Chema Ortiz e Susana Madera Quito, 5 jul (EFE).- O presidente do Equador, Rafael Correa, disse, em entrevista exclusiva à agência Efe, que a América do Sul deve deixar para trás processos de integração "mornos", marcados pelo aspecto comercial, e avançar em uma visão de desenvolvimento integral no estilo da União Européia (UE), com uma moeda única.
"Precisamos nos adaptar aos sinais dos tempos. Antes, em processos muito mornos de integração, esta era sub-regional", disse Correa, em referência à Comunidade Andina de Nações (CAN) e ao Mercosul.
Correa disse que, nos últimos vinte anos, período que definiu como uma "longa e triste noite neoliberal", a integração "teve um tom muito comercial, mercantilista".
"Hoje, a América Latina vive uma mudança de época, de início do século XXI, Governos socialistas, progressistas, democráticos em toda a região, superando essa visão mercantilista, com uma vocação integracionista que não é mais sub-regional, mas regional, pelo menos no nível da América do Sul", disse.
Correa disse que, nas reuniões de cúpulas regionais, ele e os outros líderes têm apontado que a CAN e o Mercosul "devem convergir o mais rapidamente possível", embora existam resistências até mesmo por parte das burocracias dos dois blocos, afirmou.
No entanto, ressaltou que "há uma vontade de integração muito forte na maioria dos Governos da região".
O presidente acrescentou que os líderes da área concordam em que a União de Nações Sul-americanas (Unasul) deve ser encarregada de processos como a infra-estrutura, a tecnologia, a pesquisa conjunta e o credenciamento de universidades, entre outros.
"Acredito que, neste momento, existam na América do Sul muitos Governos socialistas, a maioria: Michelle Bachelet (Chile), Hugo Chávez (Venezuela), Néstor Kirchner (Argentina). Mas obviamente não é possível passar receitas de um país para o outro", afirmou.
Correa destacou que, independentemente dos nomes, os princípios são os mesmos: supremacia do trabalho sobre o capital e a busca de uma maior eqüidade social "na região mais desigual do mundo, a América Latina".
A ação coletiva tem um papel fundamental para o desenvolvimento dos países e para superar a "falácia" do individualismo e da concorrência, afirmou. A ação coletiva em nível social - destacou - se expressa por meio do papel do Estado na economia, na área social e no desenvolvimento em geral.
O presidente equatoriano disse que, para além de "grandes pontos em comum" entre seus colegas, também há estilos diferentes que se devem à realidade de cada país. "Aqui, seguiremos o socialismo do século XXI equatoriano".
Para Correa, um dos aspectos que marcarão a integração será a adoção de uma moeda comum.
O Equador chegaria a esse ponto superando a dolarização, que adotou em 2000 e que o presidente promete manter durante seu mandato, previsto para acabar em 2011, apesar de não concordar com ela.
"A dolarização é insustentável" no longo prazo, afirmou, ao assinalar que a medida, entre outros problemas, leva a desequilíbrios externos "terríveis".
Nesse sentido, lembrou que, antes da dolarização, o déficit comercial não petrolífero equatoriano ficava aquém dos US$ 600 milhões. No ano passado, porém, chegou a US$ 4 bilhões.
Correa lembrou que a alta receita equatoriana com o petróleo e as remessas dos emigrantes sustentam, por enquanto, a dolarização, mas alertou que "no médio e no longo prazos, é muito difícil que um país subdesenvolvido" tenha um crescimento firme "sem uma moeda nacional ou regional".
"Se a dolarização é uma idéia tão boa, por que o resto da América Latina não dolarizou?", questionou.
Para Correa, "na globalização do século XXI, a moeda nacional de economias pequenas, de baixa produtividade, simplesmente não sobreviverá. Temos que criar uniões políticas, econômicas de maior tamanho, e monetárias, no estilo da UE", disse, enfatizando sua defesa de uma moeda comum latino-americana. EFE sm ep