SÃO PAULO - Com ares de dever cumprido, apesar de concordar que os dados do setor aéreo são ruins, o diretor-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi, anunciou há pouco sua demissão. Ele não suportou a pressão exercida pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, apesar de ter sido o último da primeira diretoria da ainda jovem agência a deixar o cargo por conta das diferenças com o sucessor de Waldir Pires.
Em resposta às críticas que recebeu de Jobim desde que chegou à pasta, Zuanazzi caiu atirando. Segundo ele, as medidas propostas recentemente pelo ministro vão causar elevação de preços e, além disso, são temerárias e vêm de alguém que desconhece totalmente assuntos de aviação. O ministro Jobim não teve papel relevante (em minha decisão) no plano pessoal. Mas temos muitas divergências e saio porque não quero trabalhar com ele, afirmou.
O presidente demissionário também atacou as atitudes do ministro que vão contra a independência da agência, um órgão de Estado, não de Governo, como a indicação - sem anuência do Senado - de diretores e mesmo de seu sucessor.
Acho que o ministro Jobim terá de mudar a lei da Anac, já que demonstrou que não dá muita bola para a independência da agência. No Brasil há uma lei específica (para as reguladoras) e acho complicado esse tipo de ingerência do governo numa agência, diz.
Segundo Zuanazzi, sua demissão não se deu antes, com a entrada de Jobim (que então já criticava a atuação da Anac), por senso de dever e para não deixar a agência acéfala. Não saí por causa da responsabilidade do gestor público, que não pode deixar uma agência acéfala, disse, explicando que sem a Anac, não se faz nada em aviação, nem mesmo a importação de uma peça de reposição ou venda de um avião da Embraer. Segundo ele, a demora em sair foi, também, para não deixar o cargo escorraçado e para poder prestar contas à sociedade.
Apesar da pressão de Jobim, porém, o servidor não se disse incomodado com isso. O ministro pressionou sim, mas não me senti pressionado, disse ele, que foi acusado de leniência na crise e de fazer o jogo das empresas aéreas na busca por lucros.
Fui leniente, sim, mas em apenas um ponto: em não rebater as acusações (de Jobim) que recebi, disse Zuanazzi. Mas não falei com a imprensa para não criar mais problemas para aviação, completou.
Para Zuanazzi, a Anac foi estereotipada como incompetente e ineficaz, e isso, de certa forma, é uma injustiça. Ele afirma que isso, porém, foi desmentido quando nenhuma das duas CPIs sobre o caos aéreo ou as investigações dos acidentes com os aviões da TAM e da Gol indiciou a agência. Elogiando a todo o tempo o corpo técnico da agência, boas pessoas que conhecem aviação a fundo e dedicaram a vida a ela, o presidente disse esperar que Jobim não mexa nos quadros técnicos da agência, pois isso significaria grande prejuízo para o país. Seria pegar um enorme conhecimento de qualidade e jogar fora.
Zuanazzi ainda afirmou que Jobim utilizou a Anac como um bode expiatório. É normal que, quando chega a um ministério, alguém queira modificar as coisas, mostrar serviço, disse em alusão ao ministro. Mas o bode expiatório dura pouco. Agora sai o Zuanazzi e o problema será só dele, completou.
O presidente da agência afirmou que tem reunião marcada hoje à tarde com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando vai entregar sua carta de demissão. Sobre a possibilidade de deixar a presidência mas permanecer como diretor da agência, Zuanazzi disse que isso não vai ocorrer. Não quero ser convencido do contrário (por Lula). Tenho 30 anos no setor público e agora acho que é hora de voltar para o privado, completou.
(José Sergio Osse | Valor Online)