SÃO PAULO - O aumento da aversão a risco no cenário internacional motivou um forte movimento de correção sobre os principais ativos financeiro locais ontem. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) chegou a cair 6%, enquanto o dólar teve a maior alta de mais de um ano e os juros futuros avançaram. O mau humor encontrou suporte no aumento das incertezas acerca dos efeitos dos problemas no setor imobiliário nos Estados Unidos sobre o mercado de crédito e a economia norte-americana, após novas notícias desfavoráveis relacionadas à questão.
O Ibovespa encerrou a jornada com declínio de 3,76%, 53.893 aos pontos - no menor valor desde 26 de junho último. O volume financeiro alcançou R$ 6,04 bilhões. O dólar subiu 3,26%, a R$ 1,9250 na compra e R$ 1,9270 na venda. Trata-se da maior variação positiva desde 24 de maio de 2006, quando a moeda subiu 4,71%. O giro interbancário (D+2) somou US$ 4,5 bilhões, de acordo com informações do mercado. Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM & F), a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2010 subiu 0,33 ponto, a 11,25% ao ano.
Na avaliação do economista-chefe do Deutsche Bank, José Carlos Faria, a piora do mercado brasileiro refletiu um aumento da aversão a risco no cenário internacional, decorrente do temor com a repercussão dos problemas no setor de imóveis dos EUA sobre a economia norte-americana e da preocupação com o aumento do custo do capital, o que afetaria o custo financeiro dos empréstimos para operações de fusões e aquisições. Faria ponderou, entretanto, que ainda não é possível saber se esse movimento é temporário ou permanente. O comportamento das bolsas em Nova York e dos títulos do Tesouro norte-americano referendou maior aversão a risco no cenário global. O índice Dow Jones caiu mais de 2%, enquanto o treasury de dez anos indicou queda de 0,11 ponto percentual no retorno ao investidor, a 4,78% ao ano, sugerindo forte procura por tais papéis, considerados mais seguros. Resultados fracos de construtoras norte-americanas e a queda nas vendas de residências nos EUA serviram como gatilho para a piora do humor, afetado também por novas informações sobre fundos de hedge com problemas.
Na bolsa paulista, todas as ações listadas no Ibovespa fecharam no vermelho. As maiores quedas foram verificadas pelas preferenciais da Klabin, que caíram 6,90%, a R$ 6,20, apesar do aumento no lucro no segundo trimestre. A fabricante de papéis ganhou R$ 207 milhões nos três meses até junho de 2007 frente aos R$ 98 milhões de igual trimestre de 2006. A receita líquida ampliou-se em 7,1%, para R$ 715 milhões.
Em segundo lugar, as ações ON da Natura perderam 6,89%, a R$ 24,30. Ontem, após o fechamento da Bovespa, a fabricante de cosméticos informou que nos meses de abril a junho de 2007 o ganho da companhia foi de R$ 129,4 milhões, praticamente o mesmo do ano passado (R$ 129,3 milhões). Houve estabilidade também no confronto entre os primeiros semestres: o ganho da Natura somou R$ 209,7 milhões neste ano e totalizou R$ 210,9 milhões em 2006. As ações das empresas controladas pelo Grupo Oi também fecharam em queda. A companhia terminou o segundo trimestre com lucro líquido de R$ 467,5 milhões, acima dos R$ 282,6 milhões somados em período correspondente do ano anterior. Telemar PN caiu 2,10%, a R$ 39,99. Telemar ON recuou 4,96%, a R$ 67. E Telemar Norte Leste PNA perdeu 2,36%, a R$ 62. No mercado de câmbio, cenário mais pessimista não afastou o Banco Central (BC) dos negócios, mas diminuiu o seu apetite. A instituição pagou R$ 1,9250 para comprar dólares no segmento à vista, em operação encerrada às 15h23. A estimativa é de que tenha enxugado aproximadamente US$ 65 milhões.
As operações com DI ainda eram influenciadas pela ata da última reunião do Copom, que reduziu a taxa Selic de 12% para 11,50% ao ano, por quatro votos a três - que preferiam uma redução de 0,25 ponto. Na avaliação do economista-chefe da Votorantim Asset Management, Fernando Fix, a ata afasta o cenário muito otimista, com muitas quedas de 0,5 ponto no juro básico, ao citar forte aquecimento da demanda; mas também não dá sinais de interrupção no processo de redução do custo do dinheiro. Mesmo os três membros do Copom que votaram pelo corte de 0,25 ponto defenderam a opção por entender que isso prolongaria o processo de corte do juro, disse.
(Paula Laier | Valor Online)