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Análise: Câmbio testa de novo barreira de R$ 1,90

04/07 - 08:48 - Valor Online

SÃO PAULO - O mercado de câmbio se prepara para um novo ataque à barreira do R$ 1,90 por dólar. Por duas vezes, os investidores chegaram a testar esse limite. Tanto no dia 1º quanto no dia 19 de junho, a moeda americana fechou cotada a R$ 1,9060. Mas o assalto final à fronteira foi sendo adiado por causa do surgimento de novas e variadas turbulências externas. Ontem, por breves momentos, o dólar chegou a ser vendido por exatamente R$ 1,9060, em queda de 0,57% em relação à véspera. Mas não houve combustível suficiente para o rompimento: à tarde, o marasmo predominou nas mesas porque os pregões americanos fecharam mais cedo numa antecipação do feriado da Independência que acontece hoje. E o dólar encerrou o dia a R$ 1,9110, em baixa de 0,31%. Hoje, pela mesma razão, não deve haver todo o gás necessário para a investida.

Deve faltar energia externa num ambiente em que a interna já não é mais tão abundante. O Banco Central (BC) divulga hoje o fluxo cambial de junho. Junto com ele, as posições vendidas dos bancos. Recorde-se que elas deram um salto no mês anterior, dos US$ 7,86 bilhões do final de abril para US$ 15,79 bilhões em maio. Depois das restrições à exposição cambial das instituições baixadas pelo BC no dia 8, espera-se que elas tenham se reduzido. Não se deve confundir exposição cambial com posição vendida . Esta não sofre nenhum tipo de limitação. O banco pode ter o equivalente a seu patrimônio em posições vendidas em dólar, desde que não excedam a 30% pelo critério da exposição, que inclui todas as posições ativas e passivas em moeda estrangeira. Mesmo assim, a aposta dos analistas é de que elas tenham caído bem. As arbitragens externas, cuja estação final são os pregões de derivativos da BM & F, ainda comandam o movimento de super-apreciação cambial. Os hedge funds não se importaram ontem com a divulgação de indicador ruim sobre o mercado imobiliário americano. Os americanos se mostraram, em maio, menos dispostos a adquirir moradias usadas. De acordo com a Associação Nacional de Corretores de Imóveis dos EUA, o índice de vendas pendentes recuou 3,5%, de 101,2 em abril para 97,7 pontos no mês posterior, o menor índice desde setembro de 2001, quando o índice ficou em 98,1. Esse dado negativo foi compensado por outro, bem melhor, referente às encomendas às fábricas americanas. Apesar de terem caído 0,5% em maio, em oposição à alta de 0,5% verificada um mês antes, elas cederam menos que as projeções de analistas, de um retrocesso de 1,2%.

O mercado de juros futuros da BM & F persiste num mundo à parte. Com exceção do contrato mais curto, para a virada do mês, que recuou 0,02 ponto, para 11,69% - encaminhando-se para incorporar a expectativa de que o Copom irá cortar a Selic em 0,50 ponto em sua reunião do dia 18 -, os demais subiram. O contrato mais negociado, para janeiro de 2009, avançou 0,02 ponto, para 10,63%. O DI futuro parece não entender que, enquanto o dólar estiver afundando, não haverá necessidade de o Copom diminuir ou mesmo interromper o ritmo declinante do juro básico. Apenas uma grave crise externa, não meramente financeira, mas com impacto no lado real da economia mundial, poderia provocar uma alta do dólar capaz de produzir efeitos negativos sobre a inflação e, só então, exigir providências monetárias. O DI opera como se considerasse tal crise inevitável. Na primeira quinzena de junho, a crise externa mostrou uma uma face dupla, capaz de amalgamar num mesmo bolo assustador tanto o lado financeiro quanto o real. A inadimplência de mutuários deteriorou as carteiras alavancadas de fundos de hedge. Ao venderem títulos do Tesouro americano, elevando o juro do T-10 para até 5,30%, tais fundos forçaram a alta das taxas das hipotecas para até 6,90%. Os consumidores americanos, como observa o economista Marcelo Ribeiro, da Pentágono Asset, passaram a ligar os pontos : juros, mercado imobiliário, crédito, hipotecas, consumo passaram a ficar encadeados na cabeça dos já excessivamente endividados consumidores. Resultado: se retraíram. Aqui entra o lado real: as importações caíram. A queda nas importações nos EUA revela desaceleração na demanda doméstica. As exportações asiáticas para os EUA tambem estão em queda. As exportações chinesas continuam firmes, mas por quanto tempo? , indaga Ribeiro. Não parece muito prudente ignorar, como se fez ontem, indicador ruim sobre o setor imobiliário. Seus efeitos negativos se espraiam rapidamente pelo mundo financeiro americano e o sentimento dos investidores/consumidores. Mas o fato de os T-10 terem subido apenas de 4,99% para 5,04% pode revelar que o resgate de fundos problemáticos pode ter sido concluído com sucesso.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)


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