25/05 - 11:41 - Valor Online
SÃO PAULO - Um dos mais traumáticos planos de enxugamento de pessoal da história recente da indústria automotiva no país foi interrompido no meio de seu curso graças ao consistente aquecimento nas vendas de veículos no mercado interno. A Volkswagen suspendeu a próxima etapa do plano de cortes de pessoal na fábrica de São Bernardo do Campo (SP) e ainda quer que os empregados aceitem fazer hora extra nos fins-de-semana.
De imediato, 186 vagas que seriam eliminadas até julho serão mantidas. Mas se o atual fôlego do mercado continuar há ainda esperança, por parte dos trabalhadores, de que mais 2,2 mil postos de trabalho, que seriam eliminados até 2008, sejam preservados.
A decisão de rever o programa de reestruturação, que, quando anunciado, há ano, provocou indignação até no Congresso Nacional, foi confirmada pelo próprio presidente da Volkswagen do Brasil, Thomas Schmall, que assumiu o cargo no meio do programa de enxugamento.
Durante a apresentação dos carros da linha 2008, ontem, Schmall disse que a montadora pretendia rever o plano. Logo depois, por meio do departamento de comunicação, a empresa confirmou que não tem a intenção de programar qualquer demissão no momento e que definiu dias adicionais de produção.
Os trabalhadores vão, na segunda-feira, votar em assembléia se aceitam os dias adicionais de produção. Isso significa, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que algumas áreas deverão fazer hora extra aos sábados ou domingos durante 19 fins-de-semana seguidos este ano e em mais 24 alternados em 2008.
O cronograma de eliminação de postos de trabalho na Volks de São Bernardo originalmente tinha onze fases, que iam de novembro do ano passado até 2008. Até lá a empresa pretendia eliminar 3,6 mil vagas, o que equivale a 30% do efetivo da fábrica.
Os cortes vinham sendo feitos por meio de um PDV (Programa de Demissões Voluntárias). Estimulados por incentivos e salários adicionais, 1,4 mil trabalhadores aderiram ao programa até agora. No acordo fechado com os trabalhadores, a empresa concordava em rever o número de demissões se a situação da fábrica tivesse uma melhora substancial.
Ninguém - nem mesmo os executivos das montadoras - previam que a melhora seria tão boa. Todas as previsões de aumento de vendas estão sendo refeitas, puxadas pelo mercado doméstico, que registra crescimento de 22,6% de janeiro a abril. Segundo a Volkswagen, o PDV pode ser retomado a qualquer momento.
Nesse caso, o acordo para horas extras será imediatamente cancelado. Na fábrica de Taubaté (SP), onde é produzida a linha Gol, a Volks recentemente fechou a contratação temporária de 711 operários até fevereiro de 2008 para poder completar o seu terceiro turno de trabalho.
A fábrica da Volks localizada na Via Anchieta, no ABC, marco do programa de investimentos da indústria automobilística no governo de Juscelino Kubitschek nos 50, foi palco de inúmeras assembléias, protestos e greves quando a empresa anunciou o plano de enxugamento em 2006.
A direção da empresa chegou a cogitar o fechamento da unidade. Mas, posteriormente, anunciou que essa fábrica produzirá um dos novos modelos de carros da marca alemã. Hoje em São Bernardo são produzidos Polo, parte do Fox e a Kombi. Se de um lado o mercado interno está bastante aquecido, por outro as exportações do setor têm diminuído por conta da valorização cambial.
Segundo Schmall, entre 2006 e 2012, a Volkswagen deverá reduzir as suas exportações em 25%. É por isso que, no caso da Volkswagen, a empresa mantém cautela ao negociar a suspensão de cortes com os representantes dos trabalhadores. A companhia prefere manter brechas para retomar programas como esse a qualquer momento, se necessário. (Marli Olmos | Valor Econômico)
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Operários da Volks alemã terão de trabalhar 33 horas por semana
