O atacado que também vende diretamente para o consumidor - negócio que ganhou o apelido de "atacarejo" - caiu no gosto popular. Empresas como Atacadão, Assai, Tenda e Roldão, que atendem pizzarias, vendedores de cachorro-quente, restaurantes e pequenos supermercados, mas também o consumidor final, numa operação mista de atacado e varejo - daí o apelido - ganham força e brigam cada vez mais com as redes tradicionais.
No primeiro trimestre, esse negócio atraiu 250 mil domicílios a mais na comparação com o mesmo período de 2006, segundo pesquisa feita pela Nielsen em 8.700 lares em áreas urbanas de todo o País. "O atacarejo impressiona o consumidor no aspecto preço e volume", diz Sérgio Giorgetii, ex-atacadista e hoje consultor de distribuição e varejo. "Ele observa uma quantidade imensa de mercadorias empilhadas, caixas onde lê preços unitários e da embalagem fechada e fica com a sensação de que economiza ao levar mais produtos para casa." O apelo do preço chama a atenção de todas as classes sociais, mas o destaque é a presença do consumidor de baixa renda. "Um terço dos consumidores, independentemente de classe social, vai atrás de preços e o atacado é uma operação de custo muito baixo, porque oferece pouquíssimos serviços", diz Sussumu Honda, presidente das Associação Brasileira de Supermercados (Abras).
A pesquisa da Nielsen mostra que os gastos da classe C no atacado, que representavam 37% das suas despesas no primeiro trimestre de 2006, se elevaram para 43% este ano. "A participação já se iguala às despesas das classes A/B no atacado", diz o gerente de atendimento da Nielsen, Olegário Araújo. Ele observa também que 19% dos lares brasileiros freqüentaram ao menos uma vez o atacado em 2006 e que o Estado de São Paulo concentra mais da metade dos gastos nesse canal.
O atacarejo está atento a esse movimento e tem aumentado os investimentos em novas lojas. O Roldão, com cinco lojas na capital paulista e uma em Osasco (SP), tem planos para a abertura de mais três unidades este ano e outras cinco no próximo, todas na região da Grande São Paulo. Em dois anos, a empresa pretende dobrar o faturamento para chegar a R$ 1 bilhão em vendas anuais.
"É o melhor momento para investir e crescer", diz o diretor-comercial do Roldão, Mario Ivo Donizetti Paes. O Roldão começou como um atacado distribuidor há sete anos, mas há três anos aposta no atacarejo. Hoje, 40% do faturamento já vem das vendas ao consumidor, mas em lojas da periferia essa participação sobe para até 70%. "Nosso foco é a pequena empresa, mas não se pode fechar o olho para o consumidor final." O Assai abriu recentemente a 14ª loja em Ribeirão Preto (SP), inaugura mais três até dezembro e tem como meta manter o ritmo de quatro inaugurações por ano. A intenção é fechar 2007 com faturamento de R$ 1,3 bilhão. A rede não faz distinção entre empresas ou consumidores finais. "Até dois anos atrás, 80% do faturamento era proveniente de empresas", diz Moisés Allaion Ferreira, gerente-comercial do Assai. "Hoje, as vendas ao consumidor já são 50% da receita." A expansão das vendas para o público que também freqüenta o supermercado significa aumento da concorrência com as grandes redes. O Extra, por exemplo, reagiu rápido quando o Tenda se instalou em um terreno vizinho de uma loja da rede em em Carapicuíba (SP). O hipermercado, do grupo Pão de Açúcar, estendeu uma faixa para comunicar que cobriria "qualquer oferta anunciada pelo Tenda". Aproveitou também para lembrar em outras faixas que procederia da mesma forma em relação a outros concorrentes. O recado era para o Roldão, Atacadão e outros supermercados situados num raio de pouco mais de um quilômetro.
"O atacarejo é, sem dúvida, um novo modelo de loja que os supermercados têm de aceitar", diz Honda, da Abras. "Ele faz sucesso porque opera com custos baixíssimos e muitos varejistas têm apostado neste novo formato. " O Tenda, por exemplo, com nove lojas e planos de ter 12 unidades até o fim do ano começou como atacadista distribuidor, há seis anos. Depois de uma cisão no grupo, em 2003, focou seu negócio no chamado atacado de auto-serviço, onde se compra e se leva os produtos na hora. Hoje, a rede tem cerca de 70% de suas vendas voltadas para o consumidor final. "Temos um perfil parecido com o do Atacadão", diz um dos sócios do Tenda, Carlos Eduardo Severini.
O Atacadão, com faturamento de R$ 4,9 bilhões, 34 lojas em oito Estados e uma clientela de mais de 75% de pessoas físicas , foi comprado pelo Carrefour no final de abril. De concorrente, passou a ser uma nova marca estratégica do grupo francês para atingir o consumidor das classes C e D.
O Wal-Mart já opera no atacado com o Sams Club, um clube de compras onde os associados pagam anuidade de R$ 35 para freqüentar as lojas. Na região Sul, a bandeira de atacado do grupo americano é o Maxxi, que pertencia à rede Sonae, adquirida pelo Wal-Mart há quase dois anos. Sams e Maxxi têm um público grande de atacarejo.