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Análise: Em queda, juro futuro ignora meta de 4,5%

27/06 - 09:21 - Valor Online

SÃO PAULO - Os juros caíram ontem no mercado futuro da BM & F mais em função da ausência de tensões explícitas nos pregões americanos do que da decisão do CMN de fixar a meta de inflação para 2009 em 4,5%. Amplamente esperada pelas instituições, a extensão pelo quinto ano do alvo central da política monetária não desagradou ativamente o pregão de DI futuro. A decepção, apenas verbal, pois os analistas queriam redução da meta para 4%, não se traduziu em negócios efetivos.

Se o mercado entendesse que a manutenção da meta por mais um ano seria sinal de leniência monetária, as projeções mais longas de CDI teriam subido sob o argumento de que, se o Banco Central (BC) se recusa a combater agora pressões inflacionárias latentes apenas para cumprir uma meta elevada, será forçado a aumentar os juros no futuro. Mesmo o contrato mais negociado, para janeiro de 2010, o palco preferido para a dança especulativa dos investidores estrangeiros, recuou ontem, embora com menor intensidade que os outros. Ele cedeu 0,01 ponto, para 10,78%, enquanto o referente à próxima virada de ano perdeu 0,06 ponto, para 11,20%. Uma reação negativa do DI futuro passaria um recado absurdo: o de que a decisão do CMN abala a credibilidade do Copom. Nada disso. Não será porque a meta de 4,5% continuará valendo por mais dois anos que o Copom pautará suas ações por menor vigilância ou parcimônia. Na verdade, o mercado sabe que os 4,5% são um teto para a inflação. O BC persegue um IPCA efetivo localizado na banda inferior da meta de inflação, maior do que 2,5% e menor do que 4,5%. Se alguém pensou nos 3,5% projetados pelo boletim Focus para os próximos 12 meses estará bem perto da verdade. Ou seja, a opção feita ontem pelo CMN não interfere em nada na política monetária, nem arranha a credibilidade do BC. Mesmo porque o fator que traz o IPCA para o centro real da meta de inflação, os 3,5%, esteve longe da pauta de ontem do Conselho. Trata-se da taxa de câmbio.

Se o CMN quisesse de fato acelerar a queda da taxa de juros não bastaria a fixação de uma meta de 4,5% ou mesmo a sua elevação para 5%. Teria de transformar o sistema de metas inflacionárias em regime de metas cambiais. Teria de obrigar o BC a perseguir uma taxa de câmbio de, por exemplo, R$ 2,10 para dezembro próximo, R$ 2,20 para o final de 2008 e R$ 2,40 para 2009. Tais metas, mantidas todas as outras variáveis macroeconômicas (superávits em transações correntes, saldos alentados na balança comercial, investimentos estrangeiros expressivos, crescimento econômico mundial e vasta liquidez internacional) implicariam em Selic menor e IPCAs maiores. Embora seja o câmbio o artífice da inflação baixa, ele não está em jogo. Oficialmente, a Selic é usada para calibrar o IPCA, não a taxa de câmbio. Mas, na prática, ocorre o inverso. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não precisaria, contudo, atropelar os estatutos do sistema de metas apenas para assegurar a ausência de constrangimentos oficiais em relação ao Copom. Mantega disse, após o CMN, que o BC persegue a menor taxa de inflação possível . Não é isso. Por definição legal, o Copom persegue os 4,5% e não precisa se explicar formalmente se o IPCA descer a 2,5% ou subir a 6,5%. Mas a delegação dada a ele é para buscar 4,5%, não 2,5% ou 3,5%. A idéia-chave do sistema - a de que as expectativas de inflação devem convergir para as metas - é desvirtuada se a sociedade não sabe ao certo qual o alvo real que está sendo mirado. Se o CMN finge não ligar para a taxa de câmbio, a recíproca é sinceramente verdadeira. O dólar se locomoveu de novo estritamente para acompanhar o sobe-e-desce do mercado de ações de Nova York. E fechou em alta de 0,05%, cotado a R$ 1,9550, porque o índice Dow Jones encerrou o dia em baixa de 0,11%. Os dois indicadores divulgados ontem sobre a economia americana não debelaram as apreensões. Ambos relataram uma desaceleração da economia americana. E, embora ruins, não sinalizaram a necessidade de início de um ciclo de afrouxamento monetário. O índice de confiança do consumidor caiu de 108,5 para 103,9 em maio. E as vendas de casas novas cederam 1,6%. As taxas de juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano quase não se alteraram. Subiram levemente de 5,08% para 5,09%. Mas o risco-Brasil, cujo piso histórico, de 138 pontos-base, foi estabelecido no último dia 18, avançou mais dois pontos, para 156 pontos-base. Os investidores externos persistem com o dedo no gatilho, caso ocorra alguma quebra estrepitosa de hedge fund, caso o Fed resolva inovar no texto do comunicado de sua reunião de amanhã, caso o PCE fuja do consenso na sexta-feira.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)


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