29/04 - 09:51, atualizada às 13:16 29/04 - Redação com agências
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, anunciou nesta terça-feira um novo plano e uma força-tarefa para combater a crise alimentar, enquanto crescem as advertências de que as medidas protecionistas adotadas por alguns exportadores agrícolas, como o Brasil, possam provocar um aumento ainda maior dos preços.

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Ban fez uma chamada urgente à comunidade internacional para que doe US$ 2,5 bilhões com o objetivo de enfrentar a crise alimentícia. O diretor do Banco Mundial, Robert Zoellick, assegurou que "as próximas semanas serão críticas", e disse que sua entidade pretende criar um fundo para financiar os países mais pobres e ajudar sua agricultura.
Nas últimas semanas, ocorreram protestos por causa do preço dos alimentos em vários países da África, na Indonésia e no Haiti, onde o governo caiu.
A força-tarefa, que reúne agências, fundos e programas da ONU, além do FMI e do Banco Mundial, sob o comando de Ban, vai estabelecer uma série de prioridades para um plano de ação, além de garantir seu cumprimento.
Em março de 2008, o índice de preços alimentares da FAO (órgão da ONU para alimentação e agricultura) atingiu um valor 57% superior ao de março de 2007.
Especialistas atribuem a alta dos alimentos a vários fatores: o uso intensivo de terras para a produção de biocombustíveis, transtornos climáticos, o encarecimento do petróleo, a demanda elevada na Ásia e especulações no mercado global de commodities.
Desafio
Ban considerou um "desafio sem precedentes" a explosão dos preços dos alimentos no mercado mundial, ao informar sobre a reunião que acontece desde ontem em Berna com os diretores de várias agências da ONU e de organismos como o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Ban afirmou que a ONU criará uma nova unidade de emergência para enfrentar a crise, que será dirigida pelo principal funcionário humanitário da instituição, o subsecretário adjunto John Holmes.
O anúncio foi feito ao término de uma reunião de 27 importantes agências em Berna para elaborar um plano de batalha para enfrentar a crise alimentar, que ameaça aumentar o número de desnutridos em cerca de 100 milhões de pessoas, segundo o Banco Mundial.
Contra restrições
Ban também fez um apelo a países como Brasil e Egito, que adotaram restrições à exportação de alguns produtos alimentícios, para que abandonem estas medidas, já que reduziram a oferta e contribuíram para a escalada dos preços.
Para enfrentar a recente escalada do custo dos alimentos, Brasil, Argentina, Vietnã, Índia e Egito limitaram a exportação de alguns produtos para garantir o abastecimento interno.
"Devem ser implementadas medidas de política doméstica que corrijam as distorções e não ponham em risco a oferta, junto a medidas de apoio orçamentário e apoio à balança de pagamentos para os países mais afetados", disse Ban.
As declarações foram apoiadas pelo diretor geral da OMC, Pascal Lamy, e por Zoellick, ambos presentes na conferência.
"Pedimos aos países que não utilizem proibições à exportação. Estes controles estimulam o entesouramento (de alimentos), aumentam os preços e prejudicam as pessoas mais pobres do mundo", disse Zoellick.
O presidente do Bird deu as boas-vindas à decisão da Ucrânia de retirar as restrições à exportação de trigo, e destacou que a medida gerou uma queda imediata dos preços.
Lamy também disse que as restrições às exportações não são "boas soluções econômicas a curto prazo".
"É óbvio que estas medidas provocarão um aumento maior dos preços", afirmou à AFP.
Um paradoxo da crise alimentar é que muitos grandes exportadores de alimentos como o Brasil, na linha de frente na batalha pela liberalização do comércio mundial na Rodada de Doha da OMC, estão agora adotando medidas protecionistas.
Programa de alimentos
Ban disse que a prioridade imediata da comunidade internacional deve ser "alimentar aqueles que têm fome", e pediu que os países financiem "de forma urgente e cabal" o Programa Mundial de Alimentos (PAM).
"Sem um financiamento total destas demandas de emergência, corremos outra vez o risco de uma fome generalizada, desnutrição e distúrbios sociais em uma escala sem precedentes", alertou Ban.
O PAM indicou que precisa de US$ 755 milhões adicionais para alimentar os mais afetados pelo aumento dos preços da comida.
"Temos promessas de US$ 471 milhões, mas apenas US$ 18 milhões estão efetivamente conosco. Não podemos comprar comida até que não tenhamos a totalidade", disse à imprensa a diretora do PAM, Josette Sheeran.
Para dar uma idéia da dimensão do problema, o PAM advertiu nesta terça-feira que o crescente preço do arroz o obrigou a deixar de fornecer o café da manhã a 450 mil crianças pobres nas escolas do Camboja.
A agência afirmou que o programa foi suspenso porque já não era possível pagar o custo atual do arroz, que representa 76% dos lanches escolares.
Biocombustíveis
Ban pediu a revisão dos subsídios aos biocombustíveis, considerados uma das causas da escalada dos preços dos alimentos.
"É preciso investigar mais o impacto da mudança do cultivo de alimentos à produção de biocombustíveis e todos os subsídios aos biocombustíveis devem ser revisados", afirmou.
Com informações da AFP, da Efe e da Reuters
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