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Análise: Juro dispara nos EUA e sinaliza dia negativo

08/06 - 08:44 - Valor Online

SÃO PAULO - Os juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano - uma espécie de benchmark para todos os mercados globais - dispararam ontem, ampliando a sombra de incertezas sobre o retorno, hoje, dos mercados brasileiros. Estes já vêm sofrendo desde terça-feira com as alterações de portfólio feitas pelos grandes fundos de investimentos internacionais desencadeadas pela percepção de que pode estar se consolidando um novo ciclo de reaperto monetário global. Os hedge funds estão diminuindo suas posições mais arriscadas mantidas até então em países emergentes até terem mais certeza sobre a consistência do novo cenário. Preferem abrir mão de rentabilidade em favor da segurança. É isso o que prometem os títulos americanos. Mas os treasuries só são adquiridos mediante remuneração mais elevada, condizente com os sinais do arrocho mundial. Ontem os T-10 saltaram de 4,97% para 5,11%, derrubando as bolsas de Wall Street e da Europa. O índice Dow Jones despencou 1,48% e o Nasdaq, 1,77%.

Os T-10 não superavam a barreira dos 5% desde 27 de julho do ano passado, quando foram cotado a 5,036%. Neste ano, as taxas subiam e desciam conforme as expectativas em relação ao momento em que o Federal Reserve (Fed) iria, em 2007, iniciar o procedimento de descida da taxa básica, solidamente ancorada em 5,25% há um ano, desde a reunião do Fed de 29 de junho de 2006. Quando parecia iminente a queda dos fed funds, as taxas dos treasuries de 10 anos recuavam da linha de 4,50%. E quando parecia mais distante o começo da flexibilização, os juros avançavam para a faixa entre 4,60% e 4,70%. Depois do duro discurso proferido pelo presidente do Fed, Ben Bernanke, no início da semana, não parou de crescer o sentimento de que não haverá queda do juro básico este ano. E os treasuries passaram a se mover aos saltos. A alta não cessará enquanto os investidores não encontrarem um novo horizonte, sob a forma de um mês no futuro, de queda. E estará só no princípio se a percepção se transformar em medo de avanço dos fed funds de 5,25% para 5,50% em algum mês de 2008. Além da fala de Bernanke, contribuiu para a ansiedade do mercado a decisão, tomada quarta-feira pelo Banco Central Europeu (BCE), de não só elevar a taxa básica de 3,75% para 4% como também sinalizar mais um avanço na próxima reunião. Ontem, o Banco da Inglaterra não aliviou a pressão. Embora tenha decidido manter em 5,5% o juro básico da Grã-Bretanha, emitiu alertas de que pode subir o juro em breve. Os analistas acreditam que a taxa pode chegar a 5,75% no curto prazo. Os nove membros do Copom britânico concordaram com a hipótese de aumentos adicionais depois da elevação de 0,25 ponto feita em maio. Como os mercados brasileiros não funcionaram ontem por causa do feriado, terão de se readaptar logo de manhã ao comportamento exibido ontem lá fora. A expectativa dos analistas locais é de um início de dia complicado. Se as bolsas de Nova York persistirem em queda, a tendência doméstica será negativamente redobrada, em face da liquidez mais apertada. Qualquer ordem de venda tende a magnificar o viés desfavorável. Após a reunião do Copom que reduziu a Selic de 12,5% para 12%, a estimativa dos executivos era de que, hoje, o pregão de DI futuro da BM & F seria forçado a corrigir os excessos de quarta-feira. Muitos tesoureiros de bancos entraram em pânico com a visão de que o Copom poderia reduzir o juro em apenas 0,25 ponto por causa das inquietações monetárias globais. E puxaram para cima generalizadamente a taxa embutida nos contratos. Para a virada do ano, o contrato mais líquido, o juro subiu 0,04 ponto, para 11,43%. Mas a correção para baixo pode estar ameaçada pela disparada dos juros americanos de longo prazo. Os investidores estrangeiros vinham sendo os principais responsáveis pela derrubada dos juros de longo prazo negociados na BM & F. Os hedge funds carregavam posições vendidas em taxa muito elevadas, em uma aposta de que a Selic iria em algum momento do futuro cair mais aceleradamente do que imaginava o restante do mercado. Eles chegaram, no final de abril, a carregar posições vendidas de R$ 125,45 bilhões. Elas foram caindo ao longo de maio e, na última posição oficialmente conhecida, referente à quarta-feira, já se constata uma inversão total. Os investidores estrangeiros já estão agora comprados em taxa no valor de R$ 839 milhões. Ou seja, apostam agora que a Selic cairá menos que os 10,50% previstos para o fim do ano. A mudança radical denuncia o desmonte dos contratos internacionais de venda de dólares e compra de reais. (Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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