Waldheim García Montoya. São Paulo, 6 out (EFE).- Os mercados latino-americanos, com o Brasil à frente, viveram hoje um autêntico pesadelo em meio ao pânico mundial e aos indícios de que a crise financeira internacional já pesa na economia real.
Desde a abertura dos negócios, os mercados da região já davam sinais de que enfrentariam outra segunda-feira negra, mas a magnitude das perdas superou as previsões mais pessimistas.
Antes de chegar à metade do pregão, a bolsa de São Paulo, a maior da América Latina em volume de negócios, teve que interromper duas vezes as operações por quedas superiores a 10% na primeira pausa, e depois a 15%, na segunda.
No final do dia, o índice Ibovespa acabou minimizando as perdas, com uma queda de 5,43%, para 42.100 pontos, que foi recebida com certo alívio pelos agentes financeiros.
Uma situação similar foi vivida nos demais países da América Latina, uma região cujas economias começam a sentir os efeitos da crise pela queda dos preços internacionais das matérias-primas, no que basearam seu crescimento nos últimos anos.
A bolsa de Buenos Aires suspendeu também as operações pouco depois da abertura quando o índice Merval caía 11%, embora da mesma forma que São Paulo tenha se recuperado, fechando o dia com uma perda de 5,9%.
O México, cuja economia tem uma enorme dependência da americana, também não ficou de fora da situação. Na sua bolsa, o índice IPC terminou o pregão com uma queda de 5,4%.
A série de perdas deixou o IPSA de Santiago com um estrago de 6,02%, enquanto o IGBC da Colômbia teve queda de 4,86%.
Se a coisa aperta do lado das bolsas de valores, o mercado cambial se mostrou também afetado, com quedas em moedas que há alguns meses mostravam força perante o dólar.
Foi o caso do real, que hoje caiu 7,57%, do peso mexicano (-6,06%), do chileno (-3,16%), do argentino (-0,94%) e do uruguaio (-0,92).
As autoridades buscam saídas para acalmar os mercados e evitar que o pânico se propague.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reiterou hoje que o país "esta sólido, seus bancos estão sólidos e suas empresas estão sólidas", mas disse que "nada" pode impedir que as bolsas caiam.
Em reunião de chanceleres de América Latina e Caribe no Rio de Janeiro, o ministro Celso Amorim disse que é necessário que a região faça "ouvir sua voz nesse tema tão importante", como é a crise financeira.
"Não é mais possível que nós sejamos apenas aqueles que passivamente sofrem os efeitos das crises que acontecem nos grandes centros econômicos", afirmou.
O problema está em que depois do ocorrido com grandes bancos americanos e europeus que foram à quebra, os mercados andam com os nervos à flor da pele e, portanto, vulneráveis a qualquer tipo de rumor.
Nesse sentido, a corretora brasileira Planner recomendou hoje a venda de ações da Sadia pela "reincidência de perdas com as operações financeiras, o que põe em dúvida sua credibilidade de gestão e a capacidade de enfrentar riscos".
A Sadia reconheceu recentemente perdas de US$ 390 milhões com contratos futuros, um número superior a todos os seus lucros de 2007. Por isso, a agência de classificação de risco Standard & Poor's deu uma nota negativa à empresa, o que custou o cargo de seu presidente, Walter Fontana Filho.
O economista Emilio Alfieri, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), disse à Agência Efe que foi "precipitada e imprudente" a aposta de algumas empresas brasileiras no dólar baixo, e acrescentou que "agora serão penalizadas" pelo próprio mercado.
Os especialistas estão atentos, além do que ocorre em EUA e Europa, à temporada de divulgação de balanços empresariais do terceiro trimestre, que nas próximas semanas darão uma idéia do tamanho do contágio da crise à economia real latino-americana. EFE wgm/rr