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Com quatro meses no mercado, Azul já demonstra força para brigar com GOL e TAM

10/05/2009 - 10:23 , atualizada às 08:51 11/05


Lecticia Maggi e Bruno Rico, do Último Segundo

SÃO PAULO – Após quatro meses no mercado, a companhia aérea Azul já demonstra força para brigar por clientes com as gigantes GOL e TAM. Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), um mês após ser lançada, a Azul atingiu 1% de participação no mercado e, em março último, chegou a 2,3%. “É um feito”, afirma Alessandro Oliveira, professor do Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA), que alerta, porém, ainda ser cedo para medir o impacto da companhia na aviação civil brasileira.

Divulgação

Lançada em 15 de dezembro de 2008, a empresa teve capital inicial de US$ 200 milhões, o maior da história da aviação mundial. De acordo com o presidente da companhia, Pedro Janot, a intenção é investir US$ 3 bilhões até 2015.

Para Oliveira, “mais importante do que o capital inicial é o planejamento estratégico e a confiança passada ao investidor”. “É o compromisso com a expansão”, acrescenta. Isso a Azul parece ter. Com atuais nove aeronaves, o objetivo é chegar a 14 ainda em 2009 e atingir 76 até 2016.

“Um plano extremamente ambicioso”, na visão do consultor em transporte aéreo do Instituto Brasileiro de Estudos Estratégicos e de Políticas Públicas em Transporte Aéreo Vladimir da Silva. Ele considera que, além de roubar clientes das concorrentes, a Azul deve despertar um nicho esquecido do mercado. “Ela vem com aeronave moderna e preços acessíveis, estimulando uma demanda que estava reprimida, que não viajava e agora começa a entrar em avião”, afirma.

Para Márcio Jumpei, editor da revista High, especializada no segmento aéreo, a Azul tem condições para interferir no duopólio da TAM- e da Gol, que ocupam 49,5% e 39,5% do mercado, respectivamente. “O Brasil precisa de voos além de sua oferta. Há um mercado que não cresce por falta de estrutura e investimento”, diz.

 

Segundo ele, é preciso “superar o eixo Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte” e fazer voos diretos entre cidades como Curitiba e Cuiabá e Florianópolis e Porto Alegre, por exemplo. “Há demanda para isso”, acredita.

Sem acesso aos aeroportos de Congonhas e Guarulhos, em São Paulo, a Azul optou por operar do aeroporto de Viracopos, em Campinas. O que foi uma falta de opção, hoje também é visto pelos especialistas como uma boa estratégia de marketing. “Há um centro farmacêutico muito grande na região de Campinas e existe demanda em Jundiaí, Americana e Indaiatuba”, explica Jumpei.

Para driblar a distância e conquistar também passageiros da capital paulista, a Azul oferece ônibus gratuitos até Campinas. Eles têm saídas dos shoppings Eldorado e Tamboré e do Terminal Barra Funda em 11 horários, sendo que o primeiro é às 4h e o último às 19h30. A viagem dura cerca de 1h30. No interior, também há ônibus das cidades de Sorocaba, Americana, Jundiaí e Piracicaba.

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Ônibus da Azul para passageiros

Ônibus da Azul para passageiros

Para Jumpei, o transporte gratuito é um atrativo. “Não dá mais trabalho do que pegar um ônibus para o aeroporto de Guarulhos, por exemplo. Uma família que não tem ninguém para levar ao aeroporto pode pegar um taxi para o shopping e, de lá, um ônibus. Pode ficar até mais barato”, afirma.

Opinião semelhante é partilhada por Alessandro Oliveira, para quem a empresa consegue “roubar passageiros” principalmente do aeroporto de Guarulhos, por causa do perfil dos consumidores. “O passageiro de Congonhas é mais business. Às vezes, vai e volta no mesmo dia e não tem tempo a perder em ônibus”, diz.

Atualmente, a Azul tem voos diretos de Campinas para as cidades de Curitiba, Manaus, Fortaleza, Manaus, Navegantes, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e Vitória. E esta é outra bandeira que levanta: o fato de não haver escalas entre seus voos.

Enquanto uma partida entre Campinas e Vitória para o dia 15 de junho, por exemplo, dura cerca de 1h20 na Azul; na concorrente TAM, o tempo da mesma viagem pode chegar a 17h30 em razão de duas escalas no percurso.

No entanto, os consultores consideram que, para crescer no mercado, a Azul precisa investir nos aeroportos paulistas. Um dos grandes desafios da empresa, no momento, é aumentar a frequência de voos. “Como suas aeronaves são menores, a Azul precisa ter voos toda hora e, neste ponto, deve ter dificuldade”, afirma.  “O executivo quer facilidade de horários e nisso a Azul ainda tem problemas, que só serão resolvidos quando tiver mais aeronaves”, completa Vladimir Silva.

Uma das maneiras mais rápidas de expansão, segundo Oliveira, é pela compra de outras empresas que detém direito de pouso e decolagem nestes aeroportos congestionados, como Congonhas. “Pelo sistema de alocação, a possibilidade é mais reduzida, depende de acordos com a Anac e de como as outras empresas vão reagir”, explica.

Disputa tarifária

Para divulgar a marca e entrar na briga aérea, a Azul chegou a vender passagens a R$ 30. Valor que, de acordo com Oliveira, não é sustentável. “É uma estratégia de marketing conhecida como preço psicológico. A empresa libera tarifas loucas para manter a reputação de ter preços baixos”, afirma.

A reportagem do Último Segundo pesquisou o valor de uma viagem de Campinas ao Rio de Janeiro (Santos Dumont) para o dia 15 de junho de 2009 e encontrou opções a partir de R$ 99 na empresa. O valor é para passagens compradas com no mínimo três dias de antecedência e estadia de duas noites.

A TAM afirma que para o trecho solicitado há passagens a partir de R$ 119 para compras com 30 dias de antecedência. No entanto, para o dia requerido, a reportagem não encontrou nenhum voo. De Congonhas, a passagem sai R$ 339. A Gol não tem chegadas no Santos Dumont partindo de Campinas, somente no Galeão, onde a viagem sai a partir de R$ 89.

Para o consultor Silva, a Azul deve continuar com preços baixos por no máximo seis meses e, depois, terá que repensar a sua operação. Isso, no entender do professor Oliveira, inclui mesclar tarifas mais caras com promocionais. “Tem segmento que concorda em pagar R$ 500 e outros que só viajam por R$ 50. Se tiver um mix desses passageiros, ela mantém a reputação sem perder a lucratividade”, afirma.

A Gol, por sua vez, diz que não vai baixar os preços para concorrer com a novata. “Desde o começo já trabalhávamos com tarifas competitivas, parecidas com os preços de ônibus”, diz Tarcísio Gargioni, vice-presidente de marketing e serviços da Gol. Procurada, a TAM não quis se posicionar sobre a competição tarifária.

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Novo mercado

O consultor em aviação Paulo Bittencourt Sampaio considera que o mercado aéreo irá se transformar com a presença das companhias menores. “A Azul não é a única que está se dando bem. A Oceanair e Webjet estão oferecendo boas tarifas, conforto e novas rotas. A proposta das três é bem parecida e elas estão conseguindo ganhar o mercado”, afirma.

Em março, as três empresas juntas passaram a dividir quase 10% do mercado, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Há um ano, quando a Azul ainda não estava no mercado, este índice não chegava a 5%.

Ao mesmo tempo, TAM e GOL enfrentaram maus momentos financeiros. Devido às oscilações no preço do petróleo e à crise financeira mundial, ambas fecharam 2008 com prejuízos. A TAM encerrou o ano com prejuízo líquido de R$ 1,3 bilhão, enquanto a Gol registrou prejuízo líquido de R$ 687 milhões no quarto trimestre de 2008, frente perda de R$ 6,5 milhões no mesmo período de 2007. No ano, apesar de a receita líquida ter avançado quase 30%, o prejuízo somou R$ 1,4 bilhão, ante lucro de R$ 272,3 milhões em 2007.

Os especialistas são unânimes em dizer que a presença da Azul deve trazer benefícios ao consumidor e fazer com que os preços das passagens caiam neste primeiro momento. “A competição vai ser acirrada. Até junho devemos ter queda de 20% a 30% nas tarifas”, diz Silva.

Otimista, Oliveira afirma que a competitividade é boa para o País. “Sempre tivemos três, quatro grandes empresas aéreas no Brasil. Estávamos preocupados com o atual duopólio”, afirma ele, que diz que, para não perder clientes, as empresas deverão se modernizar e procurar localidades não atendidas. “É uma chacoalha tremenda nas bases do setor”, considera.





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