O ex-bispo Fernando Lugo, candidato à presidência do Paraguai da coalizão opositora Aliança Patriótica para a Mudança (APC), endossa as promessas dos seus concorrentes nas eleições de domingo de exigir do governo brasileiro uma revisão do Tratado de Itaipu, sobre a venda de energia gerada na usina hidrelétrica na fronteira dos dois países. Os candidatos, principalmente Lugo, sustentam que o acordo é "injusto", pois o Paraguai vende sua cota de energia elétrica ao Brasil a preços considerados baixos.
"O tratado foi assinado numa época em que os dois países eram governados por ditaduras militares. Acho esse tratado injusto", disse Lugo em entrevista exclusiva ao Estado em Assunção.
"O Paraguai é o único país que vende sua energia a preço de custo. A Venezuela negocia seu petróleo a preço de mercado, da mesma forma que o Chile vende seu cobre. Mas aqui não. É preciso recordar que a ata assinada entre os dois países em 1966 indicava que o preço seria justo. Preço justo é o de mercado", acrescentou.
Mesa técnica
Lugo disse ter conversado com presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva sobre o assunto. "Lula mostrou-se aberto a discutir o tema e a formar uma mesa técnica de diálogo. Ele me disse, e estas foram quase as palavras textuais dele, que nem meus técnicos coincidem sobre os dados da energia de Itaipu'. Ou seja, vamos conversar e buscar a solução mais adequada para os dois países. De qualquer forma é la primeira vez em 35 anos que podemos conversar com o Brasil como sócios", disse o candidato.
Com a barba mais aparada que meses atrás, de camisa azul, jeans e chinelão, Lugo demonstra a confiança de que sua vantagem, no dia das eleições, será tão substancial que o governo não se arriscará a realizar uma fraude de grandes proporções.
"Denúncias, já existem várias: cédulas de votação que já estão marcadas dias antes da eleição, transporte de eleitores acertados para domingo e compra de votos", diz. No entanto, considera que os países do Mercosul "não aceitariam um resultado escandaloso, já que seriam cúmplices" se ocorrer uma fraude. " As cláusulas democráticas do Mercosul estão em vigência. O governo paraguaio não se arriscaria a ficar isolado na região", acrescentou.
Volta à batina
Bispo da cidade de San Pedro por longo tempo, Lugo enfrentou uma ofensiva do governo do presidente Nicanor Duarte no ano passado, já que este queria impedir sua candidatura alegando que a Constituição paraguaia proíbe que integrantes do clero cheguem à presidência da República. A saída de Lugo foi enviar um pedido de afastamento do sacerdócio ao Vaticano. O papa Bento XVI lhe concedeu uma suspensão temporária.
Lugo admite que gostaria de voltar ao sacerdócio no futuro. "Isso dependerá do Vaticano. Em 2013, quando o mandato terminar, gostaria de optar por uma vida contemplativa, isolada da sociedade. Gostaria de morar em alguma comunidade que quisesse me acolher", disse.
Lugo desmentiu as acusações de adversários de que sua campanha é comandada por marqueteiros brasileiros. Além de especialistas espanhóis, Lugo disse que o único brasileiro da sua equipe de comunicação é Airton Pisetti, secretário de Comunicação do governador Roberto Requião, do Paraná. "Mas, ele trabalhou a distância", assegurou.