Gonzalo Robledo Tóquio, 19 jun (EFE).- Ken Kutaragi, o pai do videogame PlayStation, deixou hoje o comando da Sony Computer Entertaintment, deixando um histórico de talento, sucessos e fracassos na história do pioneiro dos jogos em terceira dimensão.
O executivo de 57 anos passará a ser presidente de honra de uma das divisões mais rentáveis do gigante japonês da eletrônica. Ele viveu o seu auge em 2005, quando, após vender os primeiros 100 milhões de unidades do PlayStation, recebeu nos Estados Unidos o prêmio Emmy para Tecnologias em Novos Meios.
Kutaragi deixa o cargo de presidente devido a uma reestruturação do grupo Sony. Mas a sua saída será marcada pelas dúvidas sobre as verdadeiras razões para a renúncia do inovador e talentoso engenheiro, numa empresa japonesa que prima pela liberalidade na hora de experimentar novas tecnologias e produtos.
Ken Kutaragi inventou o PlayStation em 1994, e desenvolveu a versão PS2 em 2000. Mas caiu em desgraça com o PS3, lançado em novembro após constantes atrasos.
Para o engenheiro, o PlayStation "descobriu um mundo novo e trouxe uma nova forma de entretenimento interativo às famílias".
Ele já foi comparado a Steve Jobs, da Apple. Da mesma forma que seu colega americano, teve que enfrentar diretores e apostou em tecnologias e conceitos desconhecidos. O japonês, porém, cometeu o pecado da indiscrição.
O problema veio quando ele reconheceu em público os defeitos de fabricação de uma filial da Sony no caso das baterias de lítio que produziram incêndios em computadores portáteis nos Estados Unidos e no Japão.
Milhares de baterias foram retiradas do mercado. Na ocasião, a Sony emitiu um comunicado explicando que algumas partículas metálicas poderiam entrar em contato com certos componentes de suas baterias, com o risco eventual de incêndio.
Alguns analistas, como Yasunori Tateishi, autor de uma respeitada história da Sony, afirmaram que a empresa criadora do lendário Walkman sofreu assim as conseqüências de uma reestruturação que tinha provocado 30 mil demissões em três anos.
Tateishi afirmou que com as demissões em massa "a Sony perdeu não apenas gordura, mas também músculos". A análise ganhou a confirmação de Kutaragi, que admitiu em entrevista coletiva que a habilidade industrial da empresa estava em queda.
O comentário veio depois de a Sony Computer Entertaintment anunciar o atraso no lançamento da última geração de seu videogame na Europa, inicialmente previsto para novembro de 2005. O adiamento, o segundo do PS3, foi causado pela dificuldade de produzir peças do leitor de disco Blu-ray. Kutaragi não hesitou em culpar a Sony, por ter prometido que entregaria os componentes.
A conseqüência imediata do atraso foi a perda de vantagem para a Nintendo, que lançou seu inovador Wii, enquanto a Microsoft avançava com seu Xbox 360.
O problema revelou o mal-estar entre os diretores da Sony e levou a especulações sobre a falta de sinergia entre as diversas divisões do grupo, que funcionam aparentemente como empresas sem relação entre si.
Também deixará a Sony o ex-presidente Nobuyuki Idei. Ele continuará como assessor, mas sem poderes decisórios, e se dedicará a negócios privados de consultoria.
Kutaragi disse ao jornal econômico "Nikkei" que continuará ligado à empresa, mas vai se concentrar na inovação, especialmente em tecnologias da informação.
Após prometer novas conquistas em tecnologia de chips que ampliem a capacidade dos sistemas informáticos atuais, Kutaragi afirmou que seu objetivo "é continuar criando o futuro". EFE gr mf