Além de marcar a retomada das aberturas de capital no País depois do início da crise mundial, a oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da Visanet, programada para o final do mês, tem potencial para se transformar no maior IPO da história da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). A processadora de transações com cartões vai colocar 35% de suas ações à venda, numa captação que chega a R$ 6,449 bilhões - considerando-se a média do valor sugerido para os papéis (de R$ 12 a R$ 15).
Caso os papéis alcancem o valor máximo, a oferta totalizaria R$ 7,2 bilhões.
Se a demanda for alta, a empresa - controlada pelo Bradesco, BB Investimentos, Santander e Visa International - pode ainda oferecer lotes adicionais de ações, elevando a oferta para até R$ 9,6 bilhões. A Visanet pode, com isso, desbancar a oferta inicial de ações da OGX, companhia de petróleo do empresário Eike Batista, que levantou R$ 6,7 bilhões na Bovespa em junho de 2008 - a última abertura de capital antes do início da crise global.
O comportamento do mercado nos últimos meses torna quase certo o interesse dos investidores pela oferta da Visanet, diz o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ernesto Lozardo. "A empresa chega em um momento correto, com os estrangeiros participando fortemente na bolsa brasileira e uma perspectiva promissora de rentabilidade para o mercado de capitais", afirma.
De junho de 2008 até meados de março, apenas uma empresa havia se aventurado na Bovespa. A Redecard, principal concorrente da Visanet no mercado de transações com cartões, fez uma emissão de mais de R$ 4 bilhões, considerada bem sucedida pelos analistas. Somente nas últimas semanas, com o interesse dos investidores estrangeiros pelo Brasil aumentando, o mercado começou a dar sinais de recuperação. Nas últimas semanas, empresas como Gafisa, MRV e Hypermarcas anunciaram planos de lançar mais papéis no mercado. No caso da MRV, a oferta pode alcançar R$ 532 milhões, segundo prospecto divulgado também ontem.
"O mercado está preparado para novas operações", diz a analista da Gradual Investimentos, Luciana Pazos. Segundo ela, apesar de as condições não serem as mesmas do período pré-crise, há sinais que justificam o otimismo, como o fluxo de capital estrangeiro e a redução do risco país. "Existe um apetite pelo risco bem maior que no último trimestre de 2008 e primeiro deste ano."
PROMISSORA
Para os investidores, o IPO da Visanet pode ser uma opção atrativa, afirmam os especialistas. Segundo o professor da FGV, um dos motivos é a mercado em que a empresa atua, que tem registrado crescimento de 20% a 25% por ano há mais de uma década. O potencial de expansão também é grande. "Comparado a outros países, o índice de uso de meio eletrônico de pagamento ainda é baixo no Brasil. Além disso, há vários nichos da economia ainda não explorados por essa indústria", afirma Luciana.
Como risco ao IPO, analistas lembram que o governo poderá alterar a regulação do setor, reduzindo as margens. Esse fator já havia sido alertado pela própria Visanet no prospecto inicial, divulgado em maio. No documento, a companhia lembra os projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional que tentam limitar as taxas de administração cobradas, estimular o compartilhamento de infraestrutura e proibir cláusulas de exclusividade com bandeiras.
Apesar do risco, os analistas não acreditam em uma mudança no curto prazo. "O principal fator de risco para o setor é o governo, mas não é esperado nada para agora", afirmou João Augusto Salles, da Lopes & Filho Consultoria. E mesmo uma possível redução das taxas de administração não afetaria a rentabilidade da operação, já que a tendência é de aumento no número de operações de pagamento com cartões e de estabelecimentos credenciados. "As taxas no Brasil são muito elevadas e reduzi-las não seria um problema", diz Salles.
No prospecto, a Visanet informa ter uma fatia de 46,8% do mercado. A empresa faturou R$ 2,875 bilhões no ano passado - R$ 300 milhões a mais que a concorrente Redecard. De 2006 a 2008, o crescimento do negócio chegou a 47,8%.
