Na quarta-feira, a cidade de Turim promoverá uma festa para 250 mil pessoas que vai durar uma noite inteira. O objetivo é celebrar o lançamento do novo carro da Fiat.
Haverá um espetáculo de sons e luzes e queima de fogos de artifícios nas margens do rio Pó. Estão programados eventos especiais em praças públicas, bares e restaurantes por toda a cidade.
Este tipo de coisa costumava acontecer regularmente na cidade natal da Fiat, mas, nos últimos anos, o estado de espírito de Turim andava depressivo. Os Agnellis, os príncipes dirigentes, se foram. Funcionários da indústria automobilística foram dispensados.
O evento desta semana sinaliza a chegada do novo Fiat 500, um minicarro moderno projetado para lembrar o minúsculo Cinquecento de 1957, que pôs muitos italianos sobre quatro rodas pela primeira vez. Simboliza a renascimento da maior empresa industrial da Itália. Turim está dizendo - a Fiat está de volta.
Talvez ainda seja muito cedo para proclamar a volta da dolce vita, mas a Fiat conseguiu uma das mais notáveis recuperações dos últimos tempos.
O homem responsável por isso foi um forasteiro. Sergio Marchionne é italiano de nascimento mas foi criado na Canadá e, até ingressar na Fiat, nunca havia trabalhado na Itália. Quando foi nomeado diretor-presidente, em 2004, a situação financeira da Fiat era desoladora. Naquele ano, a empresa devia 10 bilhões e tivera um prejuízo de 1,9 bilhão em 2003.
Em 2006, o Fiat Group obteve um lucro de € 2 bilhões e pagou € 2,5 milhões em dividendos - pela primeira vez em quatro anos. A dívida era de menos de € 1,8 bilhão, e a Fiat tinha € 8 bilhões em moeda corrente. O preço das suas ações foram às alturas. A comunidade empresarial italiana é unânime - Marchionne fez um milagre.
Como ele fez isso? Ele diz que a situação desesperadora da empresa lhe permitiu tomar medidas drásticas. "Tive uma enorme liberdade porque a condição da empresa era péssima. Eles já tinham tentado tudo." Antes da vinda de Marchionne, a Fiat já tinha pensado seriamente em abandonar a indústria automobilística ou, ao menos, se fundir com uma outra montadora. Antes a maior montadora de carros da Europa, perdera 50% da sua participação no mercado italiano de carros. A reputação de suas antes reverenciadas marcas - Fiat, Alfa Romeo e Lancia - era horrível no que diz respeito à qualidade e confiabilidade. O Fiat Group se diversificou para várias segmentos, de serviços bancários a energia, e pareceu ter perdido o rumo.
O declínio foi longo e gradual, mas atingiu seu pico com a morte de Gianni Agnelli, em 2003. Ele era o presidente do conselho do Fiat Group, 30% do qual pertence à família Agnelli. Gianni, neto do fundador da Fiat, foi um dos grandes industriais-estadistas da Europa, presidindo o crescimento pós-guerra da Fiat. No seu auge, era o homem mais poderoso da Itália.
A família Agnelli tem sido assolada pelo infortúnio: Umberto Agnelli morreu há três anos aos 69 anos, não muito tempo após ter assumido a presidência da Fiat no lugar do irmão. O filho de Umberto, Giovanni Alberto, que estava sendo treinado para o cargo máximo, sucumbiu a um câncer de estômago em 1997 aos 33 anos. O único filho de Gianni, Edoardo, cometeu suicídio em 2000. Sem uma linha direta de sucessão, Luca di Montezemolo, o diretor-presidente da Ferrari (também propriedade da Fiat), foi convidado pela família para ser o presidente do conselho.
Montezemolo indicou Marchionne, que logo percebeu que a divisão de carros estava desaparecendo rapidamente. Em vez de exigir uma demissão em massa e o fechamento de fábricas, ele partiu para uma reestruturação radical, desmontando a administração e a burocracia da Fiat.
Ressurreição A mudança na cultura da empresa foi importante, mas o segredo para a ressurreição da Fiat Auto foi a renegociação que Marchionne fez de um contrato fechado com a General Motors em 2000.
A então próspera GM tinha adquirido uma participação acionária de 20% na divisão de carros da Fiat. No contrato, comprometeu a que, se a Fiat quisesse, numa data posterior compraria 100% da Fiat Auto. Em fevereiro de 2005, quando a Fiat estava no sua maré mais baixa, Marchionne foi para Detroit reunir-se com o presidente da GM, Rick Wagoner. O objetivo: fazer com que a GM comprasse sua parte na Fiat.
Foi um risco. Mas a sorte da GM também tinha piorado depois que a empresa fizera a transação, e Marchionne apostou que a empresa talvez quisesse se livrar da sua parte. O resultado foi que a GM concordou em devolver suas ações da Fiat e pagar 1,5 bilhão para se livrar do acordo que não tinha mais meios de manter.
De volta a Turim, o rompimento da aliança entre Fiat e GM foi apresentado como um triunfo. Anúncios proclamavam que "a Fiat é agora inteiramente italiana de novo." Os compradores do seu país natal entenderam a mensagem - e a participação da Fiat no mercado subiu.