19/12 - 08:09 - Paula Leite, repórter Último Segundo
SÃO PAULO - O aumento do crédito está fazendo com que mais brasileiros tenham acesso a produtos para casa, como aparelho de DVD, máquina de lavar e televisão, além de possibilitar que comprem carro e casa própria. Isso está fazendo com que mais pessoas saiam das classes D e E em direção principalmente à classe C, já que o critério leva em conta os itens que a família possui em casa, além da escolaridade do chefe da família.
Para o professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Claudemir Galvani, “o crédito está fazendo uma revolução” no País. “Com a inflação baixa, temos juros mais baixos e prazos de financiamento mais longos. Isso permite entrar no mercado pessoas que antes não tinham acesso a certos produtos”, diz ele. “Hoje temos financiamento de carros em 84 meses, por exemplo, o que possibilita vender para quem não tem renda para financiar em 24 ou 36 meses”, exemplificou.
O pesquisador do Cesit (Centro de estudos sindicais e de economia do trabalho) do Instituto de Economia da Unicamp Waldir Quadros acredita que a passagem de mais pessoas à classe C é causada pelo crescimento econômico e pela expansão do crédito. “O efeito do crédito pessoal até antecede o efeito do crescimento econômico”, que teve melhora principalmente nos últimos 18 meses, diz Quadros.
Para ele, as classes C e D estão “engordando”, mas por razões diferentes. “As pessoas saem da classe E para a D por conta dos programas de transferência de renda e da alta do salário mínimo e saem da classe D para a C por conta da criação de empregos”, diz Quadros, que lembra que estão sendo criadas muitas vagas formais com salários baixos.
Inflação baixa
A inflação baixa, aliada à expansão do crédito, traz um impulso ao consumo, já que fica fácil calcular se a parcela do financiamento cabe no orçamento. Em tempos de preços que aumentavam a cada semana, as pessoas não sabiam quanto seria seu salário e quanto custariam os produtos básicos nos próximos meses, o que impedia o planejamento em prazos mais longos.
Foi a conta que fizeram Marlene de Oliveira, 34, empregada doméstica, e seu marido, que trocaram de carro neste ano. “Demos uma entrada pequena e, antes de comprar, fizemos a conta para ver se dava para pagar a parcela”, diz ela.
Marlene também comprou uma máquina de lavar roupa pela primeira vez neste ano. “Hoje em dia está fácil comprar, as parcelas estão viáveis para o meu salário”, diz ela, que pagou em 12 vezes de R$ 71 pelo eletrodoméstico.
A próxima compra de Marlene será um aparelho de DVD, à vista, na próxima semana. Mas, apesar de seu consumo, ela diz que seu salário “defasou” no último ano e que o do marido não se alterou. “Já cheguei a ganhar o dobro do que ganho agora”, diz ela.
Mudança de classe
Pesquisa do instituto Datafolha divulgada no último domingo mostra que, de outubro de 2002 a novembro deste ano, cerca de 20 milhões de brasileiros saíram das classes D e E. A maioria foi para a classe C, que tem hoje 49% da população.
Já as classes A e B passaram de 20% da população em 2002 para 23% em novembro deste ano.
Para Quadros, o fato de as classes A e B estarem quase estagnadas é negativo. “Isso significa que existe uma barreira à ascensão social”, diz ele. O pesquisador acredita que só com crescimento sustentado por um período mais longo haverá maior migração para as classes A e B. “Mas isso é difícil, porque o País está crescendo com o freio de mão puxado. A política econômica inibe o crescimento”, afirma ele.
Para Galvani, a renda vem aumentando, mas essa mudança de classes econômicas é puxada mais fortemente pelo crédito. Os produtos que mais se beneficiam desse “boom” são os eletrônicos, diz ele. “Para a classe média, o produto mais desejado agora são as TVs de LCD e plasma. Já as famílias com renda mais baixa querem comprar computador pela primeira vez”, afirma o economista.
O volume de crédito disponível passou de 28% do Produto Interno Bruto (PIB) em dezembro de 2005 a 34% do PIB em outubro deste ano, segundo dados do Banco Central. Apesar do crescimento, porém, o volume ainda é considerado baixo por especialistas; em países desenvolvidos, a proporção passa de 100% do PIB.
Josefa Dantas, de 29 anos, que está desempregada e trabalha como diarista, que chegou em São Paulo há três anos, vinda da Bahia, diz que quando chegou “não tinha nem uma panela”, mas que hoje sua casa “tem tudo: TV, DVD, som, cafeteira, batedeira”. Ela e o marido compraram sua casa própria neste ano.
“Depois do carnaval, quero comprar uma máquina de lavar”, diz Josefa, que já pensa também em trocar sua geladeira, fogão e guarda-roupa. “Hoje tem muita facilidade, você compra casa, carro, tudo financiado. E só não trabalha quem não quiser”, afirma ela.
Josefa, que já trabalhou como recepcionista, vendedora e copeira, entre outros empregos, está fazendo cursos de inglês e informática “para voltar ao mercado de trabalho”. “Se pudesse escolher, trabalharia em uma agência de publicidade ou abriria um salão de cabeleireiro”, diz ela.
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