10/05/2009 -
05:50
Marina Morena Costa, repórter do Último Segundo
A “gripe suína” (rebatizada de gripe A H1N1 pela OMS) não deve afetar o comércio entre Brasil e México, na avaliação de especialistas ouvidos pela reportagem do Último Segundo. A característica da balança comercial entre os dois países, focada principalmente em bens duráveis (automóveis e peças automotivas e minérios) e tecnológicos (plataformas para celulares), garante a manutenção dos negócios, na opinião dos entrevistados.
Como alimentos e carnes não fazem parte da pauta de comércio entre os dois países, Celso Grifi, professor da Faculdade de Administração e Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e especialista em comércio exterior, acredita que não haverá impacto nas relações.
“O México vai continuar importando produtos do Brasil e o País também não tem motivos para deixar de comprar dos mexicanos”, diz. De acordo com Grifi, não é tradição nas relações de Brasil e México “a troca de carnes suínas, nem de matrizes e reprodutores”.
Volta às aulas tenta devolver rotina ao México:
Impacto inexpressivo
“No momento, os impactos para o Brasil são inexpressivos”, concorda Fernando Ribeiro, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). O especialista ressalta que as exportações para o México vêm em ritmo de redução, mas por conta da retração econômica global, e avalia que possíveis impactos serão sentidos somente daqui a dois meses.
Carlos Bonetti, presidente da Câmara Bramex (Indústria, Comércio e Turismo Brasil México), avalia que os negócios serão retomados com a melhora na economia dos dois países. “O mercado bilateral é muito vasto e acabará recuperando eventuais perdas”, avalia. Entre os importadores de veículos automotores brasileiros, o México aparece em segundo lugar, atrás da Argentina. O país também importa grande quantidade de peças para veículos, é o terceiro parceiro mais forte do Brasil para estes produtos.
Redução
De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o primeiro trimestre de 2009 apresentou uma redução de 35% nas exportações para o México ante o mesmo período do ano anterior, caindo de US$ 946 milhões para US$ 613 milhões. As importações de produtos mexicanos, no entanto, cresceram 7%, de US$ 592 milhões no primeiro trimestre de 2008, para US$ 634 milhões no mesmo período de 2009.
O MDIC afirma que ainda é cedo para diagnosticar qualquer impacto da "gripe suína" na balança comercial brasileira. Segundo a assessoria de imprensa do Ministério, somente com o balanço consolidado de abril será possível avaliar os impactos. Os dados devem ser divulgados a partir de 15 de maio.
Sofrimento do México
Os especialistas avaliam que o maior impacto da gripe suína certamente será sobre o fluxo de pessoas e as atividades que dependem de viagens ao México ou de mexicanos para outros países, como eventos, prestação de serviço, assistência técnica e reuniões. “Esses impactos são difíceis de mensurar, mas de fato a indústria do Turismo sofrerá mais”, analisa Bonetti. Dados da Bramex apontam que, anualmente, o México recebe cerca de 4 milhões de turistas, que movimentam US$ 4 bilhões no país.
“Viagens e investimentos estão sendo adiados, numa reação natural às circunstâncias. Com isso as companhias aéreas mexicanas estão voando com apenas 65% dos lugares preenchidos. Os hotéis da Cidade do México apresentam 80% da capacidade vaga”, relata o presidente da Câmara.
Estimativas do Ministro da Fazenda do México, Agustín Carstens, apontam que o país deve sofrer uma queda de 0,3% do PIB, o equivalente a US$ 2,2 bilhões. Para tentar contornar os estragos, o governo concederá incentivos fiscais estimados em US$ 1,3 bilhão e o setor bancário emitira créditos de até US$ 75 milhões. Segundo o governo mexicano, a economia do país é afetada principalmente pelo isolamento social para evitar o contágio e pelas incertezas sobre a epidemia.
Para Grifi, o país deve perder muitos turistas, principalmente americanos, devido a proximidade geográfica. “A viagem para o México impõe riscos. Além disso, as pessoas que saem do país ficam submetidas a um nível de controle, passam por quarentenas, que é muito desagradável”, ressalta. Para o economista, neste momento, não há como prever as consequências da epidemia para a economia dos países com casos confirmados de gripe suína: “Ainda é cedo para mensurar perdas. Qualquer prognóstico será um chute”.
(Com informações da BBC)
Leia também:
Entenda a "gripe suína"
Publicidade