24/06/2009 -
07:00
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Luís Nassif, colunista do Último Segundo
Dois preços fundamentais da economia são os juros e o câmbio. Ambos interferem em quase toda a atividade produtiva. Um aumento nos juros, por exemplo, pode inviabilizar totalmente planos de investimento. Ou inviabilizar negócios, depois de iniciados. Alterações bruscas no câmbio mudam completamente o cenário de uma empresa. Da noite para o dia pode tornar seu produto mais caro que o importado ou mais barato. Se mais barato, a empresa não avançará em projetos de investimento e ampliação se não tiver a garantia de que a relação de preços se manterá inalterada.
Por isso mesmo, é papel de qualquer Banco Central competente não apenas manter juros e câmbio em um nível que estimule a produção e o emprego (sem descuidar da inflação) mas, principalmente, impedir a volatilidade – isto é, a variação excessiva desses preços. *** Se essa for a função precípua de um Banco Central, o nosso não dá conta do recado. Sempre que as condições permitem, menos que artificiais, aprecia o real até o limite da irresponsabilidade. Depois de cada ciclo desses, as contas externas entram em crise e ocorre uma desvalorização brusca da moeda. Aí entra a segunda perna da irresponsabilidade, um modelo de metas inflacionárias que leva em conta um conjunto de preços que não são necessariamente afetados pelo aumento ou redução da demanda. Aqui, um parêntesis. O sistema de metas inflacionárias procura medir o grau de aquecimento da economia e manobrar com os juros para impedir que o uso excessivo da capacidade instalada provoque pressão sobre os preços. Ou seja, atua diretamente sobre a renda do consumidor – pessoa física ou empresas. Aumenta os juros, encarece o crédito, reduz as vendas e controla os preços. Só que a medida de inflação utilizada é bastante afetada pelos chamados preços administrados. São as contas de luz, de telefone e outras, corrigidas pela inflação passada. Nesses casos, os juros não têm a menor influência sobre seu comportamento, porque os reajustes se dão independentemente da demanda, em cima da inflação passada. *** Esse erro metodológico cria um fator adicional de instabilidade, que bagunça completamente o mercado futuro de juros e o câmbio. O mercado deixa de balizar suas taxas de longo prazo pelo nível esperado de aquecimento da economia, mas também pelos movimentos do dólar. Se sente que a crise externa poderá recrudescer (e menos dólar entrar no país), imediatamente reajusta para cima suas projeções de juros. Esse movimento é ampliado pelo livre fluxo de capitais e pelo diferencial entre as taxas de juros interna e externa. Quando o real se aprecia, o investidor externo ganha duas vezes: com os juros internos e com a desvalorização do dólar. Se sente que os ventos estão mudando, caso demore e seja colhido no meio do caminho por uma desvalorização do real, ele perde. Esse quadro acaba criando uma volatilidade permanente, que se constitui, hoje em dia, na principal desculpa do BC para não baixar os juros.
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