A indústria automobilística, que vem batendo recordes de vendas, vai desacelerar em 2008. A previsão das montadoras é de um crescimento de 8% a 10%, menos da metade do previsto para este ano, que deve ficar próximo a 22%.
De janeiro a agosto, o setor cresceu 27,3% em relação a igual intervalo de 2006, com vendas de 1,53 milhão de veículos, o melhor desempenho da história para o período. Agosto foi o melhor mês, com 235,2 mil unidades vendidas, incluindo caminhões e ônibus, 32% mais do que no mesmo mês de 2006.
O crescimento menor, segundo o presidente da Ford do Brasil, Marcos de Oliveira, não é sinal de crise de demanda. "Nenhum setor consegue crescer a um ritmo de 20% por longo período", analisa. Para ele, como a base deste ano será elevada, na casa de 2,3 milhões de veículos, um aumento de até 10% ainda será significativo, sobretudo porque continuará acima da expansão prevista para o Produto Interno Bruto (PIB), cujas projeções mais otimistas não passam de 5%.
Oliveira diz que o crédito continuará sendo o combustível do mercado automobilístico, mesmo com a crise imobiliária nos Estados Unidos, que afetou vários mercados mundiais, e as apostas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) vá diminuir o ritmo de queda da taxa básica de juros.
A Ford foi a primeira montadora a lançar, no mês passado, planos de até 84 prestações (sete anos). "Vamos manter esse programa", afirmou. Para 2008, ele acredita que os prazos dificilmente irão além dos praticados atualmente.
Para ele, a crise imobiliária nos EUA não é preocupante, por enquanto, e não alterou os programas da marca. "O problema deve ser passageiro e, considerando que a economia americana não vá sofrer mais nenhum choque, as expectativas para 2008 não serão afetadas." "Não vejo motivo para que a indústria cresça ao menos uma vez e meia ou duas vezes mais do que o PIB no próximo ano", acrescentou o diretor de compras da Fiat, Vilmar Fistarol. Segundo ele, para dar conta da demanda e oferecer preços competitivos, montadoras e fabricantes de autopeças estão buscando componentes em locais que ofereçam baixos custos. Vários componentes vindos da China, por exemplo, chegam ao País "na pior das hipóteses 15% mais baratos" que os nacionais, já descontados os custos de transporte e impostos, calcula Fistarol.
A presidente da consultoria Booz Allen, Letícia Costa, projeta vendas de 2,5 milhões de veículos em 2008, ante pouco mais de 2,3 milhões de unidades previstas para este ano. A produção deve saltar de 2,8 milhões para 3 milhões de veículos, enquanto as exportações, prejudicadas pela valorização do real, deverão cair de 750 mil para 700 mil unidades. A importação baterá na casa de 250 mil unidades, ante 220 mil esperadas para 2007.
O setor aguarda para as próximas semanas um pacote de incentivo à produção, com programas de investimentos especiais, prometido pelo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. O ministro diz que a indústria precisa ampliar sua capacidade produtiva atual de 3,5 milhões de veículos ao ano para 5 milhões, projeção considerada superestimada por algumas áreas da indústria.