condições nos mercados financeiros melhoraram nos últimos meses, mas o funcionamento do mercado em muitas áreas continua debilitado e deve permanecer tenso por algum tempo”, informou o Fed. PIB americano cai menos que esperado A queda do PIB norte-americano no primeiro trimestre acabou ficando menor que o esperado. A revisão final do número apontou que a retração ficou em 5,5%, menor que os 6,1% do anúncio preliminar, e dos 5,7% da revisão posterior. O dado também ficou abaixo da projeção de mercado, de -6,3%. Mesmo com dados menos ruins, as preocupações sobre a fragilidade da economia norte-americana continuam, diante do enfraquecimento do mercado de trabalho. Fed não será tão poderoso O presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, negou que a nova regulação do sistema financeiro norte-americano dará mais poderes à instituição que comanda. “Não é uma grande mudança em termos de poderes comparado com o que atualmente temos no lugar”, disse, durante a Comissão de Supervisão e Reforma do Governo da Câmara dos Representantes (deputados). A proposta do governo consiste em ampliar o alcance fiscalizador do Fed no sistema financeiro. Índia e EUA favoráveis à Rodada Doha Para concluir o acordo de livre comércio internacional da Rodada Doha, a Índia e os EUA se mostraram favoráveis ao reinício das conversas. "Como acabam de dizer em Paris o negociador norte-americano e o indiano, essa é a intenção", disse o diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Pascal Lamy. Contudo, a França e a Comissão Europeia demonstraram que não vão ceder na questão dos subsídios agrícolas. A falta de consenso no assunto interrompeu as negociações anteriores. OCDE quer combater evasão fiscal Os países membros da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) concordaram em reforçar a regulamentação do sistema financeiro. Na declaração final da reunião que se encerrou na quinta-feira, a missão principal da instituição é combater os paraísos fiscais, trocando informações entre os países. A OCDE também se comprometeu a adotar políticas de inclusão social e proteção ao meio-ambiente.
Publicidade