19/05 - 03:35 - José Paulo Kupfer
Na segunda e última parte da entrevista exclusiva ao colunista do iG José Paulo Kupfer, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, revela estar convencido de que não haverá grandes mudanças nos números da economia, daqui até o fim do ano. “Vamos crescer 5%, com a inflação dentro da meta”, diz. “O que está em aberto é o crescimento de 2009. Por enquanto, o ano que vem não está ameaçado, mas se exagerar na dose [dos juros], claro que haverá conseqüências”.
Mantega também considera que a elevação da economia a grau de investimento compensou as últimas altas dos juros e vê os empresários tão entusiasmados com as perspectivas dos negócios que nem estariam “dando bola para o aumento dos juros”.
A primeira parte desta entrevista exclusiva com o ministro Guido Mantega foi veiculada neste domingo.
IG – Déficit em conta corrente é coisa boa?
Guido Mantega – Déficit em conta corrente não é coisa boa, mas também não é nada desesperador. Passamos quatro anos seguidos com superávit em conta corrente e, em função de um aquecimento da economia, um aumento forte das importações, e fundamentalmente um forte aumento de remessas de lucros e dividendos, pagamento de serviços, viagens internacionais etc, voltamos a ter um déficit regular. Não há dúvida de que tudo isso tem a ver também com a taxa de câmbio.
IG – Podemos concluir que, ao contrário do que defendem alguns economistas, coincidentemente os de visão mais ortodoxa e financista, déficits em conta corrente não são desejáveis?
Mantega – Tem gente que acha que é bom porque traz poupança externa para o Brasil. Mas, na minha opinião, foi só com superávits consistentes em conta corrente que conseguimos fortalecer a economia brasileira, tornando-a menos vulnerável a problemas externos. Agora, uma boa parte desse déficit atual se deve à conta petróleo. Tirando a conta petróleo não dá déficit. Embora sejamos auto-suficientes em petróleo, produzimos óleo mais pesado e importamos petróleo mais leve e derivados. Mas, a médio prazo, com as novas descobertas, em relação ao petróleo estamos bem na foto. De qualquer forma, temos de dar impulso a um desempenho firme das exportações, e de exportações de manufaturados. As exportações de commodities vão sozinhas.
IG - Resumindo, o governo não perseguirá déficits em conta corrente, para com isso melhorar a situação do câmbio e impedir uma valorização excessiva do real, como defendem esses economistas.
Mantega – Há países com déficit em conta corrente que até têm grau de investimento. Mas nós preferimos o que chamei de estratégia asiática. De fortalecimento da conta comercial e de uma conta corrente positiva, como é o caso da China. Isso nos dá uma posição externa mais robusta e nos permite acumular mais reservas. O atual desequilíbrio é pequeno e temporário e será sanado com os estímulos que estão sendo destinados às exportações com o Programa de Desenvolvimento Produtivo (PDP), a política industrial recém-lançada.
IG – Não será sanado também com ações de política econômica que coloquem o câmbio numa posição mais adequada?
Mantega – Temos um câmbio flutuante, não queremos mudar de regime, mas não podemos, realmente, deixar o real se valorizar demais. Isso prejudica justamente as exportações brasileiras, barateia as importações e gera tendência de déficit em conta corrente. Continuaremos com uma política agressiva de compra de dólares e agora teremos o fundo soberano, que também terá alguma atuação nessa área. O fundo soberano vai transformar reais em dólares e, portanto, colaborará para tirar dólares da economia brasileira.
IG – Como economista, como vê o conceito de “produto potencial”, que tenta definir a taxa de crescimento máximo da economia que não pressiona a inflação, utilizado pelo Banco Central na definição da taxa básica de juros?
Mantega – É um conceito abstrato, que costuma ser usado pelos conservadores para demonstrar que só é possível ter crescimento medíocre. Foi muito usado no Brasil para dizer que a economia não poderia crescer mais de 3% ou 3,5% ao ano. Mas, quando crescemos acima disso, com inflação abaixo do centro da meta, pararam um pouco de falar em produto potencial, que, na verdade, é uma bobagem. Produto potencial é medido olhando pelo retrovisor. É um conceito estático que olha para trás e não consegue detectar o dinamismo que se revela no momento em que você estimula a economia. No ano passado, crescemos mais de 5% com inflação abaixo do centro da meta. Se não fosse a crise de alimentos, poderíamos crescer 5% ou 5,5% este ano com a inflação abaixo da meta.
IG – A economia está desacelerando no momento?
Mantega – A economia não tem um comportamento regular. Parece que, depois de um período de crescimento forte no último trimestre de 2006 e no primeiro trimestre deste ano, ela deu uma pequena desacelerada, para retomar fôlego. Mas não perde o ritmo. Acredito que o crescimento já volte no próximo trimestre. Para este ano, continuo projetando um crescimento de 5%. Mas é bom notar que é 5% sobre os 5,4% do ano anterior, o que é diferente de retomar, depois de uma queda forte, como foi em 2004, quando a economia cresceu 5,7% vindo de um ano de crescimento quase nenhum, aproveitando capacidade ociosa etc.
IG – As elevações previstas nos juros básicos não vão abortar o crescimento, como ocorreu em 2005?
Mantega – A elevação dos juros se deu concomitante com o grau de investimento, o que praticamente deletou o aumento do juros, pela redução dos custos de financiamento. É claro que não podemos esquecer a crise internacional, que puxou os juros para cima. Mas o entusiasmo dos empreendedores brasileiros é tal que eles não estão dando bola para o aumento dos juros.
IG – Então, se a Selic continuar subindo, como o BC indica, desta vez não vai abortar o crescimento?
Mantega – Não sei dizer. Não sei se os juros continuarão subindo, nem qual o efeito, no momento.
IG - A desaceleração que se observa agora não é conseqüência da parada no corte dos juros, em meados do segundo semestre do ano passado, e do posterior aumento da taxa, nesses últimos meses?
Mantega – Não, não daria tempo. As mudanças nas taxas de juros deste ano repercutirão no ano seguinte. Este ano está praticamente dado, tanto no crescimento, quanto na inflação. Vamos crescer 5%, com a inflação dentro da meta. O que está em aberto é o crescimento de 2009. Por enquanto, o ano que vem não está ameaçado, mas se exagerar na dose, claro que haverá conseqüências.
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Exclusivo: Para Mantega, aperto fiscal bancará o fundo soberano