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“Eu, Alberto Cacciola, Confesso”: Leia entrevista do dono do banco Marka sobre o livro em que dá sua versão para as acusações

18/09 - 19:29 - Leão Serva

O banqueiro Salvatore Alberto Cacciola enterrou o passado, o “escândalo do banco Marka”, as denúncias e os processos relacionados à sua falência em 1999 e as acusações de compra de dólar por preço privilegiado e de uso de informações privilegiadas do Banco Central. Tudo.

Cacciola inicia uma vida nova na Itália, onde acaba de começar em novo trabalho que “em seis meses”, ele aposta, será capaz de prover o necessário para sua sobrevivência na Itália, onde mora desde julho de 2000.

Para exorcizar definitivamente o passado, ele correu nos últimos meses para produzir um livro que contém a sua versão para cada uma das acusações lançadas contra ele desde 1999. Seu objetivo era terminar o livro antes de recomeçar. E conseguiu. A primeira forma do livro ficou pronta no primeiro semestre e ele começou em agosto no novo trabalho.

No último fim-de-semana recebeu as provas finais do volume, já com capa e texto final produzido desde março por Eric Nepomuceno. Leu de uma sentada, verificou que as últimas alterações tinham sido feitas e, domingo à noite, quando fechou o volume, era para sempre.

“Nunca mais vou ler esse livro”, disse em entrevista ao "Último Segundo". Diz que o processo de rememoração de toda a sua tragédia para a redação do texto foi tão penoso que não conseguiria voltar a reviver todas aquelas cenas. Nem mesmo o direito autoral, Cacciola quer ver em sua conta. Está doando o dinheiro para caridade. Já escolheu uma entidade e agora, em uma visita ao Brasil, sua mulher vai selecionar uma segunda instituição para receber o resultado das vendas.

Cacciola mora em Roma, em uma casa em bairro tranqüilo, fora do agitado centro da milenar capital italiana. Estão com ele a mulher, Adriana, e os dois filhos dela. Cacciola diz que até hoje ainda paga o sustento da família com um dinheiro que havia remetido para a Itália em 1998, regularmente registrado em seu imposto de Renda.

Foi sentado na sala de casa, depois de jantar na última segunda-feira, 10, que Cacciola falou por telefone com o "Último Segundo", usando um aparelho de viva-voz para poder sentar-se mais confortavelmente.

Ao fundo, sua casa tem o barulho de uma casa agitada por uma prosaica vida familiar, com crianças brincando, de vez em quando admoestadas pela mãe. A entrevista tinha sido marcada na semana anterior, sob a promessa de sigilo. Cacciola e seus editores queriam garantir que o livro chegasse às livrarias, neste sábado, antes que algum de seus acusadores, agora no papel de acusados, pudessem tentar impedir a venda da obra.

O banqueiro parece de fato exorcizado: fala bastante mas em poucos momentos revela rancor e em nenhuma passagem demonstrou qualquer temor. Uma das únicas exaltações foram quando o repórter perguntou se ele gostaria de voltar a morar no Brasil: “Você não leu o final do livro? Claro que quero”, disse. Mas quer voltar para um Brasil diferente, onde sinta que seu direito constitucional de defesa e de privacidade sejam assegurados.

Outro momento mais exaltado foi ao falar do PT, do deputado Aloizio Mercadante, que ele acusa de ter deixado morrerem as denúncias contra os verdadeiros beneficiários do vazamento de informações sobre a desvalorização do real em janeiro de 1999 (aqueles 24 bancos que compraram avidamente dólares nos dias que antecederam o anúncio da troca do presidente do Banco Central).

E raiva, parece ter apenas quando fala do banqueiro que acusa de ter sido a fonte das acusações de que ele, Cacciola, teria um esquema de informações privilegiadas do Banco Central. O ex-dono do Banco Marka afirma que seu acusador o fez para tirar seu próprio banco das atenções das autoridades.

Mas ele mesmo se censura ao detectar a raiva. Diz que é para evitar que ela volte a se manifestar que ele não quer mais ler o livro e, a partir dos próximos dias, nem mesmo falar do passado. A partir desse momento, Cacciola será apenas um executivo em meio aos milhões de habitantes de Roma.

Leia a seguir a íntegra da entrevista de Salvatore, aliás, Alberto Cacciola, como ele é chamado:

iG - O Senhor está há quase um ano e meio na Itália. Como é sua vida hoje, quem mora com o senhor na Itália?

Salvatore Alberto Cacciola - Eu cheguei na Itália no dia 17 de julho. Eu moro aqui com minha mulher e os dois filhos dela.

iG - Que têm quantos anos?

Cacciola -Os filhos dela têm sete e dez anos.

iG - Como é essa vida cotidiana na Itália para eles, se adaptaram bem já?

Cacciola - Os garotos são novos, a minha mulher não tem nenhuma dificuldade de se adaptar aqui na Itália porque ela já morou dez anos aqui, oito em Roma. Então, ao contrário, ela é que me ajuda porque ela conhece muita gente aqui. Os filhos estão numa escola americana, onde aprendem inglês e italiano.

iG - Sua mãe está viva?

Cacciola - Meu pai morreu e minha mãe está viva, graças a Deus, quase morreu, já esteve duas ou três vezes internada por causa do meu caso, mas, graças a Deus, é uma italiana forte e está viva.

iG - Com quantos anos?

Cacciola - Se eu falar a idade dela, ela me mata. Mas eu acho que ela tem 65 anos.

iG - Ela mora na Itália com o senhor?

Cacciola -Não, ela mora no Rio de Janeiro.

iG - E qual a sensação que ela tem diante dessa história toda?

Cacciola - Está sofrendo de forma assustadora, tenho a maior pena da minha mãe. Para dizer a verdade, dos meus parentes tem duas pessoas que eu tenho uma pena atroz, uma é ela e outra é minha filha caçula. Não que eu não tenha pena dos outros, mas esses foram os que mais sofreram.

iG - O senhor até fala da filha caçula que no livro o senhor conta que tinha um certo desgosto de entrar na cadeia?

Cacciola - É. Ela teve que ter um acompanhamento muito sério, um negócio muito complicado. É uma coisa tão complicada que eu quero nem contar.

iG - Quando o senhor sai na rua, é uma pessoa conhecida ou um anônimo?

Cacciola - Nesse ano e três meses que estou aqui na Itália, devo ter sido reconhecido duas, no máximo três vezes, por turistas brasileiros. Mesmo assim, nunca fui molestado, pelo contrário. Sou uma pessoa, graças a Deus, comum, igual a todas as outras.

iG - Mas eles chegaram perto e abordaram ou o senhor viu pelo comportamento?

Cacciola - Eu só vi que eles me reconheceram pelo comportamento, mas não falaram nada, não cumprimentaram, não perguntaram nada, enfim não fizeram nada.

iG - O senhor está trabalhando na Itália?

Cacciola - Eu estou trabalhando. Depois de agosto, comecei a trabalhar na Itália.

iG - O senhor faz o quê?

Cacciola - Eu não gostaria de em nenhuma das minhas entrevistas falar da minha vida privada aqui na Itália, porque ela foi tão invadida no Brasil, tão execrada que da minha vida privada aqui na Itália não vou falar nada com ninguém.

iG - Mas descreva seu cotidiano, o trabalho.

Cacciola - Saio de manhã, às oito e meia, nove horas da manhã, almoço em casa, volto seis e meia, sete horas da noite. Tem um clube do lado da minha casa, faço ginástica ali, venho para casa, janto e acabou.

iG - Como o senhor se sustenta na Itália, enfim, depois de todo esse imbróglio?

Cacciola - Eu tenho reservas, declaradas no meu imposto de renda, no Exterior. Declaradas no meu imposto de renda, oficiais. Estou vivendo com essas reservas e agora estou começando a trabalhar e tenho total possibilidade de nos próximos seis meses poder me sustentar com meu trabalho.

iG - Desculpe, eu não entendi. O senhor disse que elas são declaradas no imposto de renda, são oficiais?

Cacciola - São oficiais, são declaradas. Foram remessas que eu fiz para o Exterior em 1998, declaradas no meu imposto de renda. São oficiais, é dinheiro meu, declarado no meu imposto de renda.

iG - E isso dá para viver até mais seis meses?

Cacciola - É com essa reserva que eu vivo. Quero dizer para você que daqui a seis meses no máximo vou conseguir viver às custas do meu trabalho.

iG - O seu livro é assinado conjuntamente com o jornalista Eric Nepomuceno, um jornalista e escritor conhecido. Como foi essa parceria? Ele o entrevistou e escreveu ou o senhor tinha um primeiro texto?

Cacciola -Em primeiro lugar, esse livro não é assinado em conjunto. Esse livro é assinado por mim, eu sou o autor e o único responsável por tudo que está escrito nesse livro. O Eric fez o texto final, o Eric não tem absolutamente nada a ver com o que está escrito. A responsabilidade é 100% minha. É claro que o estilo é dele, mas o estilo dele foi ele conseguir encarnar o Cacciola, na maneira de falar do Cacciola. Qualquer pessoa que me conhece, ao ler o livro, tem a certeza de que fui eu que fiz.

iG - Mas como foi esse trabalho, o senhor acordava e escrevia ou eram conversas com ele?

Cacciola - Esse livro quem ia escrever era o Fernando Morais, mas o Fernando Morais tinha um compromisso e só podia escrever o livro depois do mês do outubro ou novembro. Eu queria esse livro pronto no final do ano. Então quem me apresentou o Eric foi o Fernando Morais. Quero dizer que foi uma excelente apresentação, o Eric é ótimo, é um excelente escritor, uma excelente figura humana, uma pessoa que eu adorei. Aí o Eric veio à Itália, nós sentamos e fizemos um projeto do livro. O projeto foi o seguinte: os capítulos, os assuntos, tudo aquilo. Então capítulo 1 com os assuntos tais, tais e tais, capítulo 2 com os assuntos tais, tais e tais, e assim por diante. Com base nesse projeto, eu pedi um dia para me concentrar no projeto do livro, aí o Eric sentou na minha frente com um gravador e passamos aqui 15 dias mais ou menos gravando em torno de 40 horas de fita, de gravação, depoimentos meus. Ele levou isso para o Brasil, transcreveu tudo o que foi gravado e moldou o primeiro livro, evidentemente do jeito dele escrever. Isso demorou uns três meses, depois ele voltou para a Itália e nós sentamos juntos, eu lendo o livro, capítulo por capítulo, e a gente foi fazendo as modificações, as alterações, os acertos do livro. Aí nós terminamos o livro juntos aqui na Itália, uma segunda vez.

iG – Quando começou o processo de trabalho? Quando o senhor teve a idéia de fazer o livro e quando ele ficou pronto?

Cacciola -Essa idéia não foi minha. Está no livro, foi de um amigo meu, vendo que eu estava numa situação muito ruim, muito deprimido, muito mal. Na verdade, eu não podia começar a trabalhar porque tinha um processo de extradição sendo analisado pelo Ministério da Justiça italiano. Então, se eu começasse a trabalhar ou fazer qualquer coisa aqui na Itália e depois fosse extraditado, o que acontecia? Tinha que voltar para o Brasil. Então foi um período muito difícil, muito ruim para mim. Esse amigo me deu muita força no sentido de que eu escrevesse um livro. Eu decidi escrever esse livro em março, começamos a trabalhar esse projeto em abril e terminamos em novembro.

iG - Hoje, nesse momento, quantos processos judiciais correm contra o senhor no Brasil?

Cacciola - Os processos judiciais que correm no Brasil estão todos no livro.

iG - Unidos em um só?

Cacciola - Não. Tem vários processos. Tem o de peculato, tem os processo em Brasília, processos no Rio de Janeiro.

iG - Na Itália, corre algum? Havia o de extradição que foi recusado. Corre nesse momento algum?

Cacciola - Não. Nem o processo de extradição foi processo. O ministério da Justiça italiano negou a extradição, nem chegou a mandar para a Justiça julgar esse processo. O ministro da Justiça da Itália pode negar a extradição, ele não pode dar a extradição. Se quiser dar a extradição, ele manda para a Justiça e aí a Procura italiana, que é a Justiça italiana, faz o processo de extradição. No meu caso, nem isso aconteceu, o ministro da Justiça negou, acabou. Não tive nenhum processo na Itália contra mim.

iG - E de longe, da Itália, como o senhor acompanha tanto as ações como o cotidiano da vida brasileira? No livro tem várias revelações, passagens que sugerem que está bem informado, o caso do Senado, comentários sobre ACM, comentários recentes.

Cacciola - Eu acompanho tudo, eu me sinto totalmente informado, tudo, tudo eu acompanho.

iG - Como?

Cacciola - Internet, meus advogados, telefone, tudo eu acompanho. Eu tenho acesso a todos os meus processos pela internet, na Justiça, em tudo quanto é lugar, tenho acesso ao site do Senado, posso olhar. Enfim, tenho tudo aqui por internet.

iG - Quando o senhor descreve que saiu da prisão no Ponto Zero, no Rio de Janeiro, e então naquela noite inicia uma viagem para a Itália, sugere, talvez não com toda a clareza, mas passa para o leitor que está iniciando uma viagem sem volta, o senhor chega a dizer que na hora sente isso. O senhor pretende voltar ao Brasil ou não?

Cacciola - Eu digo de forma clara no final do livro que quero voltar. O Brasil é o meu país, é lá que eu tenho meus filhos, tenho minha família, tenho meus irmãos, tenho meus amigos. Mas só que eu espero poder voltar para o Brasil e encontrar um Brasil melhor, mais justo, mais honesto, que respeite as leis, que respeite o direito constitucional das pessoas primeiro se defenderem, antes de acusarem. Está no final do livro.

iG - Qual é a sua expectativa em relação ao efeito que o livro pode ter?

Cacciola - A minha expectativa é uma só: que uma grande quantidade de pessoas possam ler esse livro e entendam a verdade dos fatos. Essa é a minha única intenção, essa é a minha expectativa.

iG - Uma coisa que certamente o senhor deve ter passado muito tempo pensando é qual o impacto que imagina que pode ter sobre o establishment jurídico, juízes, procuradores, etc.

Cacciola -Eu literalmente não estou nem um pouco preocupado com isso, não estou preocupado. Eu acho que pior do que já aconteceu comigo é impossível. Não estou preocupado com isso.

iG – O senhor tem um desejo de vingança, de retribuir talvez ou expor os seus acusadores a uma acusação também.

Cacciola - Eu nunca tive e não tenho. O livro tem como objetivo mostrar os fatos de forma real. Dentro do possível, tudo comprovado e mostrado. Está no relatório da CPI, está nos depoimentos das pessoas-chave, Gustavo Franco e outros, está ali o depoimento do Mercadante, está tudo ali.

iG - No início do livro, o senhor fala várias vezes a palavra canalhice, canalha. Depois tem vários momentos em que aponta um ou outro. Se fosse eleger o arquétipo ou o mais acabado, quem mais veste essa carapuça?

Cacciola - A canalhice foi feita por várias pessoas. O leitor vai julgar quem dessas pessoas foi o maior canalha, mas sem dúvida tem vários que foram canalhas. O leitor julga.

iG – No livro, Cacciola  ataca duramente o então presidente do Banco Central Francisco Lopes, porém ele afirma que não tem desejo de vingança por ninguém, e que o principal objetivo da publicação. Ao mesmo tempo, a história o colocou sob algumas agruras que enfrentou, detenção, vida exposta à execração pública, a imprensa invadindo, o Ministério Público invadindo a casa dele, etc. Nessa altura, depois de tudo isso que aconteceu, mudou seu julgamento dele?

Cacciola - De jeito nenhum. Em primeiro lugar, eu não ataco duramente o Chico Lopes, porque ele no livro é a pessoa de menos importância, não tem o menor peso, o de menor importância é o Chico Lopes. Ele foi um fantoche usado por pessoas muito mais importantes. Mas eu não tenho a menor compaixão. Ao contrário, eu acho que ele foi protegido pela máquina do governo e tudo o que foi feito em termos de Chico Lopes foi muito mais um cinema, porque na realidade nada aconteceu com ele. Ele não foi detido, não aconteceu nada.

iG - A proteção dada, como o senhor diz, pela máquina do governo, o senhor atribui a um desejo de proteger o próprio governo ou a ele pessoalmente, pela trajetória ou o que seja?

Cacciola - Medo dele abrir a boca.

iG - Mas o que ele teria para dizer?

Cacciola - Tente convencê-lo a falar, não eu.

iG - Então nessa altura o senhor o define mais como incompetente ou desonesto?

Cacciola - Os dois.

iG - O senhor acusa o ex-dono do Banco Pactual, Luís Cézar  Fernandes, de ser o responsável por acusações feitas contra o senhor pela revista “Veja”, que por sua vez serviram de base, sustentaram o início da ação no Ministério Público, que acabou o levando à prisão. Qual a prova que tem de que ele foi a fonte da reportagem?

Cacciola - O próprio jornalista Policarpo Júnior.

iG - Apenas aquela suposta declaração dele ou aquela declaração dele por meios interpostos, aquele telefonema?

Cacciola - Suposta, não. Ele declarou isso para o meu advogado de Brasília. Não é suposta, não. Ele nega isso, mas ele declarou para o meu advogado.         

iG - Além disso, qual a prova que o senhor tem de que o que ele diz é falso?       

Cacciola - Veja bem, se fosse verdadeiro, eu seria um criminoso. Se tivesse prova, ele tinha que provar, eu não. O que eu vou provar? Se é mentira, eu vou provar o quê? Se eu digo que é verdade, sou um criminoso. Evidentemente, nem ele tem prova e eu nego 100%, digo que não tinha esquema. Se tivesse esquema, eu não estava aqui na Itália, estava milionário no Brasil.

iG - O senhor também diz que ele é um dos banqueiros brasileiros que se beneficiou de informações privilegiadas. Qual é a prova de que isso tenha ocorrido ou qual o indício de que isso tenha ocorrido?

Cacciola - No livro eu falo isso de forma claríssima. A prova número um é o que ele fez com os sócios. Os sócios podem até negar que ele achacou eles, mas eles foram achacados pelo Luís Cézar  Fernandes. Se foram achacados, é porque tinham o rabo preso. Se foram achacados, é porque tinha um esquema. Se foram achacados, é porque o sr. Luís Cézar  Fernandes tinha provas. Se foram achacados, é porque foi o sr. Luís Cézar  Fernandes que montou o esquema dentro do Banco Pactual, contratando o sr. Rubens Novaes e montando o esquema dentro do banco. Então ele tem todas as provas contra o banco e usou essas provas para achacá-los e tomar o dinheiro do sócio. Em vez de vender as ações por 10, deve ter vendido por 100 ou 50, sei lá por quanto. Pode até ser negado, porque ninguém vai saber como é que foi pago isso.

iG - O senhor no livro critica muito detalhadamente todas as cifras, muito diferentes entre si sobre quanto o Banco Central teria gasto na operação de salvamento do Marka. São cifras disparatadas, uma fala de US$ 1,5 bilhão, outra de não sei quanto. O senhor aponta trecho de um artigo do Maílson da Nóbrega que chega a 56 milhões como o que seria o custo.

Cacciola - Esse é o número real.

iG - Agora, eu pergunto: quando o senhor aponta que outros bancos, esses sim, teriam se beneficiado ou se beneficiaram da informação privilegiada, com a máxi, quanto o senhor acredita que de fato tenham se beneficiado ou quanto tenham lucrado com a informações?

Cacciola - Eu faço esse cálculo no livro muito bem explicado, tudo com base no relatório da CPI. Digo de forma límpida e clara quantos bilhões o governo perdeu vendendo a quantidade de dólares que vendeu na segunda, na terça, na quarta e na quinta-feira. Não relaciono os bancos porque vários bancos entraram, evidentemente. Mas não quer dizer que todos os bancos que compraram tinham esquema. Quem tinha o esquema não é problema meu. Quem tem que investigar é o Ministério Público, seria o Senado com a CPI, seria o Mercadante dar seguimento à acusação e ao depoimento que ele fez, que de forma milagrosa parou de acusar. O PT de repente parou de falar sobre esse assunto, nunca mais falou. A troco de que? Não sei. Talvez seja a troco da campanha milionária que o PT está fazendo hoje para candidato a presidente.

iG – O senhor fala dessa campanha presidencial que se avizinha ou acha que já beneficiou na campanha para prefeito?

Cacciola - Que prefeito? É a campanha de presidente agora, campanha milionária de horário nobre, horário de Jornal Nacional. Eu não vou acusar nomes, nunca acusei nomes. E tem mais, eu só estou falando de Pactual porque o Luís Cézar  Fernandes foi o autor daquela acusação infame que ele fez na Veja. Eu nunca mencionei nenhum banco, nem Pactual. Eu sou do mercado há 30 anos e não vou acusar banco nenhum. Mesmo que eu saiba que tinha esquema, é problema deles e problema do governo, problema do Ministério Público. Não é problema meu, eu não sou investigador. Quanto aos bancos, eu não tenho resposta. Manda ver lá no relatório e manda o Ministério Público e o Senado investigarem isso, não eu.

iG - No capítulo 13, "Uma figura surge das sombras, o achacador", o senhor aponta um esquema de venda de sentenças judiciais, sobre o qual fala-se muito, mas nunca ou raramente se prova alguma coisa. O senhor omite nomes do achacador e mesmo de quem poderiam ser os elos de ligação dele. Isso não é uma omissão ou mesmo um desserviço?

Cacciola - Não é uma omissão. No livro eu falo de forma clara o seguinte: para ser franco, esse doutor Lucas é o mesmo que está nas fitas grampeadas de forma totalmente ilegal pelo Ministério Público e pela Justiça do Rio de Janeiro. Eu não estou omitindo, estou dizendo. Como isso é um segredo de Justiça e está hoje correndo um inquérito policial investigando isso, eu estou colocando no livro e estou repetindo para você agora que só quero ver qual é o final dessa investigação e faço um ponto de interrogação. Não é função minha, é função da polícia e do Ministério Público.

iG - No livro, o senhor retrata de forma bastante negativa o Ministério Público em inúmeras passagens. O senhor entende que o Ministério Público o perseguiu de forma exorbitante e muitas vezes inclusive com irregularidades processuais. O que, no seu entendimento, levou os procuradores a esse comportamento exagerado?

Cacciola - Essa pergunta você deve fazer aos três procuradores do Rio de Janeiro que me acusam, recalcados. Agora, eu quero deixar bem claro o seguinte: eu tenho o maior respeito pelo órgão Ministério Público, acho que todo país desenvolvido, honesto e decente tem que ter um Ministério Público bastante competente. Mas a minha crítica é que dentro do Ministério Público existem procuradores que têm o único objetivo de aparecer, se tornarem vedetes de qualquer escândalo e têm uma enorme capacidade de pré-julgamento e não de fazer de fato investigações sérias e de forma competente. Eles fazem investigações na base de escândalos, usando a imprensa como aliada e a imprensa tem uma culpa enorme em dar o apoio e o espaço que dá a esses procuradores incompetentes, a esses procuradores que têm o único objetivo de aparecer, por recalque ou sei lá porquê. Agora, isso é uma minoria, porque a grande parte do Ministério Público é formada por gente honesta, competente, que está ali para cumprir as verdadeiras funções dele. Então o Ministério Público é importantíssimo. O que não é importante e o que ao meu ver desmerece todo esse crédito do Ministério Público é uma minoria de procuradores que fazem o que fazem de forma totalmente ilegal, injusta e inconstitucional.

iG - Conhecendo o rito processual todo, aquelas sentenças controladas previamente por lobbies, ou achacadores ou por interesses estranhos poderiam acontecer sem uma participação do Ministério Público?

Cacciola - Eu não vou afirmar que existe uma participação do Ministério Público. Mas existe uma motivação e um incentivo por parte de alguns procuradores para que o caminho da Justiça seja esse.

iG - Mas no seu caso, o Sr. acredita, pelo que está me dizendo, que isso ocorre por desejo de aparecer e fazer-se famoso?

Cacciola - Fazer-se famoso ou recalque, sei lá. Está bem claro no livro tudo isso.

iG - Mas não corrupção?

Cacciola - Não, eu não acredito que seja corrupção. Dos procuradores você está falando, né? Não acredito.

iG - As acusações que o senhor faz ao banqueiro Luís Cézar  Fernandes já estão nas barras dos tribunais? Ele o processa, o senhor o processa, ou não?

Cacciola - Ele não me processa. Se ele vai me processar, tem que perguntar a ele. Se eu vou processá-lo, a resposta é: meus advogados é que estão cuidando desse caso.

iG - Um personagem crucial do seu livro, explícita e implicitamente em diversas passagens ou quase em todas as passagens, é a imprensa e também nessa entrevista o Sr. já fez referências ao papel dela. Eu pergunto: o Sr. preserva algum representante da imprensa, algum setor ou indivíduo que tenha tido um comportamento, digamos, que julga correto?

Cacciola - O meu caso foi um caso tão atípico em relação ao comportamento da imprensa que, quando me refiro à imprensa, me refiro à imprensa como um todo. É claro que a “Veja”, através do seu jornalista Policarpo Júnior, eu diria que é a mais forte, é a principal. Eu diria que foi a que teve o comportamento mais desleal, mais desumano, mais absurdo, fazendo acusações sem nenhuma prova e não reconhecendo e não colocando, escondendo e protegendo o Luís Cézar Fernandes. A palavra é horrível..., nem vou falar..., mas... de forma bastante suja, vamos chamar assim, e muito bem colocada no livro, com base em todas as reportagens que a revista “Veja” fez. Então eu diria que a imprensa como um todo agiu de forma exagerada, me transformando no bandido-mór do Brasil, mas a maior motivação, o 'start' e a coisa mais absurda quem fez sem dúvida nenhuma foi a “Veja”. Mas a imprensa como um todo colaborou e contribuiu para criar essa minha imagem negativa, com base inclusive em tudo que eu tenho guardado e está lá até dito na orelha do livro pelo próprio Fernando Moraes.

 

iG - A imprensa tem um comportamento muitas vezes esquizofrênico, um comportamento que vai e vem, muitas vezes ela massacra, metralha um certo tema ou personagem, e depois faz uma expiação de culpa. Isso aconteceu, por exemplo, no famoso caso da Escola de Base, em que a imprensa quase inteira massacrou aqueles professores e depois toda a imprensa passou a publicar sempre artigos mostrando como ela mesma foi errada. O senhor já sente na imprensa hoje os primeiros sinais de mea culpa ou de autocrítica?

Cacciola - Eu não estou esperando e nem estou preocupado em ver a imprensa admitindo um mea culpa. Estou muito mais preocupado em que a imprensa tenha a capacidade de, com base na leitura do meu livro, poder perseguir o que eu estou dizendo no livro, que é o fato real. O fato real é o que o governo fez naquela segunda e naquela terça, sabendo que ia desvalorizar o dólar. Isso está muito bem claro. Então eu gostaria muito que a imprensa pudesse agora esquecer um pouco o Cacciola e tentar de fato esclarecer isso que eu estou colocando no livro. Porque o que eu estou colocando no livro está no relatório da CPI, assinado por aqueles senadores. Ou eles são míopes ou são 100% incompetentes. Pelo amor de Deus, eu nunca vi uma coisa dessas no mundo, o Senado assinar um relatório daqueles e crucificar o Cacciola como o único culpado. É impossível que a imprensa não tenha um jornalista competente, esclarecido, que entenda o que aconteceu e corra atrás. É o Watergate lá dos Estados Unidos. Que tenha um jornalista desses, pelo amor de Deus, é isso que eu peço. Agora, você há de convir, com todo o respeito que eu tenho pela imprensa e você também que é um jornalista, você há de convir que esses jornais botam esses garotos e essas meninas totalmente inexperientes, recém-formados, pagando um salarinho de fome, para tomar conta de um caso desses. Aí botam aquelas manchetes absurdas e vai ficar por aquilo mesmo, porque eles não têm a competência de entender um caso desses. Agora, se tiver alguém na imprensa ou algum órgão da imprensa que tenha de fato alguém competente que queira perseguir essas minhas acusações, que são reais, não são inventadas, você vai ver que o desdobramento desse caso vai ser outro completamente diferente. E talvez lá na frente vá ter um mea culpa em relação ao Cacciola.

iG – Há uma passagem muito sutil, uma frase, em seu livro, quando fala do Banco Matrix. Em algum momento menciona o sucesso que Mendonça de Barros e André Lara Resende tiveram ao longo da sua trajetória, distinguindo-se de economistas clássicos que não eram bons operadores de mercado. E aí o senhor fala que o Matrix foi o único banco que conseguiu passar da teoria econômica para o mercado, ganhando muito dinheiro com o mercado e inclusive com desvalorizações do dólar. Há algo mais do que essa simples frase?

Cacciola -Em primeiro lugar, está faltando um pedaço que você esqueceu. Eu digo que esses economistas estavam cercados de ases do mercado, pessoas muito competentes de mercado. O somatório disso fez com que de fato o Matrix fosse o banco vencedor. Só isso. Agora, cada um interprete do jeito que quiser.

iG - Como o livro tem na desvalorização do Real em 1999 a sua trama principal, aquela referência me sugere a pergunta: o Matrix ou aqueles economistas naquele momento se beneficiaram também daquela desvalorização?

Cacciola - Não digo que eles se beneficiaram. Eu tenho certeza que esses dois economistas eram 100% contrários à política que o Gustavo Franco estava adotando. Daí, com certeza, eles nunca apostaram contra o dólar. Se apostaram, sempre apostaram contra o real, porque a opinião deles eu conhecia, sempre foram contrários à política do Gustavo Franco. É um pouco diferente do que você gostaria que eu dissesse.

iG - Não, eu estou apenas perguntando, quero saber se o seu desejo era sugerir. Evidentemente, eu não desconheço que inúmeros investidores naquela altura apostavam contra o real.

Cacciola - Eles eram uns deles. Eles e um monte de bancos apostavam contra, mas sempre apostaram. O Citibank sempre apostou contra o real. Ele e outros bancos estrangeiros sempre apostaram contra o real. O Matrix também era um banco que sempre apostava contra o real.      

iG - A diferença entre esses e eventualmente aqueles que possam ser os personagens negativos da história estaria no saber o dia da desvalorização e não a aposta macroeconômica na desvalorização?

Cacciola - É claro, é evidente isso. Tem um monte de bancos estrangeiros, tem um monte de clientes multinacionais que a vida inteira apostaram contra o real porque são obrigados, porque têm que defender o seu patrimônio no Brasil, e perderam dinheiro durante três anos. Ora, se eles ganharam dinheiro na desvalorização, é mais do que justo. Eu não critico isso, é mais do que correto.

iG - Esses tantos que de fato perderam naqueles grandes embates em que o Gustavo Franco operava do outro lado da mesa, no balanço de 1995, posse do Fernando Henrique, até aquele dia da megadesvalorização de janeiro de 1999, eles mais ganharam ou mais perderam?

Cacciola - É impossível responder a essa pergunta. Não tenho a menor idéia dos valores, quanto eles perderam e quantos eles ganharam. O que eu quero dizer é que esses bancos atuavam por conta própria e por conta de clientes para defender o seu patrimônio, fazer um hedge com o patrimônio do Brasil, investimento em dólar que eles tinham no Brasil. Nesse lance eu não vejo nada de anormal. Foram os perdedores durante três anos e ganharam na desvalorização, é mais do que justo. Se no balanço eles ganharam ou perderam, eu não sei. Mas a que me refiro no livro não é a esses bancos. Eu me refiro no livro ao que aconteceu na segunda e na terça-feira.

iG - Na sua opinião, o governo Fernando Henrique, o balanço desses quase oito anos é o balanço de um erro na condução da política monetária, da política cambial, ou a desvalorização de 1999 foi um acidente de percurso em sete anos de um período melhor?

Cacciola - Essa pergunta não é que eu não possa te responder. O que eu quero dizer é que não tenho dúvidas de que o Gustavo Franco estava conduzindo a política cambial de forma brilhante, conduziu de forma brilhante na crise da Ásia e na crise da Rússia. O que aconteceu em janeiro de 1999 não foi nenhuma crise, não tinha nada de anormal até aquela sexta‑feira, dia 8. A única anormalidade foi aquele chilique do governador de Minas Gerais, Itamar Franco. Aquilo não deu susto a ninguém, porque o governo imediatamente foi claro, com uma declaração muito bem escrita pelo próprio ministro Pedro Malan, onde dizia que o governo iria honrar e depois se entenderia com o governo de Minas Gerais. Então eu quero dizer que em janeiro não teve crise nenhuma. A crise que teve em janeiro sabe qual foi? Foi o vazamento da desvalorização cambial, daí na segunda e na terça-feira teve uma crise porque todo mundo comprou dólar, quem sabia comprou dólar, acabou. Essa é a grande realidade. Está lá no livro explicado direitinho. A crise foi provocada pelo próprio governo que vazou a informação e aí deu a crise, porque todo mundo comprou ou pelo menos uma minoria comprou sabendo que ia desvalorizar. Eu não tenho dúvida disso. E o Mercadante disse isso de forma límpida e clara. Só que o Mercadante, de forma mágica, depois esqueceu, o PT também esqueceu e nunca mais falou sobre isso.

iG - Quando o senhor várias vezes no livro e agora nessa entrevista fala do Mercadante com esse comentário, entende que há uma proximidade entre ele ou setores do PT e setores do governo, digamos, uma espécie de conciliação por interesse ou por interesse político?

Cacciola - Isso eu não sei avaliar, porque não é minha especialidade. Está certo? Na minha vida sei comprar e sei vender, e mesmo assim demonstrei que não sabia nem fazer isso, perdi meu banco. Então não sei te responder.

iG – Há algo que não foi perguntado e o senhor gostaria de dizer?

Cacciola - Tem uma coisa que você não perguntou e então gostaria de dizer. Em primeiro lugar, eu quero dizer que sou o autor do livro.

iG - Isso nós falamos no começo, está claríssimo.

Cacciola -Como autor do livro, eu tenho direitos autorais do livro. Parte desses direitos eu estou dando, evidentemente, a quem fez o texto final. Agora, a minha parte do meu contrato com a editora está claro no contrato que essa minha parte não será paga a mim, será paga a instituições de caridade que eu vou indicar por escrito depois. Já escolhi uma instituição de caridade e a minha mulher está indo ao Brasil na semana que vem e vai indicar uma outra instituição de caridade lá.

iG - Qual é a que o senhor já escolheu?

Cacciola -Eu preferia dizer depois as duas. Minha mulher vai ver, vai visitar, enfim ela quer ter certeza. Eu não estou no Brasil, está certo? Então ela vai visitar e vai me dar o outro nome também. Eu quero dizer que a minha parte está sendo doada a duas instituições de caridade, talvez três, mas eu diria que devem ser duas só. No contrato está que eu depois mando uma carta dizendo qual é a instituição de caridade e a editora credita diretamente. Então quero dizer que não ganho nenhum centavo nesse livro, o meu objetivo não é vender o livro e ganhar dinheiro, por mais até que eu precisasse. O Fernando Moraes até briga muito comigo: "Alberto, você vai abrir mão de um best-seller?" Eu lá quero saber de best-seller, não fiz o livro para ganhar dinheiro. Escrevi o livro para contar a minha verdade, é a minha verdade. Como ela vai ser interpretada pela imprensa, pela opinião pública, eu não tenho a menor idéia. Confesso a você que essa é uma expectativa forte para mim, mas é uma coisa que a mim não preocupa. O que me alivia é que estou com a minha consciência tranqüila e, para dizer a verdade, eu lavei a alma escrevendo esse livro. Foi uma oportunidade que eu tive de colocar toda a história com início, meio e fim. E assumo toda a responsabilidade por aquilo que está escrito no livro. Isso é que é o importante. Essa é a minha única satisfação, para dizer a verdade. Quero dizer também para você que eu jurei que nunca mais vou ler esse meu livro. Eu li essa versão final que eu já tinha redigido há uma semana atrás, li essa versão final no sábado. Você não tem noção do quanto me faz mal.

iG - Por quê?

Cacciola - Eu me sinto mal, por mais que eu administre até bastante bem. A sensação de ódio, a sensação de vingança, a sensação de raiva, eu administro para não ter ódio, nem vingança e nem raiva, porque ódio, vingança e raiva só faz mal a você mesmo, você se destrói. Então eu não quero me destruir. Estou aqui na Itália sobrevivendo e lutando para ter uma cabeça lúcida para poder recomeçar a minha vida. Ler esse livro me faz um mal que você não tem idéia, porque ali está a minha verdade. Eu passei muito mal, me senti muito mal na noite de sábado, acordei domingo péssimo. Eu não vou ler nunca mais esse livro.



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