30/04/2009 -
08:40
, atualizada às 17:37 30/04
Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo
Há um ano, em 30 de abril de 2008, a agência de classificação de risco Standard & Poors (S&P) elevou a classificação do Brasil do grau de especulação BB+ para o grau de investimento BBB-. Menos de um mês depois, o País também subiu na classificação da Fitch, outra avaliadora. Com isso, entrou para o seleto grupo de países considerados bons pagadores de suas dívidas e de baixo risco para aplicações financeiras. Na visão de especialistas, porém, a crise financeira mundial mudou o cenário econômico e não deixou o País se beneficiar do título que conseguiu.
“Depois da classificação, a Bolsa continuou melhorando por cerca de 40 dias. Depois, mergulhamos em um turbilhão de incertezas, e ter grau de investimento não teve muito efeito”, afirma José Francisco de Lima, economista-chefe do Banco Fator.
Para economistas, o Brasil ainda não se beneficiou do que receber “investment grade” tem de melhor, que é o aumento da demanda para investimentos de fundos soberanos, prática de juros menores e prazos maiores.
"Não houve condições para aumento dos investimentos com a crise internacional"
Segundo o doutor em economia e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) Tharcísio Souza Santos, o Brasil foi mais atingido pela crise do que imaginava. Depois do dia 15 de setembro de 2008, com a quebra do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, a situação se agravou. “Não houve condições para aumento dos investimentos com a crise internacional. Neste momento, não é um rótulo que faz diferença, é a condição macroeconômica”, diz.
Na época em que elevou o rating de crédito soberano de longo prazo em moeda estrangeira do Brasil de BB+ para BBB- e o rating de moeda local de BBB para BBB+, a S&P disse que tais promoções refletiam o amadurecimento das instituições financeiras e das políticas públicas do País. Elas são demonstradas pela melhora na situação fiscal e na tendência de crescimento e redução da dívida externa.
"Não estamos vendo risco em curto prazo. Temos uma perspectiva estável"
O Brasil foi o 14º país soberano a ter sua dívida em moeda estrangeira elevada para o grau de investimento. Como pontos fortes do crédito brasileiro, a agência citou o histórico de continuidade nas políticas e o perfil da dívida em linha com o de governos classificados nas categorias de grau de investimento.
No dia 6 de abril último, a agência confirmou a classificação. “Não estamos vendo risco em curto prazo. Temos uma perspectiva estável”, explica Sebastián Briozzo, analista de crédito da S&P, para quem “um país manter o nível no atual contexto de dificuldades é uma boa notícia”.
Segundo ele, há uma parcela maior de investidores olhando para o Brasil agora, já que muitos só podem depositar seus ativos em países que têm grau de investimento. Para especialistas, a afirmação, na prática, é em partes verdadeira.
“Existem grandes investidores que se orientam por índices e condições reais da economia, sem depender de agências de classificação de risco. Outros, principalmente os pequenos e médios, não têm essa capacidade de avaliação e se orientam pelas agências classificadoras. São bastante influenciados”, explica Sandro Maskio, professor de economia da Universidade Metodista de São Paulo.
"Podemos observar o Banco Central alongar o prazo da dívida pública e diminuir a remuneração paga por ela"
Segundo informações do Banco Central (BC), em 2007, o Brasil recebeu US$ 34,584 bilhões em investimento externo líquido. Em 2008, o salto foi para US$ 45,058 bilhões.
Em qualquer operação, os credores buscam obter a melhor remuneração com o menor risco possível. Por isso, à medida em que confiam mais em um título público, tem menos medo de apostar e tomar calote. Com isso, Maskio explica que o Banco Central tem mais liberdade para negociar títulos públicos com juros menores e prazos maiores. “Nos últimos meses, mesmo em um cenário internacional adverso, podemos observar o Banco Central alongar o prazo da dívida pública e diminuir a remuneração paga por ela”, considera.
Com a crise, as operações do BC também foram prejudicadas com a dificuldade na obtenção de crédito. “Não porque a qualidade estava comprometida, mas porque os credores estavam mais receosos”, ressalta o professor Maskio.
Para ele, porém, a confiança no governo está ajudando a amenizar o impacto da turbulência mundial e, sem ela, o País viveria um período com taxas de juros ainda maiores. A longo prazo, o economista considera que o BC deva reduzir mais a taxa de juros e os consumidores sentirem o impacto com financiamentos a taxas menores.
"Eles precisavam deste tipo de chancela, de selo, que é o grau de investimento"
“O que beneficiou o País na crise não foi ter recebido ‘investment grade’, foi a melhora que permitiu essa classificação”, acrescenta o economista da Win Trade Consultoria José Góes.
De acordo com ele, a nova classificação permite que fundos de pensão e investidores mais rigorosos apliquem no País. “Eles precisavam deste tipo de chancela, de selo, que é o grau de investimento”, diz. “Mas a pré-condição macroeconômica e a longevidade da democracia precedem isso. O investidor vem por causa dessas coisas. O grau de investimento só consagra uma situação”, completa o professor Tharcísio Souza Santos.
Os efeitos disso, no entanto, eles ressaltam, só devem sentidos quando o cenário internacional se estabilizar.
| Grau de investimento | |
| NOTA | SIGNIFICADO |
| AAA | O nível mais alto. Melhor qualidade de crédito. |
| AA | Qualidade de crédito muito alta. Indica capacidade muito elevada de pagamento de compromissos financeiros. |
| A | Capacidade elevada de pagamento de compromissos financeiros, mas é mais vulnerável a alterações nas circunstâncias ou nas condições econômicas. |
| BBB | Capacidade de pagamento de compromissos financeiros é considerada adequada. Porém, menos protegida contra choques e variações. |
| Grau de especulação | |
| NOTA | SIGNIFICADO |
| BB | Há possibilidade do risco de crédito aumentar como resultado de mudanças adversas na economia. Mas há alternativas que possibilitam que as dívidas sejam honradas. |
| CC | Altamente especulativo. A capacidade de continuar efetuando o pagamento dependerá de um ambiente de negócios e econômico sustentado e favorável. |
| CCC | A inadimplência é uma possibilidade real. O país depende de condições de negócios e econômicas extremamente favoráveis e sustentadas. |
| CC | É provável algum tipo de inadimplência. |
| C | A inadimplência é iminente. |
| D | Indica um país que deixou de cumprir com todas as suas obrigações financeiras. |
| *Os modificadores + ou - podem ser adicionados para denotar a posição relativa nas categorias principais de rating. O Brasil está no rating BBB-, que é o menor do grau de investimento. | |
Subir de nível
O Brasil encontra-se na categoria BBB-, que é mais baixa entre todas as consideradas de investimento. Nenhum dos especialistas consultados acredita que ele deva sair deste nível rapidamente. Para Briozzo, analista da S&P, o nível da dívida e a carga tributária, que ainda são altos no País, são os principais empecilhos para um melhor posicionamento.
Segundo Sandro Maskio, a ineficiente gestão do orçamento público também dificulta o pagamento de dívidas. “O governo arrecada muito, mas com péssima qualidade, tributando os mais pobres”, critica. “O Brasil ainda tem que melhorar de 40% para 30% o nível de endividamento. E tem que conseguir uma taxa de crescimento expressiva por longo tempo”, acrescenta Góes.
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